O reconhecimento profissional feminino exigiu algumas atitudes (e escolhas) que marcaram o comportamento da mulher moderna. O adiamento da maternidade, por exemplo, foi fundamental para consolidar as conquistas e delimitar os novos papéis sociais. Por outro lado, problemas decorrentes da gravidez tardia vêm aumentando nos últimos tempos. A endometriose é um deles. Atingindo de 15% a 30% das mulheres em idade reprodutiva, a doença pode causar uma série de desconfortos – como dores pélvicas, cólicas intensas e alterações do fluxo menstrual – e até mesmo levar à infertilidade.
  Para elucidar o problema, a médica ginecologista e obstetra Olívia Nassif Fernandes compara o útero a um mamão papaia. ‘‘A semente é o endométrio; a polpa, o miométrio, e a casca, o perimétrio. A semente pode entrar na polpa ou sair para fora da casca, atingindo outros locais da pélvis. Endometriose, portanto, é o endométrio fora do lugar dele’’, esclarece. Os locais mais comuns da endometriose são o septo reto-vaginal (entre a vagina e o reto), as trompas, o fundo do Saco de Douglas (atrás do útero), os ovários, a superfície do reto, os ligamentos do útero, a bexiga e a parede da pélvis.
  Olívia explica que, fora do útero, as células do endométrio respondem ao estímulo dos hormônios produzidos pelos ovários, iniciando um processo de multiplicação. ‘‘De modo diferente do que acontece no endométrio, essas células não descamam em cada período menstrual e continuam crescendo gradualmente. Este processo gera cicatrizes e aderência ao redor dos ovários, criando um obstáculo à trajetória normal dos óvulos’’.
Causas Por engravidar mais cedo, ter mais filhos e passar períodos maiores de tempo amamentando e sem menstruar, a mulher, antigamente, corria menos riscos de desenvolver a doença. De acordo com a ginecologista, ainda não se sabe ao certo as causas do problema, mas algumas teorias estão sendo formuladas. Uma delas é a da menstruação retrógrada: ao invés de ocorrer para fora do útero, saindo pela vagina, parte dela iria para as trompas de Falópio e atingiria outras regiões, como as próprias trompas, os ovários e a cavidade abdominal.
  Outra teoria é a do extravasamento de parte da menstruação através dos vasos sangüíneos ou linfáticos. Há ainda registros de que a doença seria ocasionada por fatores genéticos ou devido a deficiências imunológicas. Outras questões coadjuvantes, que colaboram para o aparecimento do problema, são a hereditariedade (a presença da endometriose em mãe ou irmãs dobra o risco); menstruações prolongadas e abundantes; obesidade; primeira gestação tardia; ausência de filhos e fatores anatômicos, como má formação uterina.
  Mulheres brancas, acima de 20 anos, têm maiores chances de ter endometriose. Os riscos aumentam consideravelmente com a idade: 25% das maiores de 35 anos sofrem com o problema. Em 79% dos casos, a doença se instala nos ovários. Segundo Olívia, cerca de 80% das pacientes que chegam ao consultório reclamando de dor pélvica têm endometriose. ‘‘A dor ocorre por formação de aderências entre os órgãos, devido à produção de substâncias irritantes pelas células da endometriose e ainda pela pressão de outras estruturas abdominais’’, justifica.
Tratamento A infertilidade atinge de 20% a 40% das pacientes. A doença pode levar à infertilidade porque altera a anatomia dos órgãos pélvicos, a bioquímica da cavidade abdominal e a imunologia local, interferindo na mobilidade tubária, na função espermática e na implantação embrionária. Para o diagnóstico, a investigação clínica é fundamental, seguida de exames laboratoriais de sangue. Ultra-sonografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética nuclear também podem ser necessários.
  Os sintomas mais comuns da endometriose são cólicas mais intensas e duradouras durante o período menstrual; dor de profundidade durante o ato sexual; dor lombar e alterações intestinais durante a menstruação, pequenos sangramentos pré-vaginais e alterações do fluxo menstrual (mais intenso ou prolongado). ‘‘No entanto, na literatura médica encontram-se referências variáveis entre 5% e 40% de pacientes sem sintomas’’, observa a médica.
  Para confirmar e já iniciar o tratamento, usa-se a videolaparoscopia, cirurgia que destrói os implantes de endometriose, seja por coagulação à laser, vaporização de alta freqüência ou por meio de bisturi elétrico.
Algumas drogas também são utilizadas no pré e pós-operatório. Olívia informa que não há cura para o problema. ‘‘O tratamento visa reduzir a dor, diminuir o tamanho dos implantes, reverter ou limitar a progressão da doença, além de preservar ou restaurar a fertilidade. O mais importante é o planejamento de ações terapêuticas junto com o planejamento da gravidez pelo casal’’, avisa. n

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