A linguagem do afeto
Arquivo FolhaSegundo a psicóloga Solange Leme Ferreira, os pais devem ter em mente que a sexualidade do filho portador de deficiência é um direito e não uma concessãoDe acordo com a psicóloga Solange Leme Ferreira, docente há 20 anos na área de Educação Especial na UEL, a dificuldade ou a facilidade de os pais em lidar com a adolescência do filho especial é a mesma em relação a um filho normal. A diferença vai estar na forma de dialogar. ‘‘E isso é criado naquele vínculo afetivo da família. É um processo mútuo de descoberta, de se fazer entender’’, observa. Para ela, a adolescência não traz, inerentemente, crises e problemas. ‘‘Vai depender muito do meio ambiente e da relação com os pais’’, observa.
Solange sabe o que diz. Além da vasta experiência como professora, coordenou vários projetos de extensão sobre o assunto. O primeiro deles deu origem à Associação de Pais de Portadores da Síndrome de Down (APS Down). Depois veio o projeto de conscientização sobre doença mental, do qual saiu o livro ‘‘Aprendendo sobre Deficiência Mental: um programa para criança’’, lançado no ano passado. Atualmente, ela coordena o grupo de teatro para atores especiais, o G:T:P:A:Ê, cuja terceira peça será apresentada em Londrina no início de novembro, durante o Congresso Paranaense de Psicologia Social.
Compreender que a sexualidade do portador de deficiência mental não difere da de um não portador, é o primeiro passo para os pais saberem lidar com essa nova fase de vida do filho. ‘‘QI é diferente de QS’’, afirma Solange. Também é preciso deixar claro que idade cronológica é diferente de idade mental. ‘‘Com 18 anos, um portador de deficiência mental pode ainda não estar na adolescência; vai depender do nível da deficiência.
O segundo passo é identificar o nível de entendimento do filho e procurar livros de educação sexual específicos para a faixa etária em questão. ‘‘Ele pode ser um adulto, mas ter o entendimento de uma criança de 4 anos’’, informa a psicóloga, enfatizando que os pais devem ter em mente que a sexualidade do filho é um direito e não uma concessão. ‘‘O deficiente mental, geralmente, é visto como um ser assexuado, um anjo. Esses mitos acabam aumentando a dificuldade natural dos pais de lidar com o assunto’’. E podem tornar ainda mais complicada a difícil tarefa que eles têm pela frente.
‘‘O portador de deficiência mental vai se masturbar da mesma forma que o não portador. Mas, por ter um comprometimento mental, não saberá discernir os locais socialmente aceitáveis para fazer isso. Deve, portanto, ser orientado pelos pais’’, ensina Solange. Segundo ela, há casos em que a deficiência é tão acentuada que a masturbação pode se tornar a única fonte de prazer para a pessoa. ‘‘E ela pode passar a fazer uso disso de forma exacerbada e acabar até se machucando. Novamente, os pais devem entrar em ação, supervisionando a atividade de masturbação do filho. As explicações devem ser simplificadas. Se ele não entender, é preciso dar o modelo, ensinar, na prática, como fazer’’, avisa a psicóloga, atentando ainda para a importância de oferecer outras alternativas de vida, para que ele não busque o prazer só na atividade sexual.
A desestruturação da família é outra questão delicada. ‘‘É muito comum um dos pais – quase sempre o homem – ir embora, pois não tem estrutura emocional para conviver com aquele filho que não vai cumprir suas expectativas. Essa ruptura no modelo de família vai refletir na relação de afeto com o filho, o que acaba comprometendo seu desenvolvimento e sua aprendizagem’’, diz Solange. Isso não significa, entretanto, que os pais que permanecem estejam realmente ali, de coração. ‘‘É preciso demonstrar o amor em todos os gestos, não apenas com palavras’’. (RV)

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