Ansiedade, irritação, birra, choramingos a toda hora, enfim, crianças estressadas. Nesta época do ano, são inúmeras as situações em que o stress infantil fica ainda mais evidenciado. Correria, provas, troca de escola, a escolha dos presentes, um mundo de brinquedos recebidos do Papai Noel, preparativos para festas do fim de ano, a viagem de férias, ufa!
Números do Instituto Americano de Stress (AIS) não são nada otimistas. Conforme o órgão, de cada dez visitas ao pediatra, oito são devidas ao stress. No Brasil, estima-se que ele atinja dois terços da população infantil.
‘‘Estou estressado, ansioso’’, já é uma frase muito presente no vocabulário cotidiano de crianças de seis, dez anos de idade. ‘‘Um copo cheio derramando’’. É assim que a psicanalista londrinense Sonia Gazziero, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise, de São Paulo, define o estado de stress da criança.
Na infância ou idade adulta, o stress está relacionado às dificuldades de lidar com as tensões internas. No seu desenvolvimento, a criança vai aprendendo a pensar e a conter tensões ao invés de descarregá-las. Esse processo é uma conquista e ocorre nas relações com os pais na medida em que eles tenham condições de processar suas emoções e ajudar no desenvolvimento dos filhos.
Para Sonia, tolerar frustrações que a realidade impõe é também fundamental para este aprendizado, contribuindo no desenvolvimento do pensamento. O stress na criança ocorre da ausência desses recursos, manifestando-se em decorrência de uma sobrecarga de tarefas, exigências, ou da imaturidade para lidar com situações apropriadas para aquela idade. ‘‘A pessoa estressada está sofrendo de indigestão mental, não está podendo processar as suas emoções.’’
Tal pai.... Sonia Gazziero observa que o stress dos filhos pode ter como origem pais estressados e, também, muito ausentes. Pais que começam a exigir demais estão incapacitados de reconhecer e dosar as reais necessidades dos filhos.
Sonia alerta para o distanciamento entre pais e filhos, chamando a atenção para a diferença entre a presença física e o verdadeiro contato afetivo, tão importante para o desenvolvimento de uma estrutura emocional segura. Daí o valor da presença efetiva dos pais para o atendimento das necessidades primárias da criança e para a formação de uma base emocional. ‘‘O stress é consequência da ausência dessa base e, se ela falta, todo o resto vai capengando.’’
Para a psicanalista, a vida moderna, o consumismo, a luta voraz pela conquista de bens materiais, a busca do ter em detrimento do ser, vêm causando o empobrecimento das relações afetivas, fundamentais para o desenvolvimento da criança.
Crianças de modo geral estão excessivamente ocupadas com atividades sem consistência para o seu crescimento verdadeiro como ser humano. A imitação e a preocupação com a sua performance fazem com que a criança perca a chance de ser ela própria. ‘‘Se não corresponde ao modelo de criança que deve ser, ela estará sempre insatisfeita.’’, observa Sonia
Ajuda Conversar, ouvir, dar mais atenção às necessidades emocionais dos filhos são atitudes importantes no sentido de tentar ajudar no desenvolvimento dos filhos. É preciso que se avalie a necessidade de reduzir exigências e, até mesmo, de procurar ajuda de profissionais quando os pais se sentem incapacitados para enfrentar o problema.
A psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da ISMA/Brasil, uma associação internacional voltada ao combate e tratamento do stress no mundo, diz que pais precisam estar atentos aos acontecimentos de seus filhos e tentar ajudá-los. ‘‘Crianças orientadas a lidar com situações estressantes de forma eficiente, criam antídotos para controlar as pressões sem reagir fisiológica e emocionalmente.’’ Segundo Ana Maria, o desequilíbrio faz com que crianças possam desenvolver enxaqueca, diarréia e depressão, entre outros males relacionados ao stress.
Qualidade de vida Sonia entende que hoje é necessário que pais repensem suas vidas no sentido de estarem podendo dosar melhor o período destinado às atividades profissionais e o tempo que dedicam ao contato humano, afetivo, com os filhos.
Ela observa que as pessoas estão entulhadas de tantos afazeres que se distanciam cada vez mais delas mesmas. A necessidade do adulto de se estressar, de se ocupar as 24 horas do dia, é um sinal de fuga. Desde a hora em que se levantam até o momento de deitar, as pessoas não se dão chance de estar examinando o seu íntimo, se percebendo. ‘‘O que predomina hoje é a dificuldade que as pessoas têm de estar com elas mesmas e, assim, não podem estar com ninguém’’, avalia.
Crianças estressadas certamente são fruto de uma dinâmica familiar muito tensa. ‘‘Problemas todos têm, mas é fundamental que os pais tenham também bom senso, administrando os problemas no sentido de que estes não invadam em demasia o dia a dia da casa, reservando espaço para o lazer, para momentos de intenso convívio.

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