Ver um pai caminhando de mãos dadas com o filho, levando-o no colo ou nos ombros é uma cena relativamente comum nos dias de hoje. Deparar-se com um homem brincando e se divertindo com a sua prole também não é uma situação rara. Esta proximidade entre pais e filhos, no entanto, era inimaginável no passado e chega a causar espanto nas pessoas mais antigas.
Olavo de Souza Baptizaco, 84 anos, que tem três filhas, admite que fica surpreso com as mudanças. ''Tudo é muito diferente. Antes a educação era enérgica e as relações distantes. Hoje os relacionamentos são mais próximos'', afirma, admitindo que acha bonita a amizade que muitos pais estabelecem com os filhos.
No primeiro casamento, ele teve Solange, 60, e Sueli, 55. Com a segunda esposa, teve Samira, 31. Na época, estava com 51 anos. ''Tive que me atualizar para educá-la. A diferença de idade com as outras filhas é muito grande'', revela.
Olavo diz que segurou muito pouco as filhas no colo, principalmente as mais velhas. ''Dar banho nelas bebê era algo impossível de se pensar. Nunca troquei fralda, nem dei mamadeira. Os homens não participavam desses momentos'', lembra.
Segundo ele, foram raras as situações de brincadeira e descontração. ''Era tudo mais rígido. Sempre procurei passar a importância do trabalho e estimulei que elas fossem à luta. Acho que consegui. Todas são boas profissionais e estão na área que sempre atuei: o comércio'', destaca Olavo, que não esconde que algumas vezes precisou ser mais árduo e dar umas ''chineladas'' nas filhas.
A educação que passou paras as herdeiras teve influência da criação que recebeu. ''Meu pai me ensinou que os castigos deveriam ser severos. Tive sete irmãos e o clima era de muito respeito. Não havia muita conversa. Lembro do meu irmão ajoelhado no milho para ser castigado.''
Com a chegada da terceira filha Samira, Olavo admite que muita coisa mudou. ''Ela recebeu uma educação diferente e tem mais liberdade. Chega mais tarde em casa e conversa mais comigo. O mundo mudou e a gente tem que acompanhar'', pontua.
Samira afirma, no entanto, que sempre percebeu diferença entre a sua criação e a das amigas. ''Eu demorei para ter a chave de casa e não podia chegar da rua tão tarde quanto elas. Mas sempre procurei valorizá-lo e considerar toda a sua experiência. Vejo que ele busca se atualizar e o considero um grande amigo e conselheiro'', declara a filha.
Educação com liberdade
Na casa do jornalista Beto Borghesi, 53 anos, as filhas Roberta, 30, Nicole, 28, e Monique, 23, foram educadas com liberdade. ''Estamos vivendo em um tempo diferente. Elas sempre puderam aproveitar com os amigos, viajar e sair. Claro que coloquei alguns limites e fico feliz pois elas nunca me decepcionaram'', valoriza o pai.
Diferente de Olavo, Beto carregou as filhas no colo e sempre teve uma relação próxima com elas. ''A gente saía para passear, brincar, se divertir. Elas ficavam no meu ombro, eu segurava suas mãos, tinha contato físico'', lembra.
Ele justifica que não deu banho e nem trocou fraldas, pois se sentia ''desajeitado'' para realizar essas tarefas. ''Mas acompanhava a minha esposa nesses momentos. Vivenciei tudo de perto'', afirma Beto, que é apaixonado por esportes, especialmente pelo automobilismo. ''Elas cresceram indo comigo nas corridas, me vendo pilotar. Também jogamos tênis, vôlei e outros esportes. Sempre estimulei o lado esportivo delas'', diz.
Beto ressalta que nunca bateu nas filhas. ''O castigo era privá-las de algo que gostavam muito'', revela. E o diálogo sempre fez parte do dia a dia da família Borghesi. ''Nossa família é unida. Gosto muito quando todas vêm almoçar em casa, quando passamos o dia juntos'', destaca.
As filhas consideram o pai como um homem moderno. ''Às vezes ele tem mais energia que a gente. Sabemos que podemos contar sempre com ele'', dizem.
A caçula Monique acrescenta que Beto sempre confiou nelas, tanto que tiveram a chave de casa cedo e começaram a namorar novas. ''Comecei a namorar com 16 anos e ele apoiou'', cita.


Imagem ilustrativa da imagem A evolução da paternidade
| Foto: Celso Pacheco
Beto Borghesi, 53 anos, sempre cultivou uma relação de cumplicidade com as filhas Roberta, 30, Nicole, 28, e Monique, 23