Há quem tenha estudado a vida toda em uma única escola. Mantém o contato com os amigos da primeira infância, ainda encontra os professores no supermercado, missa ou shopping e participou de todas as comemorações da turma que pode. Viagens de formatura, festas de encerramento e o álbum de recordações inclui gincanas e até ovadas na porta da escola. Lá estão sempre as mesmas carinhas. Mas para quem vive de modo itinerante, os caminhos são, literalmente diferentes. E o histórico escolar, também.

É o caso de quem trabalha no circo e tem filhos em idade escolar. A cada mudança de município, uma nova escola, novos professores, amigos e - por que não dizer? - estreias. A acolhida tem amparo legal, de acordo com o artigo 29 pela Lei 6.533/78.

Da segunda geração de circenses, a administradora Bety Jardim fala com propriedade do assunto. Casada com o gerente de circo Marcelo Jardim, soma 26 anos nesse universo. As filhas, Rafaela, 24 e Marcela, 20, vivenciaram com a família as tantas mudanças escolares. “No terceiro ano do Ensino Médio, Marcela passou por cinco escolas e, mesmo no Rio de Janeiro, precisou de transferência. Foram experiências positivas, iam bem na escola e, além das amizades, conheceram a história de outras cidades e mostraram um pouco de nossa cultura”, relata.

Jardim explica que por um período fez uma pausa e fixou sede para as filhas. “Sofremos muito com a saudade, mas eu gostaria que elas tivessem opções, que escolhessem entre o circo e a cidade. A Rafaela chegou a cursar dois anos de Economia, depois prestou Educação Física e jogou vôlei até os 18 anos. Paralelamente, trabalhava no setor administrativo do circo e foi nutrindo o gosto pelas oficinas das quais participava. Hoje, ela tem um número exclusivo nas cordas, é trapezista e está na unidade lilás do Circo dos Sonhos” atualmente instalado em Santo André, grande São Paulo”.

No mês de junho, nasce Valentim, filho de Rafa com um também circense. Está programado para ser paulistano, é da quarta geração da família Jardim no circo e possível cidadão do mundo. Já a caçula Marcela, por sua vez, segue na companhia da mãe, que integra a lona branca do grupo circense, instalada em Londrina. “É bailarina e acrobata aérea. Cogitou estudar Arquitetura, mas a paixão pelo circo também falou mais alto”, alegra-se.

O circense Wellington Costa com o filho: só em 2019, Richard, que está no terceiro ano do Ensino Fundamental, já estudou em três escolas
O circense Wellington Costa com o filho: só em 2019, Richard, que está no terceiro ano do Ensino Fundamental, já estudou em três escolas | Foto: Saulo Ohara
Monique e Wellington Costa, pais de Richard: eles nasceram no circo e seguem a tradição familiar
Monique e Wellington Costa, pais de Richard: eles nasceram no circo e seguem a tradição familiar | Foto: Divulgação

Muitos primeiros dias de aula num só ano

“Todo artista tem de ir aonde o povo está.”

O trecho da música “Nos bailes da vida”, de Milton Nascimento, significa missão. Assim o casal de circenses Wellington e Monique Costa segue o legado da família. Ele é palhaço e globista, ela se dedica aos tecidos e acrobacias. Monique conta que foi numa apresentação que os pais dela se conheceram. “Meu pai era trapezista, a mãe da cidade. Namoraram uma semana, e estão casados há 38 anos.”

Monique nasceu no circo, seguiu a tradição familiar e hoje os filhos acompanham sua rotina em tempo integral. Richelly tem 13 anos, cursa o 8º ano do Ensino Fundamental, Richard, oito e está no 3º ano. Concluiu o 1º ano em Curvelo, Minas Gerais, o 2º em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul e o atual ainda está por vir.

Com uma agenda comprometida em levar alegria a diferentes partes de um País de dimensões tão extensas, a família Costa não descuida do empenho que os filhos devem ter com os estudos e a dedicação é encarada com naturalidade. “Estamos na quinta geração e a mudança é normal, essa é a única vida que conhecemos”, afirma. Só no ano de 2019, para se ter uma noção, Richard esteve em três unidades escolares - Blumenau, Balneário Camboriú e Londrina, onde a permanência na escola municipal foi de pouco menos de 30 dias.

Quantas serão até o fim do ano letivo não é possível precisar, tão menos quantas por toda a vida escolar dos estudantes, segundo os pais. “O importante é continuar firme”, pensam.

Para quem ficou imaginando como fica o histórico, é o nome da escola onde foi concluído o ano letivo que consta no documento. “Muitas vezes chegamos e os alunos estão em semana de prova e se há alguma dificuldade na escola, procuramos a secretaria de Educação que nos ampara. Em alguns casos, a temporada é só de duas semanas, mas eles se adaptam”. A acróbata reflete que é complicado medir o rendimento. “Mas felizmente os professores ajudam, as crianças sentam com os coleguinhas novos, a escola empresta livros e a interação é enriquecedora para os dois lados”, afirma.

Acerca da curiosidade em torno dos novos alunos, a mãe das crianças conta que elas são comuns. “As escolas sempre nos consultam se podem apresentar as crianças. A Richelly é mais reservada, já Richard é de boa, gosta de contar tudo, do que servem na merenda e os dois provavelmente vão seguir nossos passos porque já nos imitam, mas os deixamos bem à vontade.”

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