A moda a serviço da comunidade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de outubro de 2000
Rosângela Vale Londrina 
Dona Matilde, 51 anos, mãe de quatro filhos, mora há 11 anos no Jardim União da Vitória. Trocou o trabalho na roça pela máquina de costura, mas os constantes prejuízos fizeram com que desistisse da profissão. Vendi as máquinas e jurei que nunca mais pregava um botão, lembra. Mudou de idéia quando conheceu o pessoal da Coopa Roca, do Rio de Janeiro, reconhecido nacionalmente por transformar retalhos em moda, num trabalho que garante o sustento de muitas famílias.
A idéia de trazer o projeto carioca para Londrina veio da parceria entre o curso de Estilismo em Moda da Universidade Estadual de Londrina UEL) e o FILO 2000, que a partir do tema Uma cultura para a paz lançou a Oficina de Moda, cujo objetivo é direcionar as artesãs locais para o trabalho na área. Composta por cerca de 10 pessoas e contando com quatro máquinas uma delas doadas pela associação do Banco do Brasil instaladas nos fundos da casa de Dona Matilde, a Associação de Mulheres A União Faz a Força, iniciou um trabalho com restos de tecidos e sucatas distribuídas por confecções e empresas locais. Nosso sonho é ter uma sede própria, diz Aparecida Alves da Silva, uma das cooperadas.
Os professores da universidade desenham os modelos e ensinam truques de acabamento e modelagem e a Coopa Roca fornece o know-how de técnicas artesanais como o fuxico, patchwork, o bordado e o crochê. Eu já costuro há 35 anos, mas não sabia que com o retalho dava para fazer coisas tão bonitas, conta D. Matilde. Além disso, diz ela, esta é uma ótima alternativa para entrar no mercado. De acordo com Nélio Pinheiro, supervisor do projeto, a comunidade ainda está por descobrir o seu próprio caminho. A moda da Coopa Roca é mais sensual, por causa do clima do Rio. Aqui, a realidade é outra. Nossa proposta é trabalhar com as habilidades das próprias artesãs locais, observa. Uma delas é o abrolho, técnica em que se desfia o tecido de algodão, fazendo amarrações, até conseguir um aspecto de franja.
O tema principal do projeto foi a discriminação, uma realidade vivida por estas mulheres que moram no bairro mais violento da cidade. Quando os moradores do Jardim União da Vitória vão procurar emprego são sempre discriminados e raramente recebidos. Todos acham que lá só moram marginais e pessoas violentas, conta Nitis Jacom, responsável pelo FILO.
O objetivo foi propor, a partir da experiência da Coopa Roca, novos modelos de organização de trabalho. O resultado da produção comunitária foi uma instalação realizada no Shopping Royal Plaza, dentro da programação do Festival, em maio deste ano. Em quatro noites de eventos, grande parte das peças foi vendida, animando as artesãs a dar continuidade ao trabalho.
O Projeto de Moda deu tão certo que vem recebendo do FILO assessoria técnica e administrativa. Agora estão sendo efetuados contatos no sentido de
estabelecer e ampliar intercâmbios entre as artesãs londrinenses e as de outras cidades e Estados brasileiros.
As peças produzidas pelas mulheres do União da Vitória estão sendo comercializadas em dois endereços: no Maeve Brechó e Multibazar (Shopping Via Pio XII e no Tower Shopping, 1º andar), e na Overloque, ao lado do Hotel do Lago. Como a produção das peças é pequena, as cooperadas ainda não tiveram retorno financeiro. O dinheiro que recebemos usamos para comprar botões, zíperes, linha e agulhas, conta Dona Matilde. As empresas interessadas em fazer doações à Cooperativa tecido plano, retalhos, malharia, tricô e aviamentos devem entrar em contato com a Casa de Cultura (fone: 324-8694/324-5210; e-mail: [email protected]).
Pioneirismo Uma das pioneiras na recuperação de técnicas manuais brasileiras e na conscientização social, a Coopa Roca surgiu a partir de um trabalho desenvolvido pela socióloga e arte-educadora Maria Tereza Leal. O embrião do que seria a cooperativa teve início numa oficina de reciclagem para crianças da Rocinha. Me lembro bem quando trouxe para as crianças retalhos de tecidos e que as mães pediram o material para fazer alguns produtos, diz Tereza.
Informalmente, a Coopa Roca teve início em 1982, sistematizando um conhecimento que já existia entre as moradoras da favela, vindas na sua maioria do Nordeste. Desde pequena emendava paninhos no Ceará. Quando meus filhos eram pequenos, fazia bonecas de pano e roupinhas porque não tinha dinheiro para comprar, relembra Dona Tereza, uma das cooperadas mais antigas. Hoje, ela já é dona de uma máquina industrial que ganhou no programa da apresentadora Hebe Camargo.
A Cooperativa tem sede própria na favela e equipamentos doados pela Fundação Banco do Brasil e empresários do ramo de confecção. Entre os trabalhos realizados estão cenografias para a Rede Globo e para a última turnê da cantora Fernanda Abreu, figurinos para a banda de Carlinhos Brown, eventos como a exposição em cartaz no Senac, a Retalhar, e participação no último MorumbiFashion Brasil.
O mais novo feito é a parceria com a M. Officer. Desde agosto, a Coppa Roca produz peças em crochê e patchwork para as lojas da grife. A empresa entra com o domínio em modelagem e acabamento e nós entramos com a técnica artesanal, explica Tereza. Até o final do ano, a cooperativa estará triplicando o número de cooperadas, que hoje chega a 50. Segundo Tereza, o objetivo da Coopa Roca é promover o artesanato respeitando a história de vida de cada pessoa.
Amazônia Outros projetos simulares tem desvendado o lado menos fútil da moda. Na Amazônia, o Projeto Couro Vegetal trabalha no aprimoramento do artesanato tradicional do seringueiro. São bolsas, roupas e sapatos desenvolvidos por índios e seringueiros a partir da marca registrada Treetap, um tecido emborrachado com látex natural.
Tudo surgiu em 1991, quando Maria Beatriz Saldanha, estilista e uma das fundadoras do Partido Verde, havia encomendado uma pesquisa para sua loja de produtos ecológicos no Rio de Janeiro. Dos 700 produtos então existentes na loja Eco Mercado, ela resolveu apostar em apenas um: o couro vegetal. Com investimento de US$ 1 milhão, se associou ao Instituto Nawa para o Desenvolvimento do Extrativismo Sustentável na Amazônia e a três produtores do Acre e do Amazonas.
Em 1994, fundou a Couro Vegetal do Amazônia S. A, que hoje tem como clientes a Hermes, de Paris, o estilista Ocimar Versolato, a Neals Yard, da Inglaterra, além das lojas brasileiras Natura Market, Viva Vegan, Será o Benedito, em São Paulo, e empresas como Coca-Cola, o Comitê Olímpico Brasileiro e a Petrobrás. Procuramos adaptar a realidade do seringal nativo e criar alternativas para as populações tradicionais da Amazônia, explica Maria Beatriz.
A Couro Vegetal dá emprego para 200 famílias, entre índios, brancos e seringueiros que, segundo Maria Beatriz, não tinham nem carteira de identidade nem CPF. Realmente, acho que estou cumprindo meu papel como cidadã e idealista e contribuindo para uma melhoria de vida, comenta. O Projeto Couro Vegetal ganhou em 1998, da Fundação Getúlio Vargas e do Banco Mundial, o prêmio Parcerias, Pobreza e Cidadania por ser considerado uma das dez iniciativas mais relevantes no combate à pobreza.
Através de inovadoras tecnologias, o Projeto desenvolveu o Treetap, um tecido 100% algodão, banhado em látex extraído da seringueira nativa hevea brasiliensis. Vários ajustes foram feitos para se chegar a um produto competitivo. Uma das adaptações que tivemos que fazer foi agregar a tecnologia de vulcanização na fabricação da borracha, pois percebemos que algumas bolsas derretiam no sol, conta Maria Beatriz.
Hoje, a borracha é defumada em pequenos vulcões de barro e vulcanizada em estufas especiais. Nós agregamos tecnologia a um processo artesanal inteiramente compatível com o ecossistema, explica Maria Beatriz. Mas o trabalho ainda depende da mão do seringueiro, que é um artesão, diz. A coleção é composta por bolsas e acessórios e uma linha de roupas que procura estar antenada com as tendências da moda. A Couro Vegetal acaba de lançar seu site na Internet com direito a uma loja virtual para vender seus produtos
(www.treetap.com.br)
Bastidores As Faculdades de Moda também estão revelando uma nova face do universo fashion. O Centro de Educação em Moda do Senac SP e o Centro de Educação Comunitário para o trabalho acabam de criar o projeto Moda na Comunidade. O Senac, por meio de seus professores, entra com o know-how em moda treinando monitores que, posteriormente, irão ensinar o ofício de costura e modelagem para comunidades de baixa renda.
O intuito é fornecer ferramentas para que pessoas desempregadas possam ter uma fonte de geração de recursos. Roupas artesanais, modelagem, corte e costura são algumas das técnicas ensinadas. O Moda na Comunidade conta com o apoio dos voluntários, alunos da Faculdade Senac de Moda que reciclam peças de roupas arrecadadas durante os workshops chamados Oficinas da Criatividade. Este é o lado dos bastidores da moda. Sem as costureiras não existiria todo o glamour, diz David Rojtman, do departamento de marketing do Senac.
Na Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, também estão pipocando projetos como este. O primeiro, idealizado pela reitoria, pretende fornecer cursos de trabalhos manuais para o abrigos de mendigos localizado ao lado do Museu da Imigração. O segundo, idealizado pela professora Luciane Imparato, tem como objetivo disponibilizar o ateliê de costura da universidade para as comunidades carentes da Vila Olímpia.
As cooperativas são prova viva de que moda não é só passarela, glamour, tititi e futilidades. O universo fashion gera empregos, dá melhores condições de vida e se transforma em ofício e fonte de renda para comunidades de baixa renda. Com retalho, linha, agulha e técnicas artesanais já é possível transformar a realidade social do País. (Colaboraram Sabina Deweik e Débora Matalon/Agência Estado)


