A ciência do mobiliário
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de julho de 2000
Angela Raizer Barbosa 
Os marceneiros Carlos Gimenes e Dorival Schmitt fazem parte de um grupo de profissionais que ainda conseguem desenvolver uma profissão que poderia ser considerada anacrônica e decadente na atual sociedade de consumo. Quem pensou que as grandes indústrias eliminariam de vez antigos ofícios como o da marcenaria, enganou-se redondamente.
Aliás, no século 18, ao mesmo tempo em que a arte da marcenaria atingia seu apogeu na Europa, as teorias estabelecidas pela revolução industrial começaram a estimular a rapidez em detrimento da produção e perfeição do objeto final. E já naquela época previa-se que os grandes marceneiros, artesãos da elite, entrariam em crise com o advento da massificação. No entanto, essa profissão não só continua a existir como ganhou um verniz de sofisticação, representando uma alternativa de consumo personalizado.
O mobiliário contemporâneo de qualidade ainda é produzido dessa forma geralmente os arquitetos criam as formas no papel e as mãos hábeis dos marceneiros as tornam reais. Um móvel bem-acabado reflete cálculos milimétricos e muito conhecimento da matéria-prima resultando em peças especiais, sob medida, muito diferentes das fabricadas em escala industrial. Madeiras se dobram à criação de curvas em ângulos precisos, incrustrações de marchetaria e rádica revivem estilos, descolorantes e vernizes dão os tons desejados à superfície da madeira.
Aprendizado Carlos Gimenes, como todo marceneiro que se preze, começou cedo. Seu primeiro contato com a madeira aconteceu aos 8 anos de idade, quando começou a trabalhar como faxineiro em uma marcenaria tradicional de Londrina. À medida que ia aprendendo sobre a ciência dos móveis, Carlos galgava mais um degrau até chegar a aprendiz de marceneiro. Aos 14 anos fez seu primeiro móvel um guarda-roupa que existe até hoje. Trabalhando de marcenaria em marcenaria, Carlos fez sua escola até chegar à conclusão que o melhor caminho era montar seu próprio negócio. Associou-se ao irmão, Paulo, e juntos montaram a Escala Móveis. Acumulando conhecimentos e atualizando-se constantemente com as tendências exigidas pelo mercado, os irmãos Gimenes nunca abriram mão da qualidade da mão-de-obra. Os equipamentos mudaram, tornado-se mais sofisticados, surgiram novas técnicas e acessórios que facilitaram o trabalho, mas a confecção do móvel continua artesanal, diz Carlos. Da época em que predominavam madeiras maciças como imbuia, cerejeira e imbuia, passando pelo marfim natural até chegar novamente à imbuia e ao marfim lavado laminados (duas tendências fortes hoje em mobiliário), a confecção de um móvel obedece sempre ao mesmo ritual depois de confirmadas as medidas na casa do cliente, a madeira é cortada e as peças encaixadas como num quebra-cabeça. A lustração ou branqueamento são feitos no final. No caso de peças grandes, como guarda-roupas, são montadas na marcenaria, desmontadas para transporte e montadas novamente na casa do cliente.
Além da escassez de madeiras nobres, o que encarece o valor final do móvel, Carlos se ressente da falta de mão-de-obra qualificada. Não é fácil encontrar um bom marceneiro e, acho até que essa profissão está com os dias contados. É preciso começar cedo para aprender todas as etapas, não dá para começar depois dos 20, 30 anos; é como sentar num banco de escola, são 6 a 7 anos de aprendizado até assumir a confecção de qualquer tipo de móvel, argumenta ele. Pai de um menino de 2 anos, Carlos Gimenes diz que não gostaria que seu filho fosse marceneiro, mas queria que ele assumisse a empresa, de preferência voltada para a fabricação artesanal, mas em linha seriada, pois móvel sob encomenda, dá muito trabalho e pouco retorno financeiro.
Evolução A história de Dorival Schmitt não é muito diferente da de Carlos. Marceneiro com alma de designer, ainda criança ele fazia carrinhos e outros brinquedos, sua primeira incursão nos domínios da madeira em Marechal Cândido Rondon. Daí, entrar para uma marcenaria, ainda adolescente, foi um pulo. Aos 17 anos teve que largar tudo para servir o Exército, mas, ao voltar, decidiu que trabalhar com madeira era tudo o que ele queria. Depois de 6 anos trabalahndo como empregado, onde cumpriu todas as etapas de sua formação, Dorival montou a própria marcenaria naquela cidade.
Mas foi o arquiteto Alessandro Crostarossa que descobriu, no ínicio da década de 90, a habilidade de Dorival com a arte da marcenaria. Depois de executar vários projetos do arquiteto em Londrina, Dorival decidiu alçar vôo e aterrissar aqui em 93, junto com o sócio e um funcionário. Como a irmã, Roseli, já morava aqui, não foi difícil encontrar um lugar para instalar sua Freunden Interiores, contando ainda com o aval de Alessandro Crostarossa, que hoje mora em Curitiba. Outros arquitetos descobriram o caminho dos móveis de Dorival e a clientela foi aumentando, até se tornar impossível atender a todos.
Das portas ao piso até chegar ao mobiliário, Dorival fazia tudo dentro de um apartamento, principalmente aqueles construídos no sistema condomímio, em que os acabamentos internos eram da responsabilidade do futuro morador. O projeto do arquiteto especificava que a madeira do assoalho e as portas tinham que combinar com os móveis e assim fazíamos tudo, lembra. Mas se esse tudo dava prazer, dava também muita dor de cabeça, o que acabou mudando os rumos da marcenaria, entrando para a fabricação de móveis artesanais em linha seriada, o sonho da maioria dos marceneiros. A oportunidade surgiu quando Dorival abriu, em parceria com a irmã, uma loja de móveis clássicos no centro de Londrina. Era a vitrine que ele precisava para mostrar seu trabalho e conseguir mercado para suas criações e réplicas de móveis antigos, cheias de detalhes e entalhes.
Enquanto ele produzia, a irmã fazia o merchandising visitando as melhores lojas de decoração na capital paulista e, uma delas, inclusive acabou fazendo uma parceria com a família Schmitt e abriu uma franquia em Londrina. Atendendo 80 lojistas de todo o Brasil, os móveis da Freunden estão hoje em residências do norte ao sul do País. Lançamos duas a três coleções anuais adequadas para cada lojista, afirma Roseli Schmitt. Todas as peças são feitas artesanalmente, uma a uma, dentro dos estilos clássico e contemporâneo. É uma espécie de alta-costura do mobiliário comercializada no sistema prêt-à-porter, acrescenta ela. Quanto à confecção de móveis sob encomenda, só para clientes antigos e amigos, completa Dorival.


