A cartilha já era
Angela Raizer Barbosa
A escola tradicional, com suas etapas planejadas e ensino compartimentado, pode estar com os dias contados. A nova geração de crianças, cada vez mais espertas, vivendo num mundo repleto de inovações tecnológicas, estímulos visuais e informações diversas, fez com que especialistas repensassem os métodos de ensino tradicionais, baseados na constatação de que a garotada de hoje tenha cabeças melhores do que tiveram seus pais na mesma idade. Uma dessas teorias das Inteligências Múltiplas foi desenvolvida pelo psicólogo americano Howard Gardner, da Universidade de Harvard, que prega o estímulo de várias habilidades no ensino de qualquer matéria.
Baseada numa nova concepção científica da mente, a Teoria das Inteligências Múltiplas desmistifica a tese de que a inteligência é uma coisa única, possível de ser medida através de um teste de QI ou de uma avaliação escolar. Howard Gardner concluiu que as formas convencionais de avaliação apenas traduzem a concepção de inteligência vigente na escola, limitada à valorização da competência logico-matemática e da linguística. O psicólogo argumenta que na mente humana co-existem, além da linguística e da lógico-matemática, as inteligências corporal-cinestésica, musical, interpessoal, intrapessoal, espacial (ver box), embora não considere esse número definitivo.
Tendo estímulos, esses tipos de inteligência, também chamados dons ou habilidades, fazem com que tudo o que a criança enxerga, ouve ou aprende seja útil na vida pessoal ou profissional futura. No aprendizado escolar baseado nessa teoria, um ou mais tipos de inteligência podem ser usados como rotas secundárias para ajudar o aluno a aprender matemática, por exemplo. Até porque a criança recebe hoje tantos estímulos visuais que aprende brincando, associando imagens.
Ginástica cerebral Apesar de não existirem provas científicas de que essas inteligências múltiplas operam mesmo de forma independente, a teoria de Gardner está sendo adotada por escolas no mundo inteiro. Segundo ele, as escolas que têm métodos para desenvolver as inteligências múltiplas estão obtendo mais resultados positivos com as crianças. Em Londrina, a pedagoga Solange Gomes Fávaro, é uma das educadoras que se baseiam na teoria do psicólogo americano para desenvolver seu programa de ensino em alunos do pré e primeiro grau. Estamos preparando as crianças para que sejam capazes de desenvolver todas as áreas do cérebro, despertando habilidades inatas.
Solange explica que a matemática deixa de ser um número para se integrar a outras atividades como dançar, cantar, brincar, desenhar, ler e até tocar um instrumento musical. Ao ensinar a multiplicar, por exemplo, associamos várias habilidades colocando um papel com a tabuada dentro de uma bexiga, para a criança brincar até a bexiga estourar e descobrir nesse jogo lúdico, uma operação que seria monótona se fosse ensinada dentro da sala, de forma convencional. Em outra brincadeira, em que são exploradas as inteligências linguística, espacial, corporal-cinestésica e lógico-matemática, o nome dos amigos é coberto de areia e literalmente pescado pelas crianças.
Solange observa que dessa forma os alunos que têm dificuldades ou não gostam de matemática, sentem prazer e facilidade em aprender; aqueles que não têm dificuldades desenvolvem outras áreas. Ela alega que embora a matemática seja supervalorizada nas escolas, o ensino dessa matéria costuma ser problemático. Daí a proposta de se chegar ao pensamento matemático, usando outras habilidades através da diversificação de atividades. Não se trata de um novo currículo, mas de um conjunto de estratégias de ensino que incorpora outras competências sem se distanciar do objetivo matemático ou de outra matéria do currículo escolar.
Diferenças individuais É através dessas constatações que os especialistas sustentam que a capacidade de o cérebro se moldar aos estímulos externos é infinitamente maior nas crianças desta geração. Daí o surgimento de novos métodos de pensar e aprender. Um exemplo disso é a Atividade Livre desenvolvida de duas a três vezes por semana com os alunos da pré-escola dirigida por Solange Fávaro, em que a professora seleciona atividades baseada em diferentes inteligências. Em vários cantos da sala são agrupados instrumentos musicais, tintas e lápis para pintura, livros com fantoches, sucata de TV com microfones, jogos matemáticos, entre outros. A criança tem 50 minutos para procurar qual atividade desperta mais seu interesse e fazer o que bem entender.
A maioria procura tudo, alguns fogem da matemática, outros dos microfones, afirma Solange. Observando essas atividades, a professora tem condições de detectar as áreas que mais interessam à criança, e as que não despertam interesse nenhum, podendo-se prevenir, neste caso, as chamadas obstruções de rota de certas inteligências. Assim, a Atividade Livre proporciona uma visão mais completa do aluno, valorizando as diferenças individuais, acrescenta a pedagoga.
No Brasil, uma das defensoras da teoria americana é a mestra em Matemática Kátia Cristina Stocco Smole, da Universidade de São Paulo (USP), autora do livro A Matemática na Educação Infantil A Teoria das Inteligências Múltiplas na Prática Escolar (Editora Artes Médicas). Ela argumenta que a idéia vigente na maioria das escolas ainda é a de que a inteligência é uma só e apenas varia em quantidade de uma pessoa para outra. Por isso, o ensino visa ao aluno de inteligência média e supervaloriza o muito inteligente, segundo as capacidades lógico-matemática e linguística. Com isso, as demais habilidades são ignoradas ou estimuladas secundariamente. A nova teoria considera a musicalidade e até a simpatia como tipos de inteligência tão bem acabados quanto o lógico-matemático. Kátia Smole defende a idéia de que embora ninguém vá se tornar especialista em tudo, é possível evitar bloqueios de capacidades.
Serviço:
Quem tiver interesse em participar de discussões sobre a Teoria das Inteligências Múltiplas pode participar, gratuitamente, dos encontros promovidos aos sábados pela pedagoga Solange Fávaro, fone (43) 323-3737.
Tipos de inteligência
Lógico-matemática: determina a habilidade para a compreensão de cadeias de raciocínios, além da capacidade para solucionar problemas envolvendo números. É a competência mais diretamente associada à idéia tradicional de inteligência.
Linguística: manifesta-se na habilidade para lidar com as palavras nos diferentes níveis da linguagem, tanto na forma oral como na escrita.
Musical: é a inteligência que permite a alguém organizar sons de maneira criativa, a partir da discriminação de elementos como tons, timbres e temas.
Espacial: habilidade de formar um modelo mental preciso de uma situação espacial e utilizar esse modelo para orientar-se entre objetos ou transformar as característica de um determinado espaço.
Corporal-cinestésica: é o dom que se revela como uma especial habilidade para utilizar o próprio corpo de diversas maneiras.
Pictórica: é a capacidade de reproduzir, pelo desenho, objetos e situações reais ou mentais.
Interpessoal: capacidade de uma pessoa dar-se bem com as demais, compreendendo-as, percebendo suas motivações ou inibições e sabendo como satisfazer suas expectativas emocionais.
Intrapessoal: competência de uma pessoa conhecer-se bem e estar bem consigo mesma, administrando seus sentimentos e emoções a favor de seus projetos. É a característica dos bem resolvidos.Novas estratégias de ensino estimulam a criança a desenvolver habilidades inatas e valorizam as diferenças individuais
A pedagoga Solange Fávaro alega que embora a matemática seja supervalorizada nas escolas, o ensino dessa matéria costuma ser problemático. Daí a proposta de se chegar ao pensamento matemático usando outras habilidadesNesta brincadeira, as crianças aprendem linguística pescando o nome dos amigosNa Atividade Livre, a criança tem 50 minutos para procurar qual atividade desperta mais seu interesse e fazer o que bem entenderFotos: Paulo WolfgangEDUCAÇÃOO teatro de fantoches desperta as inteligências interpessoal, musical e corporal-cinestésica habilidade especial em utilizar o próprio





