A escola resgata valores
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quinta-feira, 12 de outubro de 2006
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Houve um tempo em que as escolas foram bastante rigorosas com o comportamento dos alunos. Formar fila, chamar os professores de senhor e senhora e tratar colegas e visitantes com muito respeito eram atitudes básicas na sala de aula. Com as mudanças nos costumes e nos métodos de ensino, que se tornaram mais maleáveis e abertos ao diálogo, muito disso se perdeu.
Devido à necessidade dos pais trabalharem fora de casa, crianças e jovens acabaram ficando sem ter quem ensinasse noções de respeito ao próximo, civismo e desenvolvimento pessoal. Mais uma vez, ficou para a escola esse papel. O problema é que o sistema antigo não funciona com os alunos de hoje, mais críticos e independentes.
Na tentativa de resgatar valores esquecidos, a professora de ensino religioso do Colégio Marista, Josmari Migliorini, desenvolveu um projeto interdisciplinar chamado ''Meu Coração no Teu'', unindo as matérias de português, religião, arte e Desenvolvimento Pessoal e Social (DPS). ''O que percebemos é que os alunos sabem dizer o que é certo, mas não sabem fazer e agir dessa forma. A intenção é desenvolver o ser humano'', diz.
Inicialmente, o projeto, que usa o livro homônimo da poetisa Lígia Araújo como base, trabalha com alunos da 7 série. Divididos em grupos, eles precisam relacionar as poesias religiosas do livro com temas variados, como esporte, namoro, diferenças raciais, arte. ''Os alunos leram o livro, depois fizeram uma entrevista com a autora, pesquisaram o tema e apresentaram questões para serem debatidas com todos da turma'', explica.
Dessa forma, a professora garante que conseguiu unir o ensino de valores a assuntos de interesse dos jovens. ''Não é fácil falar de Deus com eles, principalmente porque temos alunos de diversas religiões. Antes, eles achavam a aula de religião chata. Agora eles participam, os temas sempre levantam questões polêmicas, como de que maneira é possível tratar com respeito o adversário em uma partida esportiva, o costume de ficar com alguém sem gostar dessa pessoa'', enumera.
Para a aluna Lívia Parra, 13 anos, a participação da escola nesse tipo de ensinamento é importante para reforçar o que os pais falam em casa. ''A família ensina e na escola a gente vê na prática. Achei o trabalho muito interessante'', comenta.
A mesma opinião tem a aluna Stael Málaga Carrilho, 13 anos. Para ela, com o projeto é possível perceber a religiosidade em tudo. ''Aprendi na prática como colocar aquilo que nós aprendemos com Deus ou com o transcedental, independentemnete do nome que se dê em cada religião'', afirma.
Segundo Josmari, o comportamento dos alunos já melhorou depois do trabalho. ''Percebemos que eles estão mais respeitosos quando fazemos visitas ou passeios fora da escola. Os trabalhos em grupo também ficaram mais fáceis porque eles se respeitam mais na hora de se organizar. Ainda há muito para melhorar, mas os resultados estão aparecendo'', garante.
As mudanças são confirmadas pelo aluno Giovani Baptista Silvestrin, 13 anos, que diz que os ensinamentos mudaram sua maneira de ver o mundo. ''Hoje dou valor a coisas que antes me pareciam insignificantes, como uma flor, o sorriso de uma criança, que podem ser sinal da presença de Deus. Também acho que melhorei a maneira como me relaciono com os outros. Acho importante a escola ensinar essas coisas'', afirma.
Além da mudança pessoal, Josmari lembra de como as empresas buscam profissionais que saibam se relacionar e lidar com trabalhos em grupo. ''Esse tipo de comportamento é importante na carreira também. Ser tolerante, educado, companheiro são qualidades apreciadas no momento de concorrer a uma vaga. Esse tipo de aula é um ganho para o futuro dos alunos'', completa.


