Gabriela Morales
Agência Estado
‘‘Se você continuar desobediente, não vai ganhar presente do Papai Noel’’. A pequena Mayara, de 4 anos, fingiu indiferença diante da ameaça dos pais Almir e Márcia. ‘‘Não faz mal, a fábrica vai dar mesmo...’’, respondeu, provocando risos. Mas ela não conseguiu disfarçar a amargura. Tudo bem, a ‘‘fábrica’’ dá o brinquedo. Mas a magia e o encanto não são os mesmos se o presente não é entregue pessoalmente pelo velhinho mais famoso do mundo.
Mesmo nestes tempos de Internet, o mito de Papai Noel continua forte, impulsionado principalmente pelo comércio. Claro, chega um dia em que a criança fica sabendo que a figura tão adorada não passa de uma lenda. Mas os psicólogos recomendam cautela nessa hora, para que as crianças não se sintam enganadas. ‘‘A descoberta tem de ser natural’’, recomenda o psicoterapeuta Içami Tiba. ‘‘Papai Noel é uma brincadeira que faz parte da festa de Natal’’.
Para a educadora Regina Werneck, é importante separar o sentido verdadeiro do Natal e o significado da data. ‘‘Os pais sofrem uma grande pressão do comércio e acabam passando isso para as crianças’’, explica. ‘‘Mas o espírito de Natal não deve se perder. Por isso, eles deveriam separar para seus filhos o Papai Noel vendedor do Papai Noel fantasia’’.
Arquivo Folha‘‘A descoberta tem que ser natural’’, diz o psicoterapeuta Içami TibaNo livro ‘‘Era uma vez uma família’’, a psicanalista americana Jean Grasso Fitzpatrick diz que os pais não só devem contar histórias sobre Papai Noel aos filhos, como também fazer com que as crianças escrevam cartas a ele, com seus pedidos. E mais: caso encontrem um desses Papais Noéis num shopping, por exemplo, devem deixar as crianças se aproximar dele para contar o que gostariam de ganhar. Quem está ali é o Papai Noel ‘‘vendedor’’, mas o importante é a fantasia, a imaginação, acrescenta a autora.
Tio Noel Segundo Içami Tiba, não há uma idade certa para se saber a verdade. Tudo deve acontecer naturalmente. A coordenadora de publicações Silvana Muori lembra que, no ano passado, resolveu contar a verdade ao filho Bruno, então com 9 anos. E então ela percebeu que o garoto já desconfiava de que o Papai Noel era seu tio. ‘‘Mesmo assim’’, conta Silvana, ‘‘expliquei a ele que o Papai Noel existe no nosso coração’’.
Para a psicóloga Vera Cecília Motta Pereira, lendas e histórias como as de Papai Noel e do coelho da Páscoa são importantes porque representam uma simbologia que a criança entende. ‘‘São personagens criados para passar valores sociais como carinho e amizade, que hoje quase não existem mais’’.
‘‘Na minha infância, todos acreditavam em Papai Noel como um ser real e jamais o contestavam’’, lembra a educadora Regina Werneck. ‘‘Mais tarde, entre os anos 40 e 60, as crianças não acreditavam de forma alguma nele, pois viviam numa época em que as pessoas buscavam a realidade. Agora as crianças voltaram a dar importância à figura, mas de uma forma diferente. Não acreditam nele como um ser real, mas dão muito valor ao que ele significa’’.
Mito pulverizado O ator Mário Lago tem saudades dos tempos em que esse mito era cultivado em meio a um clima de encanto, de magia. ‘‘No meu tempo de criança, Papai Noel merecia mais crédito’’, garante. ‘‘Com o tempo, ele foi se pulverizando, está em cada esquina, à porta de cada loja. Eu já vi Papai Noel japonês, Papai Noel preto. Hoje ele chega de helicóptero, já não é aquele que, num pequeno saco, trazia presentes para todas as crianças do mundo. A sociedade de consumo transformou Papai Noel numa coisa concreta, ele já não tem a mesma credibilidade’’.
O poeta Carlos Drummond de Andrade dizia que tinha uma certa dificuldade em aceitar Papai Noel como símbolo de Natal porque ele não existia na sua infância. ‘‘O que existia era o Menino Jesus, a quem a gente pedia os presentes’’, escreveu numa de suas crônicas, nos anos 80. E, ironicamente, lançava a proposta: ‘‘Ele é importado e, como o Brasil está dificultando as importações para estabelecer o equilíbrio da balança comercial, não seria nada mau a gente esquecer o Papai Noel’’.

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