'Omitir não é opção' -

Pais e professores não devem esconder verdade das crianças em casos que envolvam violência na escola


Edson Neves Especial para a Folha
Edson Neves Especial para a Folha

 

Pais e professores não devem esconder verdade das crianças em casos que envolvam violência na escola
Jocimar Barbosa/Impresa do Povo/AFP
 


A infância é um período marcado por diversos questionamentos aos pais. Os “porquês” vindo dos pequenos são constantes, e é necessário que se tenha jeito para respondê-los, principalmente quando o assunto se trata de episódio envolvendo casos de violência, como recentemente o ocorrido em uma creche na cidade catarinense de Saudades (SC), onde um rapaz de 18 anos matou cinco pessoas, sendo três crianças menores de dois anos. Profissionais ouvidos pela FOLHA comentam que caso temas como este venham a ser alvo de perguntas, a verdade não deve ser deixada de lado, por mais que o assunto seja delicado.


Ana Priscilla Christiano, professora do curso de Psicologia na PUC Campus Londrina e doutora em educação na área, diz que é necessário um “filtro” em toda informação a ser passada. “Sem omitir informações, mas também sem dar detalhes que assustem a criança”, indicou. “Não adianta os pais, preocupados, perguntarem se está acontecendo algo na escola. É importante falar também que o que aconteceu por lá foi uma coisa ruim, um crime, e que essas coisas não são crime à toa. A sociedade tem regras, normas a serem seguidas para que a gente não faça algo ruim ao outro”, completou.


Professora da rede municipal há 21 anos e atuando na Gerência de Apoio Especializado da Secretaria Municipal de Educação (SME) de Londrina, Adriana Streppel Silva Fleuringer também reforçou a  importância de evitar esconder os fatos. “Sem a resposta do adulto, a criança passa a fantasiar a situação e pode se angustiar com as hipóteses que constrói, tentando interpretar a realidade e não ficar no desamparo. Algumas crianças farão as mesmas perguntas ou reformuladas por um bom tempo. Pais devem responder de maneira gentil, simples, objetiva e verdadeira, sem levantar informações além do que a criança consegue compreender”, explicou Fleuringer, que também atua como psicóloga e psicanalista.


Essa missão também pode ficar a cargo dos professores. Aline Cristina Fernando da Silva, que dá aula nas escolas municipais Professor José Gasparini e Nara Manella, ambas na zona norte, considera importante explicar levando em consideração a faixa etária do aluno. “Questionar a criança sobre o que ela sabe para conhecer o que está se passando em sua cabeça. É válido falar sobre regras, direitos e deveres, comparando com o que a gente combina e faz na sala de aula, para refletir que devemos respeitar o nosso próximo. Posso explicar que existem adultos que não cumprem as regras de respeitar o outro, assim como às vezes na sala de aula algum colega não respeita o outro também”, disse.


Martinha Claret Dutra, da coordenadoria de mediação e ação intersetorial da SME, afirma que o processo parte da literatura infantil, com meios simbólicos que contribuem para a percepção da criança sobre diferentes temas. “Será sempre necessário ouvi-las e, a partir daí, e de uma contação de histórias, que vão tratar sobre a violência, a morte e o que agride a humanidade, de etapa em etapa, a escola poderá desenvolver atividades de proteção”, contou a professora.


TRAUMA


O neurologista Leonardo Valente Camargo cita que presenciar uma fatalidade como a ocorrida em Santa Catarina, ou de tomar conhecimento dela pelos meios de comunicação são diferentes, mas não menos intensas. A reação certa de pais e responsáveis, segundo ele, é indispensável para não gerar alarme e desconforto além do necessário.


“A criança que presencia algo deste tipo está sujeita a desenvolver ansiedade, depressão, síndrome do pânico, isolamento social, reações agressivas e insônia. Por outro lado, só o fato de tomar conhecimento, os efeitos podem ser similares, incluindo o medo de ir para a escola ou de retomar as atividades, com receio de que isso possa acontecer novamente em outros lugares”, alertou. “O importante é sempre conversar com as crianças e adolescentes. Manter a proximidade e intimidade, para que eles sintam a liberdade de dividir conosco as angústias, medos e inseguranças”, complementou o neurologista.


A SOCIEDADE E O BULLYING


Anna Priscilla Christiano traz uma ótica interessante sobre a situação. Para ela, a postura da sociedade também deve ser levada em conta quando episódios trágicos são registrados. “Não podemos ‘patologizar’ uma explicação focada apenas no sujeito, mas sim parar para pensar em como nossa sociedade é extremamente violenta com o outro. As pessoas vão sendo submetidas a este tipo de violência, e que algumas acabam chegando a estes extremos. Temos uma responsabilidade em conjunto, na forma de trabalhar com as crianças de modo a minimizar discursos de não aceitação do outro, e contribuir para uma melhor formação dessas crianças e adolescentes”, afirmou.


SUGESTÕES DE OBRAS QUE FALAM SOBRE SENTIMENTOS E EMOÇÕES


“Os porquês do coração” (2010) - Conceil Corrêa da Silva e Nelson Ribeiro

“Íris, uma despedida” (2013) - Gudrun Mebs e Beatriz Martín Vidal

“O luto infantil” – Turma do Vilinha (disponível online em www.turmadovilinha.com.br)

“Coleção Sentimentos” (2017) - Fabio Gonçalves Ferreira

“Coleção Sentimentos e emoções” (2019) - James Misse

“O monstro da Cores” (2012) - Anna Llenas

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