Capítulo I: Surge a polêmica
O tratamento de reposição hormonal é administrado a mulheres que sofrem os efeitos do climatério (período pré e pós menopausa) desde a década de 60, com ênfase nos últimos 10 anos, quando também foram intensificados os estudos a respeito de seus benefícios e riscos. Foi justamente um desses estudos, iniciado em 1998, com previsão de se estender até 2005, que causou grande celeuma no início deste mês, colocando em alarme a comunidade médica e em polvorosa as mulheres que já fazem ou que pretendem fazer uso de um tratamento desse tipo no futuro.
O estudo foi realizado pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, com 16.600 mulheres (que não retiraram o útero), de 50 a 79 anos, que receberam reposição hormonal, com base em uma combinação de estrógeno (0,62 miligramas) e progesterona (2,5 miligramas). O objetivo da pesquisa era saber os efeitos desse tipo de tratamento a longo prazo. O extenso período, contudo, precisou ser bruscamente reduzido, por conta dos preocupantes dados obtidos.
Os resultados preliminares da pesquisa demonstraram que a administração dessa combinação específica de hormônios, por um período em torno de 5 anos, aumentava em 41% os riscos de derrame cerebral; em 29% os de ataque cardíaco; em 26% os de câncer da mama e em 22% os de doenças cardiovasculares. Em contrapartida, os riscos de câncer retal diminuíram em 37% e os de fratura em geral, em 24%, sendo que os de fratura de quadril, especificamente, foram reduzidos em 33%.
Capítulo II: Foi dado o alerta
Para o médico ginecologista e obstetra Paulo Moreira, que atua no Instituto do Câncer e na UEL, nas áreas de mastologia e câncer ginecológico, o estudo americano representou um ''grande alerta''. Ele lembra, no entanto, que ''agora é preciso aguardar um novo estudo, em outro lugar, para confirmar esses resultados.'' Comenta também que a pesquisa foi feita com uma combinação específica de hormônios e que há alternativas, inclusive a recomendação, no caso de mulheres que não têm mais o útero, da administração de um único hormônio, o estrogênio, com resultados muito positivos.
Aconselha, contudo, que as pacientes procurem seus médicos, para uma reavaliação do tratamento de reposição hormonal. ''Os resultados apontados pela pesquisa'', analisa, ''exigirão dos médicos um estudo ainda mais aprofundado do histórico de vida de cada paciente, para que se possa chegar à prescrição mais adequada, e uma avaliação conjunta, médico e paciente, de riscos e benefícios em relação à melhor alternativa encontrada.''
Com a chegada da menopausa, que significa o encerramento do período de fertilidade da mulher, ocorre uma queda brusca na produção dos hormônios femininos estrógeno e progesterona. Em muitas mulheres, essa interrupção costuma causar uma série de sintomas desagradáveis, como, entre outros, as famosas ondas de calor, a sudorese, a palpitação, a insônia e o ressecamento e o afinamento da mucosa vaginal, que acabam por interferir na libido, inibindo um relacionamento sexual prazeroso. Além disso, é uma fase de risco para a mulher, que fica mais sujeita, pela falta da proteção hormonal, a ataques cardíacos, câncer e osteoporose.
Para amenizar essa sintomatologia e diminuir os riscos, os médicos passaram a recomendar a reposição hormonal, com resultados notórios. Depois dessa pesquisa, porém, surgiram dúvidas em relação aos benefícios, se seriam tão grandes assim, especialmente para mulheres de até 70 anos, em tratamentos longos, de mais de 5 anos.
Capítulo III: Voltam-se os olhos para outras opções
Sintetizados a partir de fontes vegetais, os fitoterápicos tornaram-se hoje, mais do que nunca, objeto de análise e do desejo das mulheres, que vêem nessa opção uma forma mais natural de repor os hormônios perdidos. Eles são pesquisados há cerca de 10 anos e bastante usados na Europa. A isoflavona, obtida da soja, é a mais conhecida no Brasil, mas existem outras substâncias extraídas de plantas, como a cimifuga racemosa, dos EUA, e o trevo vermelho, da Austrália, que atualmente estão sendo estudadas na Universidade de São Paulo.
De acordo com o farmacêutico e bioquímico da Embrapa Soja, José Marcos Gontijo Mandarino, que há 14 anos pesquisa a soja na alimentação humana, ''o hormônio presente na soja, a isoflavona, é 100 mil vezes menos ativo do que o hormônio sintético, mas, em compensação, possui mil vezes mais afinidade de se ligar aos receptores hormonais do organismo, o que o torna muito eficiente.'' Apesar da patente vantagem do hormônio presente na soja, Mandarino não acredita na eficiência das cápsulas de isoflavona comercializadas no Brasil, aconselhando sempre, a quem quer obter os inúmeros benefícios do grão, a incluí-lo na alimentação. ''Só agora'', comenta, ''a Agência Nacional de Vigilância Sanitária está começando a regularizar a isoflavona oferecida no mercado.''
Por isso, visando dar respaldo de qualidade ao estudo pioneiro sobre a ação da isoflavona, tese de doutorado do médico Paulo Moreira, a Embrapa Soja está fornecendo, em parceria com o Laboratório de Produção de Medicamentos da UEL, as cápsulas que serão usadas na pesquisa, a partir de 120 quilos de pó do gérmen da soja, a parte do grão onde a isoflavona encontra-se mais concentrada.
O estudo de Paulo Moreira é mais um avanço rumo ao aprofundamento do conhecimento sobre os benefícios da isoflavona para as mulheres. Segundo conta o médico, que já possui mestrado sobre câncer em colo de útero, sua pesquisa visará analisar os efeitos da isoflavona em relação a três itens básicos: citologia hormonal (verificar se houve uma revitalização das células vaginais); índice de Kupperman (verificar se houve uma diminuição significativa dos sintomas relacionados à menopausa); densidade mamária (verificar se não houve intensificação da densidade). Para o estudo, Moreira contará com a cooperação de 256 mulheres, na faixa de 50 a 70 anos, e utilizará cápsulas com 50, 100 e 200mg de isoflavona. A previsão de resultados oficiais é para daqui a dois anos.
Capítulo IV: Mulheres querem qualidade de vida
Preocupadas com a polêmica sobre reposição hormonal e com outras questões relacionadas à saúde e qualidade de vida, de maneira geral, muitas mulheres estão curiosas e buscando alternativas, por conta própria. É o caso de Mafalda Piccinin Faria Coppi, 54 anos; Maria Conceição Perazollo Torres, 58; Silvana Araújo de Almeida, 30; Cecília Garcia de Souza, 58, e Cacilda Fourlan, 32. Recentemente, elas participaram de um curso sobre soja na alimentação, recomendado pela equipe do Centro Cardiológico de Londrina, que entende o aprofundamento no assunto, pela comunidade, como um serviço de utilidade pública e que, até por isso, pretende organizar outros grupos com seus pacientes.
Todas aproveitaram muito o curso, realizado pela equipe da Embrapa Soja, informando-se tanto sobre os aspectos teóricos, quanto práticos do assunto, e habilitando-se, assim, a introduzir a soja, em forma de leite, farinha, proteína texturizada e em grão na alimentação da família. Não se trata de uma mudança fácil, ''porque'', como explica Mandarino, ''a introdução da soja no Brasil ficou estigmatizada.''
Ele conta que a soja chegou ao país no começo do século passado, para reforçar a alimentação animal. A partir da década de 80, vários programas governamentais estimularam o aproveitamento da soja na alimentação humana, ''mas de maneira errada, pois não havia, na época, tecnologia apropriada''. Depois disso, outros programas institucionais vincularam a soja à obtenção de proteína de alta qualidade e baixo custo, voltada para a população carente.
Mesmo com esse início difícil, a soja continuou atraindo o interesse das pessoas, dados os inúmeros benefícios que oferece à saúde. Entre eles, a redução dos níveis de colesterol, a prevenção do câncer, a minimização dos sintomas relacionados à menopausa, o retardamento da osteoporose, e como auxiliar no controle da diabetes. Um dos problemas antigos, um sabor áspero para o paladar dos brasileiros, que dificultava a aceitação da soja na alimentação do dia-a-dia, hoje está resolvido: basta colocar os grãos numa panela contendo água fervente , deixando-os ali por 5 minutos, contados após levantar a nova fervura.
Com base em todo esse conhecimento e munida de novas e aprovadíssimas receitas de aproveitamento da soja, Maria Conceição, que faz reposição hormonal, pensa em parar o tratamento, depois de toda essa polêmica, substituindo-o pela utilização mais intensiva do grão na alimentação diária.
Cecília também faz reposição hormonal, há 6 anos e, depois da divulgação dos resultados da pesquisa americana, ainda não consultou seu ginecologista, para fazer uma reavaliação. ''Acho que vou parar por conta própria'', ameaça, ''e pôr a soja no lugar.'' Já Mafalda interrompeu o tratamento de reposição hormonal desde que leu com atenção a bula do medicamento. ''Lá está escrito tudo o que estão dizendo agora'', afirma. Como professora aposentada da rede estadual, conhecia a soja e, apesar do sabor não muito agradável daquele tempo, a apreciava. Hoje, então, com novas opções de produtos e um sabor mais neutro, não deixa de aproveitá-la diariamente nas refeições.
As mais jovens pensam em introduzir a soja na alimentação como forma de prevenção, ''para não passar por isso'', comenta Cacilda, referindo-se aos sintomas dolorosos relacionados ao climatério. ''Nosso corpo é uma máquina'', complementa Silvana, ''quanto mais cedo nos preocuparmos em prevenir, melhor para a saúde.''n
Serviço
Cursos e informações sobre a soja na Embrapa Soja
Rodovia Carlos João Strass Acesso Orlando Amaral Distrito de Warta
Fone (43) 371.6000 Londrina

mockup