A fascinação pelo outro
A atração sexual é apenas um item dentro do universo da atração. Se formos buscar no dicionário, a palavra atração vem definida como o poder de encantar, simpatizar, causar fascínio. Algo que atrai pode ser uma pessoa ou coisa que provocam grande interesse, que é acolhedor, convidativo, magnético, sedutor.
Para o psicanalista Marcelo José de Castro, no ser humano a atração sexual é despertada inicialmente pela visão. Ele explica que a atração, num primeiro momento, é essencialmente visual, até porque este é o sentido mais aguçado e mais desenvolvido do ser humano. E ele é tão poderoso quanto superficial. Isso explica a história do amor à primeira vista e de algumas desilusões baseadas nessa visão inicial. É a partir dessa primeira leitura que as pessoas fazem uma da outra que impressões mais profundas serão consideradas, isso em função do amadurecimento emocional dos indivíduos em questão.
Segundo Castro, com a descoberta do inconsciente, por Sigmund Freud, e a partir do avanço das pesquisas psicanalíticas, é possível compreender como se dá o mecanismo da atração. ‘‘É possível entender, inclusive, porque algumas pessoas se sentem atraídas por situações perigosas em sua vida afetiva, por exemplo’’, diz.
Se não é apenas uma mão, um seio, uma perna bonita ou um músculo que fazem com que determinada pessoa nos atraia, mas um conjunto que não sabemos ao certo definir. O que é que há nesse conjunto que atrai um determinado indivíduo e a outro não? Para Marcelo Castro, a compreensão tem que levar em conta motivos não conscientes, pelos quais as pessoas se sentem atraídas. ‘‘A psicanálise classifica em duas categorias o que chama de ‘mecanismos de eleição de objeto amoroso’, em outros termos, o motivo pelo qual uma pessoa escolhe outra: eleição narcísica e eleição por referência’’.
Na eleição narcísica, o indivíduo procura no outro um pouco de si mesmo, aquilo que ele acha ou percebe que o outro tem, já teve, ou gostaria de ter algum dia em si próprio. Já na eleição por referência, buscamos características de nossos pais, principalmente da nossa mãe, de acordo com o que vivenciamos e de como conseguimos lidar com a situação. Características que amamos ou odiamos ficam como que gravadas no nosso inconsciente e sem perceber, muitas vezes, vamos em busca delas, mesmo que algumas dessas características nos façam sofrer. E aqui entra a explicação pelo fato de algumas pessoas procurarem parceiros parecidos, mesmo tendo tido experiências ruins. Para se libertar desse ciclo, elas precisarão ir em busca de suas razões e superá-las.
De acordo com a psicanálise, tanto o narcisismo como a referência são os motivos pelos quais nos sentimos atraídos por alguém. Eis porque todo encontro amoroso é, em certa medida, um reencontro. Uma ou outra característica terá um peso maior ou menor de acordo com cada indivíduo e com a forma com que ele lida com determinada situação. Embora a maturidade afetiva esteja relacionada à capacidade de se conviver com as diferenças, a verdade é que mesmo no mais legítimo amor, sempre vai haver uma dose de narcisismo.
Marcelo Castro não concorda com ‘‘verdades’’ inabaláveis como a de que a mulher não sente atração por outro homem quando está apaixonada, e de que o homem, mesmo apaixonado, não resiste a atração de outra mulher. Para ele, cada caso é sempre um caso. Há fatores culturais, há também a história individual de cada um. Na verdade, quando se busca apenas viver a atração sexual e se foge de um relacionamento mais profundo, é preciso avaliar do que se tem medo, o que há por trás disso. O que impede homens e mulheres de ir em busca de aventuras, quando vivem uma relação madura, satisfatória, é simplesmente o fato de o ser humano não ser regido apenas pelo princípio do prazer. Desde a infância, aos poucos é inserido na psiquê da criança o princípio da realidade: ‘‘Que preço vou pagar por essa aventura?’’

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