A luta continua
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de março de 2002
Celso Mattos 
As mulheres ainda não são, mas estão se tornando maioria no mercado de trabalho. E o que mais surpreende é que elas estão assumindo postos em setores que antes eram reduto exclusivamente masculino, como as áreas de auto-peças, metalurgia, administração de fazendas e política. Além disso, pela primeira vez, uma mulher aparece em 2º lugar nas pesquisas para o cargo de presidente da República do Brasil.
Empresas como a Rhodia, por exemplo, apresentam um índice acima de 60% de mulheres entre as recém-contratadas. Há 20 anos, esse número era de menos de 20%. Já na Ford o número de funcionárias que atua na linha de montagem de caminhão é de 15%, antes só havia homens. A medicina e a arquitetura também surgem como áreas que tiveram um crescimento da participação feminina: 300% nos últimos dez anos.
No Brasil, o avanço da mulher no mercado de trabalho foi impressionante: dos 10,1% milhões de postos de trabalho abertos no país entre 1989 a 1999, quase 7 milhões foram ocupados por mulheres. O consultor de recursos humanos José Carlos Dutra, de São Paulo, diz que os números não mentem, mas isso não quer dizer que a discriminação da mulher no mercado de trabalho acabou. Elas ainda sofrem desse mal, em menor proporção, mas sofrem, afirma.
Nos grandes centros como Rio e São Paulo, é mais comum ver mulheres ocupando altos postos nas empresas e até ganhando igual aos homens. Mas são exceções. No interior do País isso é mais difícil porque a discriminação é maior, acrescenta o consultor.
Ele lembra, por exemplo, que nos Estados Unidos a participação feminina no mercado de trabalho declina entre 10% e 30% para cada filho gerado. Quanto mais filhos a mulher tem, menor é sua chance de arrumar um novo emprego, informa. No Brasil esses índices variam de 9% a 38%. complementa Dutra.
O consultor de RH argumenta que as mulheres casadas e com filhos são mais discriminadas no mercado de trabalho. Isso porque no Brasil não há um programa de assistência familiar semelhante ao de países como Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França e Suécia.
Esses países criaram mecanismos para que as mães possam deixar seus filhos aos cuidados de profissionais enquanto trabalham. Trata-se de um programa de ensino integral, creche e acompanhamento escolar. Além disso, ao contrário do homem brasileiro, o europeu participa mais da vida doméstica, não deixando tudo a cargo da mulher, lembra.
Dutra considera o crescimento da participação feminina no mercado de trabalho um avanço para o desenvolvimento social e econômico do país. As mulheres são mais polivalentes e, desde cedo, aprendem a ser versáteis na vida, acumulando funções e exercendo ao mesmo tempo os papéis de filha, mãe e esposa. Além disso, elas são menos competitivas e têm mais jogo de cintura que os homens, qualifica Dutra.
Apenas 24% das mulheres
assumem cargo de gerência
Para Helena Herrero Ferreira, presidente do Conselho de Mulheres Empresárias de Londrina, da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), o século 20 foi um marco na emancipação da mulher. Podemos dizer que na década de 90, a mulher foi a agente nas mudanças comportamentais e até econômicas e políticas. Para se ter uma idéia, em 1960 havia apenas 18% das mulheres no mercado de trabalho; em 1972, esse número subiu para 42% e, atualmente, estamos com uma participação quase semelhante à masculina, observa.
Entretanto, segundo Helena Herrero, o caminho a ser percorrido ainda é grande. Apesar de muitos especialistas afirmarem que não existe mais discriminação salarial no mercado de trabalho entre homens e mulheres, percebemos que existe, sim. A mulher ainda ganha 2/3 do salário do homem ocupando a mesma função. Além disso, apenas 24% das mulheres brasileiras atingem cargo de gerência numa empresa, aponta.
Como se isso não bastasse, as mulheres estão mais sujeitas a demissões e têm mais dificuldades de voltar ao mercado de trabalho. Helena lembra que a Associação Comercial e Industrial do Paraná foi a primeira a abrir espaço para a mulher na diretoria. Hoje, a Acil de Londrina tem 18 diretores e duas mulheres em sua diretoria, informa. Ela diz que em recente levantamento foi constatado que 60% dos sócios da Acil de Londrina são formados por mulheres. Essas empresárias estão atuando em setores diversificados e não apenas no de confecções.
Helena Herrero ressalta que apesar da mulher chegar ao mercado de trabalho mais qualificada, continua ganhando menos que o homem. Recentemente estava lendo uma matéria que dizia que a mulher só vai alcançar a igualdade de gênero com o homem num prazo de 400 anos. No entanto, não podemos nos deixar levar pelo pessimisno. Precisamos continuar lutando para ocupar nosso espaço na sociedade. E é para isso que estamos trabalhando, afirma. C.M)


