Quando vemos notícias de jovens que espancam e até matam pessoas nas ruas, que agridem seus pais e professores e que não demonstram qualquer arrependimento por seus atos, é inevitável a pergunta: onde estamos errando? Familiares e educadores se questionam sobre como ensinar seus filhos e alunos a respeitarem o próximo, a ter compaixão e assumir responsabilidades. Infelizmente, na opinião do psicólogo Nelson Pedro-Silva, o problema está no fato de que pais e professores não sabem como educar as crianças.
''Houve uma interpretação equivocada da idéia da cultura paz e amor, que teve início nos Estados Unidos, no final da década de 70. Saímos do modelo adultocêntrico (onde o poder está nas mãos do adulto) e caímos no modelo pluericêntrico (o poder fica com as crianças e adolescentes). Isso aconteceu em casa e também nas escolas'', diz ele, que mora em Assis (SP) e esteve em Londrina para participar do Didática 2007, no mês passado, no Teatro Marista.
Se por um lado houve o ganho, a partir do momento que muitos pais abandonaram os castigos físicos como forma de educar, o especialista explica que o problema agora é a completa falta de limites. ''Sabemos que bater é anti-educativo, que gera violência e ódio, mas os pais e a escola precisam colocar limites nas crianças, servir de guia, proibir, inibir certas atitutes. Enfim, tornar a criança um ser civilizado, com valores de respeito mútuo, justiça, tolerância e solidariedade. Um bebê quando nasce é um selvagem como qualquer outro animal. São as regras de convivência que nos transformam. O que vemos hoje são jovens que continuam selvagens, sem se preocupar com o outro'', afirma.
E as causas aparecem desde cedo, já na pré-escola. Com o mercado de trabalho cada vez mais competitivo, os pais se preocupam muito em instruir os filhos com cursos variados e se esquecem, segundo Nelson, de uma atividade estremamente importante na infância: brincar. ''Hoje em dia, nas pré-escolas por exemplo, as pessoas se preocupam em usar as brincadeiras para ensinar. Mas o brincar espontâneo é fundamental para a criança aprender a viver em sociedade, a criar, respeitar regras. Encher os filhos de atividades, como inglês, natação, piano, reforço de matemática é bom mas não é tudo. Além do desenvolvimento intelectual, é necessário lembrar do desenvolvimento afetivo e social'', alerta.
A ausência dos pais também aparece como outro responsável pela falta de controle dos jovens. O psicólogo cita que o primeiro modelo que os filhos têm em casa é o da ausência de comprometimento. ''Sabemos que os pais precisam trabalhar e é difícil mudar essa realidade. O problema é que as crianças estão sendo educadas pela comunicação de massa, que é consumista, individualista e prioriza o prazer a qualquer custo. Esse pensamento muitas vezes é reforçado pelos pais, que não se sentem capazes de educar e compensam sua frustração com presentes e permissividade'', diz.
Embora a situação pareça extremamente difícil de resolver, Nelson garante que há boas iniciativas já acontecendo. ''Só o fato de as pessoas estarem discutindo o que fazer já é um progresso. Precisamos entender que educar é uma tarefa da família e da escola e que os dois precisam se unir para isso. Vejo muitos pais indo nas escolas brigar com o professor que repreendeu seu filho. As crianças precisam aprender a respeitar seus professores e o ambiente escolar'', comenta.
Tentar buscar um estilo de vida mais voltado para a qualidade de vida é outra alternativa que algumas famílias encontraram para criar seus filhos. ''Já vemos isso acontecendo em alguns países: pais que abrem mão de possuir bens de consumo e buscam mais qualidade, com tempo para a família'', garante.
E a mais importante dica do especialista é que os pais sigam seus instintos e seu bom senso. ''Vejo que a maioria acredita que deve procurar um especialista para educar as crianças e não acho isso necessário. Claro que psicólogos, pedagogos e outros profissionais são importantes, mas precisamos também lembrar de como nossos pais nos educaram muito bem sem o auxílio de nada disso. Os pais precisam se mostrar poderosos perante seus filhos, merecedores de respeito e dignos de serem copiados em suas boas atitudes'', ensina.
Nelson Pedro-Silva é autor dos livros ''Ética, Indisciplina e Violência nas Escolas'' (Editora Vozes), ''Disciplina/Indisciplina'' (Editora Mediações), '' Entre o Público e o Privado (Editora Unesp).

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