À primeira vista, parece loucura abandonar a profissão depois de ter batalhado tanto para conseguir o diploma e, mais ainda, para conquistar uma boa colocação profissional. Mesmo que a tão sonhada carreira já não tenha mais os mesmos atrativos do início, o dia-a-dia tenha se tornado enfadonho e as expectativas de crescimento sejam pouco motivadoras. Algumas pessoas, entretanto, tiveram a coragem de tomar a decisão que ronda os sonhos de muita gente. Elas começaram tudo outra vez. Outras, apesar de satisfeitas com a profissão, vislumbraram chances de realização pessoal em setores totalmente diferentes e não titubearam em mudar de ramo.
Quando criança, a empresária Áurea Lika Kikuti, 30 anos, costumava desenhar suas próprias roupas para a mãe costurar. Cresceu e optou por Odontologia porque acreditava que a atividade possibilitaria a delimitação de horários. ‘‘Me preocupava com isso por causa dos planos de ser mãe mais tarde’’, justifica. Para entrar no curso, tentou vestibular durante um ano e meio. Na hora de montar e tocar o consultório, foi outra luta. ‘‘Não tinha uma carteira de clientes como os profissionais mais renomados, mas conseguia me manter com um certo sacrifício’’, conta ela.
Mudar de profissão nem passava pela sua cabeça até que, por idéia da mãe, se inscreveu em um curso de pós-graduação em Moda. Sua família tinha uma malharia de fundo de quintal e Áurea sempre opinava na parte de criação. ‘‘Na época, meu consultório era meu mundo. Quando fiz a pós-graduação, meu mundo se abriu. Comecei a ir a feiras e desfiles e descobri que poderia trabalhar sem estar entre quatro paredes’’. O envolvimento com a malharia foi aumentando e, durante dois anos, ela conciliou as duas atividades.
A decisão de trocar as brocas pelos croquis só veio há 10 meses. ‘‘Pensei que ia sofrer muito, mas me dediquei de corpo e alma à malharia e vi que deu certo. Expandimos as instalações e aumentamos o número de clientes. Pessoalmente, me sinto mais realizada. Na odontologia, fazia o que me ensinaram. Na moda, é preciso mostrar personalidade. É muito bom ver algo pronto e saber que fui eu quem criou’’, diz. Apesar de não ter horário fixo para sair do trabalho e, às vezes, nem finais de semana livres, ela garante: ‘‘É um prazer estar aqui’’.
Diversificação Ao explicar as razões que a levaram a trocar a psiquiatria pelos negócios, a médica e empresária Juliana Nogueira Stabile cita um artigo que leu certa vez. Era um estudo afirmando que a maior parte das pessoas tem um centro de habilidades e não apenas uma habilidade. Mudar de profissão seria um incentivo para desenvolver outras potencialidades e se realizar como pessoa. A matéria sugeria que essa mudança fosse feita a cada 10 anos. Ao que tudo indica, Juliana e o marido, o empresário e médico otorrinolaringologista Clodomiro Cruz Stabile, estão seguindo a orientação à risca.
Formados pela Universidade de São Paulo (USP), ambos montaram consultório, primeiro em São Paulo, depois em Presidente Prudente, onde moram atualmente. E atuaram em suas respectivas áreas por uma década. A guinada profissional veio por motivos diferentes para cada um deles. Clodomiro teve que cuidar de algumas propriedades rurais da família e não foi possível conciliar as constantes viagens ao sul do Mato Grosso com as atividades médicas.
Juliana se deparou com novas possibilidades profissionais e descobriu seu talento para os negócios: teve uma confecção própria, trabalhou na área de administração hospitalar e depois se juntou ao marido na coordenação das fazendas. O saldo das experiências foi para lá de positivo: uma faculdade de Administração de Empresas, cursos de administração financeira e hospitalar e pós-graduação em Administração Rural.
O casal tomou gosto pela diversificação das atividades e entrou em sociedade em uma loja que vende móveis planejados e já conta com duas unidades: uma em Presidente Prudente e outra inaugurada recentemente em Londrina. Eles têm ainda uma corretora, que centraliza todos os negócios desenvolvidos, incluindo mercado de futuro na Bolsa de Mercados e Futuros (BM&F), em São Paulo. O próximo passo? Criar uma empresa de seleção de recursos humanos, já que consideram o mercado carente nesse setor.
Embora tenham partido para um setor totalmente diferente da formação acadêmica inicial que tiveram, Clodomiro e Juliana encontram similaridades nos dois trabalhos. ‘‘Não deixamos de exercer o raciocínio clínico, tanto na forma de abordar os números, como na prestação de serviços e também na disponibilidade de estar sempre se atualizando’’, observam. De acordo com Clodomiro, a grande escolha feita por eles não foi apenas profissional. Foi também uma questão de posicionamento diante da vida. ‘‘Como o homem pode ser mais feliz? Sabendo cada vez mais sobre cada vez menos, ou menos sobre cada vez mais? Escolhemos a última opção. É mais rico do que ser fechar em uma só área’’.
Conhecimentos somados A dentista Luiza Nakama, 52 anos, acredita que, mesmo mudando de profissão, nunca há uma ruptura mas, sim, conhecimentos que se somam para ampliar a visão profissional. Foi assim na sua carreira. Formada em magistério e já lecionando, ela concluiu o curso de Letras – dava aulas de português em escola pública – e, mais tarde, o de Pedagogia, movida pela necessidade de um maior embasamento para o cargo de coordenadora pedagógica que passou o ocupar.
No início dos anos 80, ela acompanhou a reformulação do ensino proposta pelo governo do Estado, mas acabou tendo uma grande decepção. ‘‘O governo mudou, engavetou todo o projeto e resolveu começar do zero. Fiquei muito brava, achei um desrespeito com todos nós que tínhamos trabalhado e também com o dinheiro público’’, lembra.
Foi então que o marido, dentista, vendo a sua desmotivação, sugeriu que ela mudasse de área. ‘‘Ele é dentista e eu sempre o acompanhava nos cursos e viagens. Por isso, para mim, o jargão da profissão já era familiar’’, conta. Com os filhos quase adolescentes e com poucos conhecimentos em matemática, física, química e biologia, Luíza resolveu encarar o vestibular para Odontologia. Fez três meses de cursinho, passou em 12º lugar na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e começou a terceira faculdade aos 36 anos. Durante o curso não deixou de lecionar. Aposentou-se como professora quatro anos após a sua formatura. E nunca mais abandonou a carreira acadêmica.
Além de ter sido coordenadora do curso de Odontologia, Luíza prestou concurso para Odontopediatria e passou a atuar na área pedagógica da Bebê Clínica da UEL, trabalho que desenvolve até hoje, acompanhando estágios e projetos educativos para a comunidade. Voltou à faculdade, como aluna, inúmeras vezes. ‘‘Meu filho mais velho, também dentista, saiu para o mestrado e tive que assumir as atividade do Centro de Radiologia e fazer especialização na área’’, conta. No seu currículo constam ainda mestrado em Saúde Coletiva pela UEL e doutorado em Odontologia Preventiva pela Unesp. Atualmente, faz especialização em Bioética na UEL.
Além do trabalho no Centro de Radiologia, ela assina uma coluna no jornal Paraná Shimbum sobre saúde bucal e participa de um programa na Rádio Alvorada, por conta de suas atividades na Pastoral da Criança de Londrina, onde inseriu o projeto de saúde bucal para bebês. Refletindo sobre a sua trajetória, ela conclui. ‘‘Saí do magistério e voltei para ele. Ou, na verdade, nunca o deixei. Docente e doutor têm a mesma raiz etimológica. O que significa que o profissional da saúde também tem a função de ensinar. Minha área de atuação deixou de ser uma sala de aula para ser uma comunidade inteira.’’

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