A delícia que vem do cacau
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sexta-feira, 08 de dezembro de 2006
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Panetone? Frutas secas? Peru? Sim, tudo isso é sinônimo de Natal. Tanto quanto o chocolate simboliza a Páscoa. Mas em tempos democráticos, os números indicam que algumas tradições estão mudando. Pelo menos no Brasil, a época natalina gera um aumento de até 20% nas vendas de produtos de chocolate segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolate, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab). Só no ano passado, segundo a Associação, foram comercializadas 20,4 mil toneladas entre novembro e dezembro. A expectativa para 2006 é de que as vendas cheguem 22 mil toneladas.
Na verdade, não foi de uma hora para outra que a delícia à base de cacau passou a ser vorazmente consumido no final do ano. A versão de chocolate do tradicional panetone vindo da Itália tem cerca de duas décadas. Se os puristas torceram o nariz na época, hoje já perceberam que é impossível resistir às variações. Os primeiros chocotones ficaram mais elaborados e hoje já são encontrados até recheados com sorvete. De chocolate, claro.
De acordo com a Abicab, que fez um estudo com associações internacionais do setor, as compras de produtos como balas, confeitos e chocolates são divididas em: 40% para consumo fora de casa (na rua, no trabalho ou na escola), 30% para consumo em casa e 30% para presentes. Esta última porcentagem é a que está movimentando o comércio natalino, já que o chocolate ganha disfarces ainda mais saborosos nesta época do ano e que vão muito além do panetone com chocolate.
Há 13 anos no mercado de doces, Gina Pitelli precisou de um ponto de vendas extra para dar conta do aumento da demanda. Durante dois meses até meados de janeiro ela e suas trufas, bombons e pães de mel (muitos deles personalizados) também estão instalados em uma loja do Shopping Canziani. Tudo para atender os clientes em busca de presentes diferenciados. Tenho caixas de dois a 70 doces, explica Gina, que aprendeu com a avó boa parte de suas receitas. Só que ao longo dos anos, ela tem feito suas próprias invenções, misturando o chocolate com maracujá, menta e frutas silvestres. Mas os doces apenas de chocolate ainda são os que mais saem, conta.
Confeiteira com várias especializações na França, Adriana Carioba contabiliza que 90% das suas criações levam chocolate. Mas não é qualquer um. Rigorosa nas suas receitas, Adriana prefere usar o chocolate puro, sem gordura hidrogenada. O único inconveniente é que em terras quentes como Londrina, seus quitutes só podem ser servidos em festas que tenham ar-condicionado. É preciso saber respeitar o chocolate, explica a confeiteira, que trata a sua matéria-prima principal como um bem preciosíssimo. Além de instrumentos especiais para o manuseio, Adriana ainda tem total cuidado na hora de fazer os choques térmicos tão necessários para seus doces.
Para mim, o chocolate é comfort food (algo como comida que reconforta), desfaz os nós. Você resolve seus problemas ou quase isso com o chocolate, avisa Adriana. Por isso mesmo, ela não embarcou muito na preferência européia do meio-amargo. Acha que em uma noite chuvosa você vai ficar em frente à televisão assistindo a um filme como uma barra de chocolate meio-amargo? Não mesmo, explica. É a mesma razão que a faz ter muita parcimônia na hora de inventar misturas. Frutas exóticas estão banidas porque, segundo ela, as pessoas não querem muitas surpresas quando vão comer um doce de chocolate. Principalmente nas festas.
O diferencial da confeiteira então é a forma, algo que trouxe das viagens à França, onde até existe um conceituado concurso para premiar os mais habilidosos trabalhos com chocolate. As formas que eles criam não são tão bacanas, mas as técnicas são ótimas, diz Adriana, que costuma sempre surpreender sua clientela com o capricho dos detalhes.
Conhecedora das mais variadas marcas de chocolate do mundo, a confeiteira chocólatra assumida , opta pelo belga Callibout para trabalhar. As delicadas pastilhas atravessam o Oceano Atlântico para distribuir por aqui seu sabor como as opções de caramelo, limão e morango.
E quando se trata de importados, a empresária Michelle Berbert Santos surge como uma das porta-vozes. A família dela comercializa chocolate há 27 anos e há uns três passou a trabalhar com marcas vindas principalmente da Europa. A opção pelos internacionais foi feita pela própria Michelle, que já pode comemorar. Hoje, cerca de 60% das compras são de importados. Com a globalização e a queda do dólar as pessoas estão consumindo mais, explica. A baixa nos preços tem um ótimo exemplo. Uma barra de 100 gramas de Lindt (suíço) já chegou a custar cerca de R$ 20, hoje sai por uma média de R$ 9, conta.
Se os chocolates suíços ainda carregam a fama de ser os melhores do mundo, há quem aposte nos belgas como os novos líderes. Mas há marcas italianas deliciosas e também francesas e holandesas, avisa Michelle, que costuma receber muitas dicas dos amigos que moram no exterior e assim vai descobrindo novas marcas. Nacionalidades à parte, o chocolate não vê fronteiras. Acho que quem não gosta de chocolate é um ser esquisito, explica Adriana.


