A dor que marca
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quinta-feira, 17 de outubro de 2002
Fabiane Leite<br> Agência Folha 
A cena é clássica. A criança entra no ambulatório para fazer um exame e, no momento em que vê a agulha, entra em desespero. Os pais, aflitos, falam alto, tentam ajudar a segurar o filho até que a enfermeira, nervosa, consegue tirar a amostra de sangue.
Como suavizar o atendimento à criança em ambientes como laboratórios de análises, hospitais e consultórios? Os pediatras sugerem uma combinação de instalações adequadas ao universo infantil, técnicas apropriadas e, principalmente, profissionais que saibam ouvir os pacientes.
Paulo Roberto Pereira, diretor-executivo do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo, diz que o primeiro passo para evitar o ''trauma'' no atendimento médico é escolher um profissional de confiança e evitar trocá-lo. De acordo com ele, essa é uma maneira de criar um vínculo e fazer com que o médico saiba como a criança e a família respondem às suas recomendações
Cartilha A criança tem o direito de receber explicações em linguagem apropriada, segundo resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que a Sociedade Brasileira de Pediatria começa a divulgar por meio de uma cartilha nos hospitais pediátricos.
''Não pode enganar. A criança sempre quer participar. Quando há entendimento, é melhor'', diz a chefe do ambulatório de Oncologia Pediátrica do Hospital do Câncer de São Paulo, Beatriz de Camargo. Brinquedos terapêuticos podem ajudar a compreender os procedimentos médicos. (ver matéria na página 18).
No ambulatório do Hospital do Câncer, algumas crianças que têm de fazer quimioterapia usam um cateter no peito para a administração das drogas. Uma boneca com o mesmo cateter ''instalado'' mostra como é o procedimento.
Segundo a presidente do Departamento de Cuidados Hospitalares da Sociedade Brasileira de Pediatria, Valéria Maria Bezerra Silva, novos protocolos de tratamento garantem segurança no uso de anestésicos em crianças para a realização de exames e de outros procedimentos dolorosos.
Menos dor Para diminuir a dor de punções e injeções, já existe uma pomada com ótimos resultados, que combina os anestésicos prilocaína e lidocaína. ''Ela só não pode ser usada por recém-nascidos'', afirma Silvia Maria de Macedo Barbosa, chefe da Unidade de Tratamento da Dor do Instituto da Criança.
A velha injeção do antibiótico benzetacil, que traz muita dor porque, ao ser aplicada, expande o músculo, já está praticamente abolida e pode ser substituída por drogas por via oral.
Os pais devem ficar atentos à dor. Nos bebês, além do choro, as caretas e flexões de braços e pernas são alguns sinais. ''A dor marca, deixa memórias'', diz Silvia. E pode tornar a criança mais estressada na próxima consulta.
Cores suaves, desenhos, brincadeiras, música e a chupeta também auxiliam a distrair a criança para que ela não pense na dor.
Algumas técnicas específicas também suavizam procedimentos médicos em crianças. O exame de sangue pode ser feito pelo calcanhar ou pela mão para diminuir o desconforto. Fazer a coleta com a criança deitada e relaxada é outra estratégia. ''Na medida do possível, o indicado é não usar a força'', diz Milton Zymberg, gerente de relações de uma rede de laboratórios de São Paulo.
Caso haja dificuldade para achar a veia da criança, Silvia recomenda que seja feita uma pausa. Se o problema continuar, é bom trocar o profissional que faz o exame. Também é recomendável prestar atenção na localização dos vasos para auxiliar o profissional em uma próxima vez.
Os pais, dizem especialistas, devem manter a calma, pois são ''espelhos'' para os filhos. Eles devem estar sempre por perto e não deixar dúvidas para trás. É preciso também compreender as limitações do médico.
No último levantamento do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) sobre denúncias contra médicos, a pediatria foi a segunda especialidade do ranking de reclamações.
''Na maioria dos casos, o que ocorre é um mal-entendido entre pais nervosos e médico estressado'', diz Pereira. n


