À Mesa - DIÁRIO DE UMA ALUNA DE GASTRONOMIA - Cozinhando sob uma divertida pressão
Em outubro começou a nova temporada de Homens Gourmet, no Fox Play, um dos programas televisivos de culinária que mais gosto de assistir; não só porque os rapazes são lindos, mas porque desmistificam pratos aparentemente difíceis e divagam sobre a origem de algumas preparações e a razão do uso de determinados ingredientes nas receitas. Depois que comecei a assistir o programa, passei a seguir os chefs apresentadores nas redes sociais e até já experimentei a famosa focaccia do mais "bravo" deles, o Carlos Bertolazzi.
No mês passado ele estreou no SBT a terceira temporada do "Cozinha sob Pressão", a versão brasileira do programa "Hell's Kitchen", apresentado mundialmente pelo aterrorizante (mas nem tanto) Gordon Ramsay. Chef inglês que faz mais do que brigar com os aspirantes a cozinheiros, Ramsay também comanda o "Kitchen Nightmares", onde mostra seu lado "bonzinho" ao tentar ajudar donos de restaurantes a recuperar seus negócios. Mas o programa que mais gosto do inglês é o "Refeições em família", em que ele prepara café da manhã, almoço e jantar com a ajuda dos filhos. É quando descobrimos um lado doce do "terrível" chef.
"Ainda não tive a oportunidade de conhecê-lo, que para mim é um sonho", diz Carlos Bertolazzi sobre o ídolo Ramsay. Desde a segunda temporada de "Cozinha sob Pressão" - que agora adotará o nome original "Hell's Kitchen" por aqui - o brasileiro tem a oportunidade de ser ele mesmo na telinha: "Sou chato, exigente, pavio curto, não tolero erro besta", garante.
Bertolazzi se arriscou na administração antes de decidir abraçar a tradição familiar de vestir o avental e "pilotar" o fogão. "Minha vó tinha uma indústria alimentícia, trabalhava na cozinha experimental, escrevendo livros de receitas da empresa. Minha mãe montou um buffet e meu pai sempre cozinhou por hobby. Entre 2003 e 2005, eu fiz bicos e alguns eventos para ver se era aquilo mesmo que eu queria, mas não havia deixado o mercado financeiro, pois precisava ganhar dinheiro. Em 2005 decidi que era isso que eu queria, então fui para a Itália estudar e trabalhar", conta o chef, emendando: "A origem italiana influenciou a ideia de cozinha que eu faço, que é um pedaço da Itália, a Ligúria, que está no sangue e é uma verdade minha, não faria sentido eu fazer outra cozinha".
O chef que sabe ser tão brincalhão quanto bravo quando quer na TV e nas redes sociais admite ainda usar muita coisa do que aprendeu na faculdade de administração na nova carreira. "As pessoas acham que o trabalho de cozinheiro é só cozinhar, mas envolve várias áreas administrativas, como custo, gestão de estoque, gestão de pessoas. Para mim, cozinhar é um hobby. Eu trabalhava no mercado financeiro e usava a cozinha para agradar os clientes, aí percebi que os clientes gostavam mais de comer do que falar de negócios", recorda.
A estreia do chef na TV não foi nada glamorosa. "O cachê era ridículo. Eu estava abrindo meu restaurante, era mais para me divulgar. Não sabia qual seria a repercussão, mas era uma boa oportunidade", comenta Bertolazzi, que não conhecia os outros três homens gourmet, os chefs Guga Rocha, Dalton Rangel e João Alcântara, hoje amigos. "Hoje encontro direto com eles. Fazemos churrasco, saímos para tomar uma cerveja."
Bertolazzi lembra que já conhecia a representante da Frametalle, detentora dos direitos do Hell's Kitchen no Brasil, e o formato do programa quando foi convidado a "representar" o Gordon Ramsay brasileiro. "Acredito nessa liberdade de identidade para poder criar um próprio personagem, sem precisar parecer com o Gordon."
Para Bertolazzi, autor do livro "ichef: Histórias e Receitas de um Chef Conectado", o Brasil ainda está criando uma consciência de seu potencial gastronômico. "A gastronomia está ligada ao turismo, mas o Brasil parece não saber lidar, como outros países, com turismo gastronômico. Mas demos passos importantes. O brasileiro está dando mais valor para um ingrediente nacional, para um produto mais especializado", opina.
Famoso pela coxinha de pato, ele garante que nunca pensou em gourmetizar a iguaria quando decidiu criá-la. "Adoro a carne de pato. Então, falei: 'Vou fazer com carne de pato'. Eu acho que existe um exagero, não do que está sendo feito, mas de taxar tudo que tem sido feito de gourmet, quando, na verdade, quem está fazendo só está querendo fazer algo novo ou tentando dar um toque diferente numa receita tradicional."
Sobre projetos futuros, ele diz que não pensa em abrir um novo restaurante. "Exige uma dedicação incrível, ainda mais agora com toda a exposição que a gente tem, aumenta o telhado de vidro, então a gente tem que tomar cuidado e saber a hora de crescer nesse segmento", justifica. Mas está partindo para o licenciamento de produtos, entre eles um molho de pimenta que já é comercializado no País - e uma linha de massas com molhos, que está em fase final de teste e deve ser vendida em supermercados. "Adoro fazer 'Cozinha sob Pressão', curto o perfil do programa, me sinto muito verdadeiro, mas a televisão muda a toda hora, formatos novos aparecem, e vou tentar aproveitar sempre esse pezinho que eu coloquei dentro do SBT, e que é uma casa onde gosto muito de trabalhar, para estar sempre à disposição para poder fazer o que o pessoal gosta", finaliza o chef, confessando que gostaria de ter sido o criador do estrogonofe. "Me tira de qualquer regime", brinca.
Mariana Guerin é jornalista na FOLHA






