Para o médico psiquiatra Heber Odebrecht Vargas, o fato de alguns homens estarem assumindo, sozinhos, a educação dos filhos, é um sinal dos tempos. Com a independência feminina e a responsabilidade mútua de sustentar a casa, a estrutura familiar se modificou a as funções de ambos na criação da prole também. O que acabou aproximando o homem dos filhos. ''Está existindo uma relação mais próxima, mais íntima. A gente vê cada vez mais pais nas reuniões na escola, participando mesmo'', observa.
Diante dessa realidade, talvez se possa dizer que, hoje, os homens estão mais preparados para a tal dupla jornada, exclusividade feminina por muito tempo. E que a necessidade de encará-la não seja mais tão assustadora como há algumas décadas. Mas esse desafio não se aplica somente aos que se viram sozinhos por contigências do destino ou decisões conjugais. Muitos solteiros topam a parada por escolha própria, através da adoção. E o que dizer dos filhos que crescem sem nenhuma referência materna? Notícias de casais homossexuais que adotam crianças já não são novidade e constituem apenas um traço da nova ''cara'' da família do século 21. O assunto é um dos destaques da entrevista que o psiquiatra concedeu à Folha da Sexta.
Folha da Sexta - Quais os maiores problemas que o homem enfrenta ao assumir, sozinho, a educação dos filhos?
Heber - Quando você está assumindo mais funções, precisa ter uma maior integração com os seus filhos. Isso é o lado positivo dessa mudança toda. Aí você pergunta, e essas pessoas que ficam viúvas? Realmente é uma sobrecarga. Também acontecem situações em que o pai solteiro adota o filho. Claro que ele vai ter que se esforçar um pouco mais para dar essa dupla cobertura. Porque, se por um lado o homem tem algumas vantagens, em termos de ser racional e tudo mais, por outro lado tem a questão da afetividade. Ele vai ter que se esforçar para não deixar os filhos carentes.
Folha da Sexta - Sendo o homem mais racional, em que isso pode contribuir para a educação dos filhos no caso de ele estar sozinho?
Heber - A razão coordena as nossas atitudes e evita riscos. Então, a razão é importante, inclusive, para colocar limites na educação dos filhos. É aquela história, e isso é um grande defeito dos pais, eles querem ser amigos dos filhos. E não é essa a função de pai. Pai e mãe não são amigos dos filhos. É uma outra estrutura de afeto extremamente diferente, forte e necessária, mas jamais de amizade. Você pode, eventualmente, ficar mais amigo dos seus filhos depois, quando ficam maduros e têm os próprios filhos. Mas, na primeira instância, os pais vão dar limites, mostrar situações de risco. O pai tende a fazer mais cobranças, por exemplo, em relação ao futuro do filho. Já a mãe avalia também sentimentos, neste caso, com conselhos do tipo, ''calma, paciência, você vai chegar lá''. Por isso, a tendência a dar certo é quando existe o pai e a mãe. Quando se tem uma figura só, ou de pai ou de mãe, certamente, há uma sobrecarga. Quando falo pai e mãe, não é necessariamente a figura masculina e feminina. Aí entramos no caso de homossexuais, onde o sexo do casal não é de todo relevante. O que é relevante é ter essa estrutura de afeto. A figura de pai (ou de mãe) tem uma importância para passar sentimentos, condutas, comportamentos. É por isso que eu digo que a nossa função, como pais, não é necessariamente de amigo. A postura da gente é de ver lá na frente, o que seria ideal ou não para o filho, e a postura do amigo, geralmente, é a de ver o hoje, o momento.
Folha da Sexta - Há a crença de que as figuras materna e paterna são fundamentais para o desenvolvimento sadio da criança. Como ficam as coisas quando há só a figura do pai?
Heber - Nós estamos numa fase de transição sociológica importante. Essas definições eram bastante delineadas há 20 anos. Hoje, as figuras do pai e da mãe estão se miscigenando mais do que propriamente se distanciando. Nós não temos uma definição de como isso vai ficar na próxima geração. Nós somos uma geração de transição, estamos buscando o ponto de equilíbrio disso. O que todo mundo sabe é que um só tem muito mais dificuldade do que dois. Então, quanto mais a gente observa pais se separando, mais a gente observa conflitos na educação desses filhos, com uma complicação natural: filhos de pais separados têm uma tendência maior a se separar também. Mas é a estrutura do núcleo familiar que tem que ser mantida. Ela pode até ser modificada, e é necessário que se modifique porque o mundo está se modificando, mas não necessariamente rompida.
Folha da Sexta - Quando essa estrutura é rompida?
Heber - Numa briga exagerada, em que os pais estão se agredindo e os filhos observam isso, por exemplo. Porque pai e mãe são referências, e os filhos vão agir tal e qual no futuro. Se eles observam o pai brigando com a mãe, eles guardam uma referência que muitas vezes podem utilizar depois. São situações em que é preciso tomar cuidado. Essa é uma das responsabilidades dos pais. Temos que ter uma postura bastante interessante em termos de mostrar princípios. Porque os filhos, numa primeira fase, observam isso; na adolescência, eles negam totalmente, e numa terceira fase, começam a resgatar princípios, a repetir determinados padrões que aprenderam. Se tiveram pais e mães afetivos, provavelmente vão ter um bom relacionamento afetivo. Caso contrário, vão ter que tomar um cuidado maior para não repetirem esse padrão. Senão, de repente, vão ouvir de seus filhos as mesmas reclamações que um dia eles fizeram de seus pais. Esse ciclo foi feito para se perpetuar mesmo mas, quando ele está alterado em algum ponto, tem que ser refeito. Senão, vão existir gerações e gerações de gente mal-amada, famílias mal estruturadas.
Folha da Sexta - Acreditar que os filhos de pais homossexuais terão problemas é um preconceito?
Heber - É, primeiro porque nós não temos muita experiência em relação a isso. Esse padrão de o homossexual assumir a atitude de paternidade e maternidade é uma coisa recente. Vamos ter que verificar isso ao longo do tempo, se é uma verdade ou uma mentira a gente não sabe. Provavelmente, até seja um falso conceito, mas a resposta vai vir ao longo do tempo, na próxima geração. O homossexual tem uma afetividade maior que pode compensar alguma outra deficiência. Não vai, necessariamente, ser melhor ou pior pai. É óbvio que em um lar de um casal homossexual pode haver muito mais equilíbrio do que uma casa de pais heterossexuais que vivem se digladiando. É muito simples a gente observar o que é melhor e pior numa situação dessas. Então, acho que a gente não deve falar muito em termos de pai e mãe, mas de conceitos de família. Ainda que o cara esteja sozinho, ele pode passar princípios morais e religiosos que são fundamentais para a formação e o equilíbrio da criança.
Folha da Sexta - A boa nova é que não há mais papéis tão definidos. Isso é bom?
Heber - Tem seu lado positivo, a responsabilidade é de ambos. E o lado negativo é que a gente perdeu determinadas referências. Vamos ter que definir as figuras de pai e de mãe lá na frente. Mas que estamos educando nossos filhos de forma diferente de que fomos educados, isso é um fato. O mundo está mudando mais rápido do que a capacidade de adaptação do cérebro. O ser humano é muito adaptável, mas não com essa velocidade. Isso faz com que algumas gerações, como a nossa, sejam gerações de transição. Transição para que? Ou para uma mudança de referências ou para uma mudança do comportamento do cérebro de se readaptar mais rapidamente. Só o futuro vai dizer. Eu acho essa mudança mais proveitosa. Eu, como pai, estou me sentindo mais realizado de estar participando da educação dos meus filhos, do que provavelmente o meu pai, que naquela época não teve essa possibilidade. Acho que eu não aproveitei meu pai nem ele me aproveitou tanto como eu estou aproveitando meus filhos hoje. Para mim, é uma mudança para melhor. Vai fazer com que o nosso Dia dos Pais seja realmente significativo, não só a ponto de ganhar meias e cuecas como a gente ganhava antigamente, mas de receber cartinhas dizendo: ''Você é o melhor pai do mundo'', que eu guardo com muito carinho.(R.V.)

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