Rosângela Vale
Com influências de esportes e da cultura clubber, o paranaense Giuliano Menegazzo criou sua própria linguagem de moda com a marca Slam. Agora, começa a ganhar espaço fora do circuito alternativo
Em uma década em que todos os estilistas buscaram referências no passado, as roupas inspiradas nos esportes representaram o novo para a moda dos anos 90. E se lá fora Prada e Helmut Lang são os mais ilustres representantes do estilo, por aqui um paranaense dá conta do recado. Trabalhando com o náilon de forma inovadora, Giuliano Menegazzo criou sua própria linguagem de moda, e com a Slam arrebatou uma legião de seguidores dentro e fora do circuito clubber.
Influências de modalidades como snowboard, motocross e paraglider estão sempre presentes nas suas coleções, que ganharam repercussão nacional ano passado, quando começaram a ser apresentadas na Semana de Moda. O evento reúne jovens estilistas com talento de sobra para criar mas sem estrutura para a comercialização. ‘‘Uma coisa é fazer a coleção para mostrar no desfile; outra é ter produção para vender’’, explica Giuliano, que não se encaixa nesse grupo. Com uma loja na descolada Galeria Ouro Fino e outra recém-inaugurada no Shopping Morumbi, em São Paulo, ele prova que além de entender de estilo, também tem feeling para negócios.
Recentemente vendeu o nome Slam para um grupo de investidores (vai receber royalties num contrato de quatro anos) e se prepara para ganhar mercado com um projeto inédito, que beneficia também seus colegas de passarela. Reunindo marcas como Caio Gobbi, A Mulher do Padre, Mário Queirós e V-Rom – além dos tênis da moderna grife inglesa Acupuncture – idealizou ‘‘A Loja.com’’, uma espécie de minimercado Mundo Mix dentro de grandes shoppings .
Cidades como Brasília, Salvador e Sorocaba já ganharam franquias. Mês passado foi a vez de Londrina. Em breve, Curitiba também terá a sua. Por que o interior antes da capital? Giuliano tem a resposta na ponta da língua: ‘‘Londrina tem os olhos para São Paulo, é isso que eu acho bacana na cidade, porque dá a ela autonomia e uma certa modernidade’’.
Natural de Apucarana, com um 1 ano de idade ele foi morar em São Paulo, mas voltou ao Paraná para servir o Exército. Acabou ficando em Curitiba, onde começou a trabalhar com acessórios. Logo estava no staff da marca de skate Drop Dead. ‘‘Conversando com o dono, percebi que faltava alguma coisa no mercado, roupas que a gente queria usar e não tinha aqui no Brasil’’, lembra. Era 1995 e nascia a Slam. Saiba mais sobre a grife na entrevista que Giuliano concedeu à Folha da Sexta durante a inauguração de ‘‘A Loja.com’’ em Londrina:
Apesar de nascer em solo paranaense, a Slam estourou mesmo em São Paulo. Por que?
Giuliano – Me separei do antigo sócio para poder me mudar para São Paulo porque eu detestava morar em Curitiba, que é uma cidade super-retrógrada e não aceitava muito bem o que eu fazia. São Paulo me acolheu de braços abertos, as coisas aconteceram. Acho que para fazer alguma coisa nova no Brasil tem que fazer primeiro em São Paulo. Depois, o Brasil te aceita. Foi o que aconteceu. Hoje eu vendo superbem em Curitiba, a marca é bem badalada por lá, mas antes saiu nas revistas, os artistas começaram a usar...
O Mercado Mundo Mix foi o primeiro ponto de venda em São Paulo?
Giuliano – O canal de venda inicial era o Mundo Mix, que era o mercado aberto às pessoas jovens, que ofereciam alguma coisa nova, e realmente no início era muito legal. Todas as pessoas bacanas frequentavam. Hoje se vende muito bem, mas é muito popular, todo mundo vai, antes eram só os bacanas, se é que você me entende.
Você tem formação em moda?
Giuliano – Não. Acho que não faz falta, tanto na moda como na publicidade, vai do seu feeling. Sinto falta de algumas coisas técnicas, sentar e desenhar, porque isso eu não sei fazer direito. Mas hoje eu tenho assessores que fazem isso para mim.
Em entrevista para a Mundo Mix Magazine, você disse que não era estilista, mas coordenador de estilo. Qual a diferença?
Giuliano – Eu quis dizer que eu tinha apenas feeling e bom gosto para fazer coisas bacanas. Tem muita gente que se diz estilista no Brasil e não é. Vai para o exterior e copia tudo.
Quais são os destaques dessa coleção de verão?
Giuliano – Estávamos voltados para o universo do jovem, mostrando-o de uma forma mais cool. A coleção não teve um conceito, mas um material novo: um fio muito fino, que é importado da Coréia e parece um papel, mas é bem mais difícil de rasgar do que um náilon grosso.
Você só trabalha com náilon?
Giuliano – Na próxima coleção de inverno tem outros materiais, como jeans, moletom e algodão encerado.
Quem veste Slam?
Giuliano – No início, era o formador de opinião, o cara antenado, que viajava, que sabia mesmo de moda. Hoje em dia é tão abrangente... do office boy à socialite. Tem pessoas de 40 anos que vestem minha roupa, senhores que entram na loja para comprar tênis.
Você gosta da definição moda alternativa?
Giuliano – Não sei se gosto muito. Parece uma coisa restrita. Moda alternativa, para mim, é uma moda de bom gosto, de estilo, com a sua cara, que você não tenha sido vestido pelo vendedor da loja.
Você tem alguma influência internacional?
Giuliano – O estilista que mais gosto está numa esfera acima do que acontece por aí, que é o Helmut Lang. Ele é a cara dos anos 90, a pessoa que mais influenciou a década.
O que você acha da moda brasileira?
Giuliano – Acho que ainda está engatinhando. O problema é que as grandes marcas não estão muito preocupadas com a moda, mas com ganhar dinheiro. E simplesmente copiam o que acontece lá fora. Acho isso muito chato. Esses jovens estilistas, para mim, é que são a moda brasileira, porque fazem coisas com a cara deles.
As roupas da Slam têm tudo a ver com a cultura clubber. A noite continua influenciando seu trabalho?
Giuliano – Para analisar a cultura jovem você não precisa sair à noite, nem todos os jovens são notívagos. Eu vivia muito na noite, mas acho que meu tempo já passou. Tenho 31 anos de idade, passei 10 anos saindo muito, mas chega uma hora que você tem outras obrigações. Faço academia e se saio à noite no outro dia é difícil. Não deixei de gostar da noite, mas fiz uma opção.

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