Criar um filho sem nunca dizer um ‘‘não’’ significa comprometer seu equilíbrio futuro: será um ser humano com dificuldade para tomar conta do próprio destino
As gerações mais antigas não sofreram com a falta de limites em sua educação. Talvez, sim, com o excesso, uma vez que tudo se resolvia com base na autoridade do patriarca. Era como ainda hoje prescrevem os militares: ‘‘manda quem pode, obedece quem tem juízo.’’ O respeito à autoridade constituída jamais podia ser questionado e os limites impostos às crianças e jovens, por meio da educação, eram clara e rigidamente definidos.
Mas as pessoas, como é natural, modificam sua visão de mundo, para isso cooperam tanto o decorrer do tempo, como as descobertas nos vários campos do conhecimento. Assim, entre outras novidades que mudaram conceitos, vieram a televisão, a pílula anticoncepcional e, especialmente, os estudos do doutor Freud sobre o funcionamento da mente humana. Começou-se, então, a falar de repressão, de traumas, de sofrimento psicológico. Tudo muito certo e importante para a evolução do homem, só que provocou na educação uma reação totalmente antagônica. Da rigidez autoritária passou-se, quase que diretamente, para uma fluida permissividade.
Para muitas crianças e jovens de hoje em dia, tudo pode, tudo é permitido, sob pena de, como pensam os pais, ao contrariar os filhos, causar-lhes frustração ou traumas para o resto da vida. Será que é assim mesmo? Será que a autoridade foi totalmente revogada e não existem mais limites ?
Equilíbrio Para a educadora Maria Augusta Sanches Rossini, autora do livro ‘‘Pedagogia Afetiva’’, publicado pela editora Vozes, ‘‘criar um filho sem nunca dizer um ‘não’ significa comprometer seu equilíbrio futuro: será um ser humano com dificuldade para tomar conta do próprio destino.’’ Limite, ela explica, não é castigo. ‘‘É, basicamente, ensinar que as pessoas não podem, nem são capazes de fazer tudo o que querem.’’
Por outro lado, a falta de limites e de um mínimo de firme autoridade na educação dos filhos podem ser codificados, por crianças e jovens, como ausência de amor. De acordo com Maria Augusta, os filhos precisam de pais que sejam modelos, que assumam com coragem o papel de mostrar o caminho, a direção a seguir. A vontade, às vezes, é de ‘‘terceirizar’’ essa responsabilidade, deixando-a totalmente por conta da escola ou da televisão. Somente os pais, contudo, têm plenas condições de orientar seus filhos, de acordo com os valores nos quais acreditam e que julgam ser os mais corretos.
O estabelecimento de regras de convivência é um importante limite, defende a pedagoga. Regras como cumprir o horário de escola, definir o momento de dormir e de quando fazer as tarefas ou brincar, por exemplo, devem ser claras, firmes e cobradas de forma sempre igual, todos os dias.‘‘É preciso mostrar’’, explica Maria Augusta, ‘‘que, para tudo, existem regras e que elas são feitas e devem ser cumpridas para nossa própria proteção.’’ A partir desse ‘‘código normativo familiar’’, estabelecido com simplicidade e afeto, os filhos vão se exercitando para enfrentar um mundo repleto de regras e os muitos ‘‘nãos’’ que, inevitavelmente, a realidade irá lhes trazer.
Como dizer este ‘‘não’’ pode ser um problema, já que o nível de compreensão varia de idade para idade. Com os pequenos, é preciso encontrar um jeito de não dizer a palavrinha temida. ‘‘O melhor’’, explica Maria Augusta, ‘‘dado o egocentrismo dessa fase, é substituir o ‘não’ por uma justificativa que diga respeito aos interesses da criança, ao seu bem-estar.’’ Se ela teima em fazer alguma coisa perigosa, como subir numa janela, por exemplo, vai adiantar pouco implorar: ‘‘Não faça isso!’’. O mais recomendável é dizer, com firmeza: ‘‘Se você fizer isso, vai cair, se machucar e ficará sem escolinha de futebol!’’, uma justificativa que tem tudo a ver com os motivos e interesses da criança e não dos pais.
Mundo novo Já com os maiores, funciona mesmo o diálogo, uma troca afetuosa de idéias, com o objetivo de informá-los sobre as razões do ‘‘sim’’ ou do ‘‘não’’. Nessa fase, o jovem sente um grande desejo de ser aceito pelos adultos e está fascinado em relação às incontáveis possibilidades que antevê neste ‘‘maravilhoso mundo novo’’. ‘‘Por isso’’, esclarece Maria Augusta, ‘‘a chave que abre o canal de comunicação com o jovem bem pode ser apelar para sua inteligência, para sua capacidade de raciocínio.’’ Que tal utilizar um ‘‘analisa comigo’’ para introduzir a explicação de um ‘‘não’’? Ou um ‘‘veja a lógica da situação’’, ou ainda ‘‘você que é tão inteligente...’’ São formas de tocá-lo, respeitando e valorizando seu deslumbramento pelo conhecimento que possui e que percebe poder ampliar infinitamente.
Muitos pais reclamam que essa é também a fase da agressividade e do susto porque, pela primeira vez, reparam como o filho cresceu, tomou corpo, está às vezes até maior do que eles. ‘‘A agressividade é um pouco hormonal’’, tranquiliza Maria Augusta, ‘‘tem a ver com o crescimento extremamente rápido que os jovens experimentam nesse período e que é conhecido por estirão.’’ Haja paciência, porque a impressão que fica é de que os jovens estão sendo desastrados de propósito. Mas a verdade é que perdem o controle harmonioso sobre sua força e movimentos, o que torna sua linguagem corporal um pouco desengonçada e até engraçada. ‘‘É como um bebê, quando começa a dar os primeiros passos’’, compara Maria Augusta, ‘‘leva um tempo para se equilibrar.’’
‘‘Limite com Severa Doçura’’ (LSD) é a expressão que a educadora costuma usar para denominar, de forma abrangente, os ‘‘nãos’’ necessários à educação dos filhos. Quando os pais conseguem ser firmes, sem jamais perder a ternura, estão ensinando os filhos a lidar com a frustração. E aprender isso nada mais é do que, como esclarece Maria Augusta, ‘‘enfrentar as perdas, permitir-se sentir a dor, deixar sangrar as feridas, curá-las.’’ Só assim, segundo afirma, os filhos estarão preparados e amadurecidos para receber os ‘sins’ e os ‘nãos’ da vida.

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