Conhecida popularmente como recepcionista, aquela garota que confere a lista de convidados na boate e leva os clientes até as mesas nos restaurantes ganhou um denominação mais moderna: hostess. Em São Paulo, já tem até curso para ensinar os segredos da profissão que, por lá, é bem badalada, além de rentável para quem tem os pré-requisitos exigidos: beleza, simpatia, cordialidade e diplomacia. Mas, afinal, qual é o papel da hostess?
''É fazer o primeiro atendimento, deixar o cliente traquilo para, depois, o garçom atender'', explica Mariana Ricciard, 20 anos, três deles trabalhando como hostess em points descolados da capital paulista: os restaurantes Borracheiro Grill, no Morumbi; Na Mata Café, no Itaim Bibi; e a casa noturna Marcenaria, na Vila Madalena.
Nas boates, a função é mais ampla e, digamos, mais arriscada também . ''Tem que fazer a seleção de vips e não vips, segurar a fila lá fora para mostrar que a casa está cheia e barrar as pessoas alcoolizadas, drogadas e mal vestidas'', conta Mariana, que já levou garrafa de cerveja na cabeça de um sujeito que não gostou de ser barrado. A sua sorte foi ter um ''toldo'' por perto. ''Os seguranças sempre me deram cobertura'', garante. Segundo ela, também é função da hostess de uma casa noturna dar assessoria ao promoter em todas as etapas da festa, do bufê à lista de convidados.
O salário que Mariana recebia compensava os possíveis contratempos. O valor da sua diária variava entre R$ 30,00 e R$ 70,00 e ela trabalhava, em média, cinco horas por dia. Juntando com a remuneração obtida nos trabalhos de modelo, ela pagava suas despesas e o aluguel do apartamento nos Jardins. Os motivos que a levaram a atuar na área, entretanto, foram além do aspecto financeiro.
Egos inflados Como a intenção de Mariana era tentar a carreira de atriz, ser hostess era o meio mais indicado para fazer contatos. ''A noite te coloca na frente de várias produtoras. Ganhei cursos de interpretação, conheci fotógrafos e participei de exposições'', conta ela, que chegou a sair na revista Vip, numa matéria sobre a profissão.
Tanta badalação exige cuidados. ''É preciso ser seletiva. Tem muita coisa negativa que pode te desvirtuar, te tirar do eixo. Alguns clientes acham que você está lá para ser dama de companhia. Para sair da saia-justa e escapar ilesa das cantadas diplomacia é fundamental. ''Não dá para cortar a pessoa, que é cliente da casa, mas tem que saber se impor'', ensina. Lidar com egos inflados também é outra atribuição da função de hostess. Tem gente que se acha dona do mundo e quer sentar naquela mesa que está ocupada. Aí já partem para a grosseria, mandam chamar o patrão'', conta. De novo, diplomacia é a saída.
De volta à Londrina no final do ano passado, Mariana chegou a trabalhar como hostess no restaurante Brickel Key mas, apesar de ter gostado da experiência, acha que os clientes londrinenses ainda não têm a visão correta da profissão. ''Eles preferem o atendimento do maitre. Olham para a gente com certa estranheza'', observa ela, que atualmente está mergulhada em livros: no começo do ano, vai prestar vestibular para jornalismo.
Assédio A ex-modelo Giane El Hauly trabalhou como hostess no tempo em que a profissão só tinha um nome: recepcionista. Ela explica que experiência, postura e desenvoltura são as principais exigências de quem contrata esse tipo de profissional. ''Tem que ser rápida para checar os nomes dos convidados na lista e nunca dizer não, sempre tentar resolver os problemas'', explica.
Gerente de agenciamento da área comercial do Studio Desirée Soares, hoje Giane ensina aos modelos os segredos da atividade, mas já vai avisando: ''É uma área que todo mundo acha bonita, mas é sacrificante. Tem que ficar em pé, com dor nas costas. Muitas vezes, nem dá tempo de ir ao banheiro na hora que dá vontade'', relata. A remuneração, em Londrina, também não é das melhores. De R$ 50,00 a R$ 60,00 por três horas de trabalho. Giane levanta ainda outra questão delicada: o assédio dificulta os relacionamentos pessoais. ''Os caras acham que temos muitos pretendentes; que por sermos tão assediadas acabamos saindo com todo mundo''.
Mas o mercado já começa a fazer as pessoas reverem seus conceitos. A novidade, segundo Giane, é a procura por homens para a função de hostess. ''Estão acontecendo muitos eventos direcionados às mulheres e, nestes casos, opta-se por meninos na recepção'', informa. O modelo e estudante de administração e marketing Emanuel Catori, 21 anos, é um dos que mais atuam na área em Londrina. Os eventos mais comuns, segundo ele, são inaugurações de lojas. Ao contrário de suas colegas, ele garante nunca ter sido cantado. ''As mulheres olham bastante, mas ficam na delas. Já passei meu telefone, mas só profissionalmente. Estar ali é uma vitrine para novos trabalhos'', justifica.
Ética Para a estudante de nutrição Tati Pretel, 22 anos, ser comunicativa é o que mais conta na profissão. Hostess da boate Naip, ela trabalha das 10 da noite até alta madrugada, de quinta a sábado, recebendo os sócios e encaminhando-os aos camarotes. ''No decorrer da noite, fico observando o que acontece na boate e verifico se está faltando alguma coisa aos clientes'', conta. Segundo ela, é normal alguns caras confundirem simpatia com ''dar mole''.
Mas, afinal, num lugar tão predisposto a encontros, nunca rola uma troca de olhares? ''Aí vai da ética profissional. Não está no contrato, mas não vou paquerar lá'', garante. Tati conta que desvencilhar-se de cantadas (com desculpas que ela sempre inventa na hora) não é tão complicado como resistir aos embalos da música. ''O mais difícil, para mim, é não poder dançar'', revela.
Com seis anos de profissão, a hostess Márcia Florio, 35 anos, resume assim a função: ''Nosso trabalho é ser suficientemente observadora para não deixar faltar nada ao cliente, da hora em que ele chega à hora em que vai embora''. Atualmente no restaurante Bella Itália, no Shopping Catuaí, ela trabalha das 10 às 14 horas e das 19 às 23 horas, na maioria das vezes, sem sentar um só minuto. Nas horas de folga, coloca os sacrificados pés para cima. O salário, segundo ela, compensa as agruras da atividade. ''Ganho muito bem, mas tenho muita estrada'', afirma.
Para ela, além da gentileza, da atenção e da simpatia, é preciso conhecer muito bem o cardápio e ter noções gerais sobre o funcionamento de um restaurante para ser considerada uma boa profissional. Márcia acrescenta a esses requisitos um toque pessoal que encanta os clientes. ''Recebo como se estivesse na minha casa; os mais assíduos conheço pelo nome. Gosto de tratar as pessoas com delicadeza, de conversar com a esposa, o pai, o avó. Este envolvimento é gratificante. Adoro o que faço''. n

mockup