A estratégia do mentiroso, ao criar uma mentira, é evitar o contato com a realidade, mesmo que inconscientemente. Isso porque quem deseja a verdade, precisa se preparar para as consequências.
A mentira pode apresentar inúmeras definições, como por exemplo quando a pessoa sabidamente falta com a verdade, afirma algo que sabe ser contrário à verdade, ilude, induz ao erro. Há uma linha tênue que separa a mentira, a ilusão e o delírio. Para o médico e psicanalista Marcelo José de Castro, a mentira pode emergir quando a pessoa entra em contato com a realidade dolorosa.
Antes de conceituar a mentira, é preciso diferenciá-la da ilusão e do delírio, avisa Marcelo. Na ilusão, a pessoa afirma algo em que sinceramente acredita. No livro ‘‘O Futuro de uma Ilusão’’, Freud argumenta que a ilusão é quando o desejo se confunde com a realidade.
Já no delírio, a pessoa impõe ao outro a sua verdade. O delirante acredita que é Napoleão, por exemplo, sintoma psicótico descrito como delírio de grandeza. Na mentira propriamente dita, a pessoa mente sabendo que aquilo que argumentou não é verdadeiro. O mentiroso diz algo que sabe ser inverídico.
Marcelo Castro afirma: ‘‘Não vejo necessidade do diagnóstico de mentiroso compulsivo’’. Na Classificação Internacional de Doenças (CID), existem alguns transtornos de personalidade e comportamento em que a mentira pode ser incluída. Mas sempre como coadjuvante e não como uma patologia principal. Em alguns dos casos são incluídas as pessoas que fingem ter algum sintoma ou sofrem de determinada incapacidade. Os cleptomaníacos também se valem da mentira para sustentar que não roubaram o objeto do desejo.
Dorico da Silva‘‘A verdade e a mentira são relativizadas pelo afeto’’, explica o médico e psicanalista Marcelo José de Castro‘‘A mentira visa sempre algum ganho para pessoa’’, frisa o especialista. Na verdade, parece ser mais simples envolver-se em artimanhas fantasiosas do que enfrentar as limitações. Isso porque uma mentira leva a outra. Tomando-se como exemplo um alcoólatra: enquanto ele persistir que não é viciado em álcool, certamente vai beber mais e sofrer as consequências. O fígado vai ficar cada vez mais danificado, ele incorrerá em maiores riscos de acidentes de trânsito, a família sofrerá com o comportamento violento do viciado. Resumindo: o alcoólatra acredita firmemente que mentindo estará economizando o penoso trabalho de se curar. Para ele, a verdade é uma barreira intransponível. ‘‘Ele nega sinceramente’’, considera.Ivo AkioA mentira pode mascarar muitas frustrações e limitações, difíceis de encarar frente a frenteFrancelino França

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