Os mais antenados no que acontece no circuito festeiro internacional já devem ter visto ou lido algo sobre o lugar. Afinal, ele foi tema de reportagens nas mais importantes publicações nacionais e internacionais. Com uma decoração que reúne várias referências à terrinha, feijoada e caipirinha no cardápio, boa música rolando e aquele clima de ferveção típico dos momentos em que todos esses ingredientes se juntam, o Favela Chic é coqueluche em Paris. O que muita gente não sabe é que a proprietária do bar – que teve a feliz idéia de levar essa muvuca tupiniquim à pomposa capital francesa – é uma legítima pé vermelho.
Rosane Mazzer, 34 anos, viveu em Londrina com a família até 1984. Os pais ainda moram na cidade. Com 17 anos, ela embarcou para São Paulo com a faculdade de Marketing nos planos. ‘‘Tinha sede de conhecer o mundo e de seguir um caminho profissional onde a condição feminina não fosse restritiva’’, lembra ela, em entrevista exclusiva via Internet à Folha da Sexta. ‘‘A cidade representava, na minha cabeça de adolescente, um lugar cheio de tabus e comportamentos pré-estabelecidos. As garotas eram mais preocupadas em fazer um bom casamento do que em tornar-se alguém’’, alfineta.
Para custear as despesas com o curso da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Rosane trabalhou em agências de publicidade e na área de marketing da indústria da moda. ‘‘Descobri rapidamente que a originalidade é reconhecida em um mundo criativo do qual eu queria fazer parte’’, conta. As experiências internacionais dos amigos do meio artístico e a decepção com o cenário político da época fizeram com que ela decidisse tentar a sorte na Europa. ‘‘Quando o povo elegeu Collor, vi que ainda iam ser necessárias pelo menos duas décadas para que o brasileiro compreendesse o valor do seu voto e o seu poder como cidadão’’, critica.
Jeitinho brasileiro Em 1990, Rosane desembarcava em Paris, sem falar nada de francês, mas ‘‘completamente entusiasmada, querendo ver e compreender tudo’’. A idéia de abrir um bar, entretanto, nunca havia lhe passado pela cabeça, até que começou a promover festas cujas atrações incluíam comida típica brasileira. A vontade de mostrar aos franceses que o Brasil era algo muito mais dinâmico e descolado do que a imagem que eles tinham do ‘‘País do Carnaval’’ acabou motivando a londrinense a abrir o Favela Chic, em 1995. As dificuldades não foram poucas. ‘‘Foi quase como aprender uma nova língua de administração e business dentro da língua francesa’’, relata. Tudo, é claro, temperado com o jeitinho brasileiro de atrair a clientela.
No início, Rosane fazia publicidade ao vivo, convidando os passantes a conhecer ‘‘os gostos, perfumes e fantasias do Brasil’’. Não demorou muito para que o seu apelo fosse plenamente atendido por um público pra lá de selecionado. Ao chamariz ‘‘comida-bebida-música’’, a clientela adicionou a dança, com um pequeno detalhe: em cima das mesas. O hábito foi motivado pelo pouco espaço disponível no primeiro endereço do Favela, mas persiste até hoje, mesmo com a mudança e a ampliação do bar, construído em um espaço semi-industrial que foi usado, em épocas diferentes, como cocheira e showroom Cacharrel, no 11º Arrondissement, ‘‘um bairro jovem, popular e étnico’’, descreve.
Projetos paralelos Para Rosane, que hoje emprega 30 pessoas e recebe cerca de 10 mil clientes por semana, o sucesso que vem obtendo é resultado, sobretudo, do jeito informal e simpático com o qual acolhe os frequentadores do estabelecimento. Também deve-se muito ao som produzido ali, que ela considera ‘‘realmente único’’. São três Djs se revezando para criar uma música que mixa bossa, house, samba de raiz e easy listening com efeitos de samplers e scratchs sobre batucadas, ‘‘o que leva o público ao delírio’’, conta ela. O bar-restaurante funciona de terça a sábado, a partir das 19h30. No cardápio, feijoada, moqueca e empadão com outras criações de chefs franceses e brasileiros trabalhando em conjunto. Das 23h às 2h, a festa rola solta e ninguém fica parado.
Com tanta badalação em torno do lugar, que já foi chamado de ‘‘spot antidepressor de Paris’’ por uma revista francesa, o Favela Chic já ensaia projetos paralelos. Ano passado, Rosane e sua equipe criaram a produtora Fla-Flu para desenvolver projetos culturais, eventos, shows e festas, além de um disco programado para março, reunindo grupos inéditos e reedições de produções musicais antigas. Outro plano é criar uma fundação para desenvolver ações sociais nas favelas brasileiras. ‘‘É para ajudar crianças e jovens a ter uma educação que lhes possibilite acesso a outros universos profissionais e humanos’’, revela Rosane.
Há quatro anos sem visitar a terra natal, Rosane diz que o tempo é curto e que quando tem tempo de vir ao Brasil seu destino é sempre a Bahia. ‘‘Adoro praia’’, justifica ela. Casada com o músico francês Jerôme Pigeon (DJ e sócio do Favela) com quem tem três filhos, a londrinense revela que se sente completamente em casa em Paris. ‘‘Mas não a Paris da Torre Eiffel, mas a da Belleville cosmopolita fervendo de gente do mundo inteiro’’, enfatiza.

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