A fórmula do amor
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 12 de julho de 2007
Giuliana Reginatto<br> Agência Estado 
Tudo pronto para o casamento. Então, você procura a vidente indicada pela melhor amiga ou qualquer outra tática sobrenatural para saber se o noivo é mesmo o homem ideal. E se fosse possível descobrir com cinco anos de antecedência quais são as chances daquela união durar mesmo para sempre? O psicólogo John Gottman e os matemáticos James Murray Kistin Swanson, todos americanos, garantem que descobriram a fórmula mágica para prever os riscos de fracasso de uma união. E mais: a despeito de toda descrença alheia, asseguram que o modelo tem 94% de precisão.
Os cientistas trabalham no Instituto de Pesquisas de Relacionamento, que nos Estados Unidos é conhecido como Laboratório do Amor. Testada em mais de 600 casais, a técnica consiste em analisar reações físicas e emocionais durante uma discussão sobre assuntos controversos. Cada interação positiva vale um ponto, enquanto que toda interação negativa implica na subtração de um ponto. Além do conteúdo de conversas, analisaram expressões faciais e pulsações cardíacas.
Bolar uma ''equação do amor'' pode parecer uma redução quase infantil da complexa vida conjugal a uma continha de criança, mas os pesquisadores apostam que é mesmo possível quantificar a sintonia do casal por meio das interações estabelecidas entre as partes. Segundo eles, casamentos com proporção inferior a cinco pontos positivos contra um negativo estão ameaçados.
Autor de famosas obras sobre relacionamentos, algumas delas já publicadas no Brasil, Gottman defende a mesma teoria repetida pelas tias solteironas para encorajar mocinhas casadoiras: é melhor relevar briguinhas casuais. ''Quando as pessoas vivem um casamento feliz, podem até não concordar em vários assuntos, mas riem e mostram sinais de afeição. A maioria das brigas acontece por falta de conexão emocional'', diz o psicólogo no livro 'Casamentos'.
Mais do que medir a agressividade do que se fala ao parceiro em momentos tensos, é preciso estar atento aos sinais do corpo diante do estresse conjugal. Gottman defende que uma expressão facial de desprezo, por exemplo, funciona como ''o ácido sulfúrico do amor''. De acordo com o estudo desenvolvido por ele, até o ritmo cardíaco pode influenciar no andamento de uma discussão. ''Acima de 100 pulsações por minuto, o organismo começa a produzir adrenalina, o que torna a pessoa menos receptiva aos argumentos do parceiro'', explica.
Psicólogo há mais de 30 anos e professor de Relacionamento Amoroso no curso de pós-graduação em Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Ailton Amélio da Silva diz que a tal proporção mágica alardeada por Gottman não goza de unanimidade no meio médico. ''Respeito o trabalho dele, é um bom profissional, mas acho perigoso afirmar que a precisão é superior a 90%. Imagine se aplico um método desses? Estaria milionário!'', brinca.
No livro 'Para Viver um Grande Amor' (Editora Gente), Silva enumera cinco fatores determinantes para o sucesso da relação (veja box). ''É importante não ter pressa. Dois meses é pouco para se conhecer alguém. O amor é míope, namorar é preciso. O namoro é um bom par de óculos.''
O sucesso na relação depende de...
1. Escolha. São os iguais, e não os opostos, que se atraem- É preciso avaliar se o parceiro consegue conviver com traços imutáveis do outro, como um passado turbulento, passagens pela polícia ou até atributos físicos, como a altura. No geral, parceiros que vivem uma boa relação são semelhantes em questões econômicas, faixa de estudo, religião e raça.
2. Satisfação. Confrontar custos e benefícios é importante- Pessoas costumam permanecer em relações nas quais há mais benefícios do que custos. Benefícios podem pertencer a ramos distintos, como prazer sexual, beleza, possibilidade de bons diálogos ou estabilidade econômica. Neste campo é que você avalia questões como: aceita ficar ao lado de quem trai? Está disposto a partilhar a vida com quem não luta pelo lado econômico?
3. Alternativa. Há estímulos externos para deixar a relação? - Uma relação têm mais chances de sucesso quando não existem alternativas atraentes fora dela. A opção pode ser uma outra pessoa ou apenas uma necessidade de ficar só. Nem todo mundo consegue permanecer sozinho por muito tempo, mas apostar em um casamento relâmpago pode ser bastante arriscado. Dois ou três meses é pouco tempo para se conhecer alguém.
4. Investimentos. Analisar se existem planos em comum para medir cumplicidade - É recomendável que as partes verifiquem se ambos estão investindo no relacionamento por inteiro, se estão plenamente envolvidos. Fazer planos juntos, ter projetos em comum e ser capaz de dividir as coisas são medidas que ajudam a promover a manutenção do casamento a médio e longo prazos. Altruísmo é importante. Quem só pensa em si não constrói relações duradouras.
5. Barreiras. Impedimentos legais, morais e opinião pública também contam - Barreiras legais ou medo da reação da família e dos amigos podem prolongar um casamento que já deveria ter terminado ou provocar receio de assumir uma relação que tem chances de ser reprovada pelos demais. Hoje, tais barreiras estão enfraquecidas. Quase ninguém é obrigado a continuar casado só por convenções sociais. Em contrapartida, casais se separam com muita rapidez. (Fonte: Aílton Amélio Silva, psicólogo)
O que leva uma união ao fim? Para a maioria, trair é mais grave do que ser violento
O americano John Gottman diz que falta conexão emocional entre os casais e o brasileiro Ailton Amélio Silva aposta que as pessoas não escolhem bem o parceiro. Leigos em psicologia não compartilham das opiniões dos especialistas. Dos 1.368 leitores consultados pela reportagem no Portal Estadão (www.estadao.com.br), 44% se divorciariam caso descobrissem uma traição. Para 28%, o que pesa é a falta de atenção com o parceiro. Outros 10% culpam o ciúme pelo fim da relação. As brigas cotidianas citadas por Gottman, como a conhecida toalha na cama, aparecem em quarto lugar, com 8%. As discussões ideológicas, provocadas por discordância em assuntos polêmicos, vêm em seguida (5%). Fatos relativos à personalidade do par, como descobrir que ele é violento ou se envolveu com drogas e crimes no passado, surgem em última posição. Curiosamente, a escolha do par é o aspecto mais enfatizado por Silva.
(AE)


