A classe média vai ao paraíso
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quinta-feira, 29 de maio de 2003
Priscila Néri<br> Agência Estado 
É a democratização da alta costura, ou assim prometem. Ternos da Valentino, blazers da Daslu e jeans da Versace por até 10% dos preços de loja. Não se trata de contrabando nem pirataria, mas sim das ofertas dos brechós especializados em roupas de grife seminovas. Com os orçamentos apertados, é cada vez mais comum profissionais como médicas, advogadas e arquitetas se renderem às etiquetas de segunda mão, mesmo que, em público, não confessem isso a ninguém.
''A mulher que tem uma bolsa da Louis Vuitton quer que todos pensem que ela gastou US$ 2 mil na bolsa, é uma questão de status. Ela nunca vai admitir que comprou a peça num brechó por R$ 200'', exemplifica a estilista e advogada Carmem Trimon, cliente há 15 anos do Degriffée, o mais antigo brechó de que se tem notícia com 37 anos de mercado em São Paulo. Mas Carmem se apressa em dizer que considera essa atitude ultrapassada. ''Eu compro aqui sem nenhuma vergonha'', afirma.
Segundo uma das sócias do Degriffée, Carmen Del Corono, uma peça de grife no brechó custa entre 10% e 50% do valor original na loja, com a garantia de que o item estará em perfeitas condições. Antes de serem colocadas à venda, as peças passam por um processo de higienização. Muitas vezes, as roupas ainda exibem suas etiquetas originais, prova de que sequer foram usadas.
Fetiche As roupas chegam ao brechó por meio de fornecedoras individuais, geralmente mulheres da alta sociedade que não gostam de usar a mesma roupa mais de duas ou três vezes. ''Às vezes, a mulher nem vem pessoalmente, só manda sua governanta com o motorista para entregar as peças'', afirma a proprietária do Degriffée, que conta com cerca de 300 fornecedoras. E os negócios, confirma Carmen Del Corono, crescem um pouco a cada ano. Segundo ela, o faturamento anual da Degriffée gira em torno de R$ 240 mil.
A advogada Dileuse de Andrade Silva é uma das 500 clientes habitués do Degriffée. Na sua última compra, levou 14 peças por R$ 1,5 mil, incluindo ternos da Daslu e Dolce & Gabbana. ''O brechó representa uma oportunidade de comprar roupas boas a preços acessíveis'', diz. Para Dileuse, roupas finas são uma exigência profissional. ''Quando eu entro no Fórum com um terninho Armani, o cliente se sente mais seguro e o juiz me olha com outros olhos'', acrescenta.
É o ''fetichismo da mercadoria'', escreveu Karl Marx no primeiro capítulo de O Capital. Segundo a teoria, que busca explicar o fascínio das pessoas pelas coisas, as relações sociais são determinadas por objetos materiais. Ou, como simplificou Dileuse, quanto melhor o terno, melhor impressão ela causará nas pessoas ao seu redor.
Crescimento A empresária Denise Pini, dona do brechó Capricho à Toa, entrou no mercado há 12 anos, vendendo roupas de grife usadas e hoje comercializa até eletrodomésticos de segunda mão. Ela estima que suas vendas cresceram 20% em 2001, com faturamento mensal aproximado de R$ 30 mil. ''É um mercado em expansão.''
Percebendo a oportunidade, Emily Cochrane não pensou duas vezes. ''Coloquei minhas próprias peças à venda'', conta. Seu brechó, o Garage Sale, começou na garagem de sua casa há um ano e, em 2002, acumulou faturamento de R$ 150 mil.
Mas a venda de roupas de grife por preços irrisórios não distorce o sentido de ter uma roupa de grife, exclusiva e cara? Para a proprietária da Degriffée, a equação é exatamente oposta. ''Pelo contrário, ajuda a divulgar o produto'', diz. ''A marca Louis Vitton não seria tão conhecida não fossem as imitações que circulam (no mercado informal)'', argumenta.
Crianças A jornalista Miriam Sanger encontrou um novo nicho depois que deu à luz Isabela, há um ano. ''Ela ganhou roupas que nem usou e percebi que o desperdício de roupas para bebês era grande'', relembra. Miriam começou a vender as roupas numa edícula no fundo de sua casa, em São Paulo.
O boca a boca espalhou a notícia e mais mães procuraram Miriam. Nasceu a Bolota, brechó especializado em roupas de grife e acessórios para bebês e crianças. Inaugurada em setembro, hoje a Bolota tem cerca de 800 peças, todas trazidas em consignação.
No primeiro mês, o brechó faturou R$ 400. Três meses depois, em dezembro, o faturamento atingiu R$/$ 3 mil. Na Bolota, um macacão da Ralph Lauren sai por R$ 25, uma economia de 70% em relação ao preço original, e uma minissaia da Daslu para meninas de três anos pode ser adquirida por R$ 25, contra pelo menos R$ 150 na loja, segundo Miriam. Por lá se encontram ainda carrinhos e outros acessórios infantis.
Agora a empresária quer transferir o negócio para um estabelecimento comercial de mais visibilidade. ''Terei de investir entre R$ 7 mil e R$ 10 mil para abrir a loja'', diz ela, que pretende fazer o investimento antes da mudança da nova estação, em junho. Até lá, cuida da sua bolota, a Isabela, o apelido que deu origem a tudo.


