O stress diário enfrentado pelas mulheres que trabalham durante a gestação pode alterar o sistema imunológico e acarretar a pré-eclampsia, hoje denominada doença hipertensiva específica da gravidez (DHEG). ‘‘As mulheres estão preocupadas em estudar e fazer carreira antes de engravidar. No consultório, não temos mais aquela frequência de gestantes de 20, 24 anos, período biologicamente ideal para a gestação. O padrão, agora, é a partir dos 30, 35 anos. Isso tem um preço’’, diz o médico ginecologista Luiz Carlos Steffen.
Ele explica que o problema é comum nos extremos da vida reprodutiva: tanto nas gestantes tardias como nas adolescentes. E acontece geralmente na segunda metade da gravidez, mais especificamente no último trimestre. ‘‘Se o problema começa no 6º, 7º mês, pode acarretar retardo no crescimento do bebê. Isso pode ser detectado com medidas simples. Ao medir a circunferência abdominal, é possível saber se o desenvolvimento da criança está sendo adequado’’, esclarece o médico.
O maior risco da doença, segundo Steffen, é o parto prematuro. De acordo com ele, não há relação entre o DHEG e problemas congênitos. ‘‘Há chances de a mulher desenvolver a eclampsia: convulsão, edema cerebral com coma, hemorragia cerebral e alterações renais, com riscos evidentes para o feto’’, informa, referindo-se a casos graves da doença.
Com um pré-natal bem-feito, garante o ginecologista, as chances de o problema acontecer diminuem pela metade. ‘‘Na imensa maioria dos casos, com repouso e uso de hipertensivos conseguimos controlar bem o problema’’, diz. Ele reforça a importância dos exames clínicos durante a gestação e não apenas os de ultrassom. ‘‘Em postos de saúde, quando não há recursos, o diagnóstico pode perfeitamente ser feito a partir de exames clínicos, sem equipamentos sofisticados’’, ressalta.
‘‘Quando examinamos a paciente, podemos enxergar sinais simples que indicam a doença: ganho de peso acima de um quilo por semana; inchaço diferenciado no rosto e nas pernas, sintomas como borramento visual, dor epigástrica, facilmente confundida com gastrite, e dor no fígado – a paciente pode achar que é problema de vesícula’’, enumera Steffen. Outro sinal é a pressão arterial. ‘‘Do 4º ao 6º mês, ela tende a cair. Se a gestante nessa fase está com pressão normal, a doença pode estar se instalando’’, avisa.
Uma das medidas mais importantes no controle da doença é o repouso. O ginecologista informa que existem medicamentos específicos para tratar a hipertensão na gravidez, totalmente diferentes do tratamento da hipertensão comum. ‘‘Não se pode utilizar diurético, pois causa redução da quantidade de líquido aminiótico. E nem dieta hipo sódica (sem sal). Uma medida preventiva ainda discutível entre os especialistas, quanto à sua eficácia, é o uso de aspirina infantil e cálcio. Para casos mais graves, já em regime de internação, é utilizado o sulfato de magnésia’’.
Steffen informa que na maioria das vezes o problema aparece na primeira gestação. ‘‘Quando acontece na segunda ou na terceira, é comum ser outro material genético, ou seja, filho de outro pai, o que reforça a questão imunológica do problema’’, diz ele, lembrando que o bebê é um corpo estranho ao organismo da mulher, pois é geneticamente diferente dela. Para explicar a questão, ele faz uma comparação. ‘‘É como se o sistema imunológico da mulher fosse a Polícia Federal e o bebê, um estrangeiro que resolveu passar uma temporada no útero. A PF precisa autorizar o bebê a passar nove meses lá, carimbar seu visto de permanência. Quando há algum problema nesse reconhecimento é que surgem as doenças’’.

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