A hipnose invade o consultório
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quinta-feira, 13 de abril de 2006
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Comum nos programas de auditório, onde as pessoas comem cebolas cruas sem fazer cara feia ou falam como bebês de um ano de idade, a hipnose é vista como um espetáculo para a maioria das pessoas. Imaginá-la dentro de um consultório, ajudando no tratamento de problemas psicológicos, é algo impossível para os que acreditam que a prática seja puro charlatanismo.
O hipnotismo, usado desde o século 30 a.C. por sacerdotes egípcios e estudado por nomes como Sigmund Freud, há seis anos foi aceito pela psicologia como forma de desvendar a origem de distúrbios da mente. E essa não é a única área da saúde que trabalha com a hipnose. ''A odontologia e a psiquiatria também usam. O profissional da área precisa fazer um curso na Associação Brasileira de Hipnose e Hipniatria para se credenciar. Não fazemos show, é um trabalho sério com resultados comprovados'', diz a psicóloga Eliane Marçal.
Com seus pacientes, Eliane usa a hipnoterapia, uma junção de terapia convencional com hipnose. ''Separamos o funcionamento consciente da mente do subconsciente, que trabalha no organismo por meio do sistema nervoso autônomo, sistema hormonal, auto-imune e neuropeptídio. A razão de muitos problemas está no subconsciente da pessoa; ela não sabe disso porque nunca investigou essa área'', afirma.
Uma vez desvendados os problemas guardados no subconsciente, o paciente começa então a terapia, voltada para resolver ressentimentos, mágoas e traumas muitas vezes antigos. ''Pode ser que algo que incomoda a pessoa hoje vem de alguma coisa que ela traz da infância. Dessa forma, o tratamento é mais rápido porque vai direto ao ponto de conflito. Geralmente, em dez sessões é possível dar alta. Mas esse número pode variar de caso para caso'', lembra.
Como nos shows de auditório, para utilizar a hipnose em tratamentos o paciente precisa querer entrar em transe. ''Primeiro se faz uma entrevista para verificar quais são os problemas da pessoa. Depois comento sobre a possibilidade de utilizar a hipnose e pergunto se o paciente a deseja. Todas as pessoas são hipnotizáveis, mas é preciso haver confiança no profisssional. Algumas pessoas só conseguem entrar em transe depois de algumas sessões'', conta Eliane.
Ela diz que um motivo comum para a recusa em ser hipnotizado é o medo de não voltar do transe. ''Isso não acontece de maneira nenhuma. A pessoa dificilmente esquece o que aconteceu e tem a capacidade de interromper o transe e voltar dele quando quiser'', garante. Por não ser um tratamento de risco, qualquer pessoa pode se submeter às sessões. ''Apenas mulheres grávidas não são aconselhadas a fazer para não interferir no bebê. Durante a hipnose não existe aumento de pressão, taquicardia, nada. A pessoa fica em estado de relaxamento'', afirma.
Depressão, obesidade, dificuldade de aprendizado, dores físicas psicossomáticas, alcoolismo e dependência de outras drogas são alguns problemas que a especialista garante que podem ser tratados com a hipnose e apresentam bons resultados. ''Depois do transe, o paciente consegue perceber as razões para esses comportamentos e, na terapia convencional, aprender a lidar com eles e superá-los. Não é um trabalho que precise ser feito o resto da vida. O novo comportamento é mantido'', diz.
No entanto, a técnica pode não funcionar para alguns casos. A psicóloga lembra que alguns pacientes simplesmente não conseguem terminar o tratamento por não suportar a lembrança de coisas tristes ou incômodas do passado. ''Costumo comparar os problemas do subconsciente com feridas que não cicatrizaram. Causam dor quando são mexidas, mas é preciso para que elas fechem de uma vez. Mas algumas pessoas não suportam a dor de descobrir coisas guardadas por muito tempo e desistem do tratamento'', explica.
Técnica multiuso
Além dos consultórios de psicologia, a hipnose atua em várias áreas da medicina, ajudando no controle da dor e na melhora de diversas doenças. Em nenhum dos casos a hipnose trabalha sozinha, mas como um complemento ao tratamento. Veja alguns exemplos:
- Em pacientes que necessitam fazer uma intervenção ou exames desconfortáveis, como ressonância magnética
- Para diminuir a dor de pessoas com câncer, inclusive crianças. Estudos norte-americanos mostram que a técnica também ajuda na cicatrização e consolidação de fraturas
- Contra tensão pré-menstrual e para ajudar as mulheres a relaxar na hora de colocar o dispositivo intra-uterino (DIU)
- No tratamento de pacientes com vitiligo, as manchas brancas que surgem na pele
- No controle de doenças desencadeadas pelo estresse, como asma e síndrome do pânico
- No controle dos sintomas da síndrome do intestino irritável, que são dores abdominais, dificuldade para evacuar ou diarréia. Fonte: Revista Isto É, de 12/4/2006


