Leitura que cabe no bolso
Formatos alternativos e preço único estimulam a leitura em todas as fases da vida
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de setembro de 2019
Formatos alternativos e preço único estimulam a leitura em todas as fases da vida
Walkiria Vieira - Grupo Folha 
O acesso à leitura é determinante. Sem barreiras, a informação para formação ou lazer são como combustíveis e abastecem o cidadão em seu processo constante de conhecimento. Em tempos de recursos escassos, o consumo de livros sofre queda. De acordo com levantamento publicado pela Câmara Brasileira do Livro, o setor editoral brasileiro encolheu 25% entre 2006 e 2018. Ao mesmo tempo, há um movimento no varejo para alterar esse quadro. Além dos consagrados sebos, há lojas que oferecem livros novos a partir de R$5 e têm atraído leitores que fazem da prática, atividade que alia prazer, aprendizado e com uma vantagem: economia. Esses espaços e as pessoas que já viraram seus frequentadores de assíduos mostram que a renovação de títulos é um convite ao retorno.

A maternidade fez Nathalia Andrade, 31 anos, olhar para os livros de outra maneira e a leitura se transformou em um ritual para ela e a filha Lívia, de três anos. "Lemos todos os dias e depois que termino, ela faz a versão dela", relata. Nathalia vê os reflexos positivos na fala, no vocabulário e na interação da filha com o cotidiano. A escola onde estuda também incentiva a atividade. "Toda sexta-feira ela leva um novo livro". Para que o consumo caiba no orçamento, a família está sempre atenta e as lojas que oferecem livros a preços acessíveis são destino frequente. "Lívia já tem uma biblioteca. Às vezes acorda e vai ler por iniciativa própria, considero que as feiras e lojas fixas com essa proposta fazem a diferença mesmo.
Em busca de um presente, a comerciante Solange Santos, 50 anos e seu marido, Marcio Menegueti, 41, observam as ofertas de livros em um dos pisos do Boulevard Londrina Shopping, na loja Book Lovers. Num dos corredores, a livraria sem portas preenche, acolhe e convida. "O Lucas tem 16 anos e nós insistimos para que ele mantenha o hábito de ler, principalmente os livros de papel. "A Arte da Guerra", de Sun Tzu, é uma das sugestões do pai. "Ele prefere ficar no computador, mas temos que valorizar a leitura e investir", diz Marcio.

Títulos ligados a Estratégia e Liderança, entram nas sugestões da família, que aprende em conjunto. "Acho muito barato um livro com esse conteúdo por R$10. É muito acessível e temos que divulgar, acredito que nem todo mundo saiba", reflete. E acrescenta: "Ele pode ler agora e enxergar algo, daqui dois anos fazer uma nova leitura, de acordo com suas novas experiências".
Apaixonada por leitura, Solange concorda com a máxima de que "ninguém “pode banhar-se duas vezes no mesmo rio", do filósofo Heráclito, que remete à ideia de que cada experiência com o mesmo livro ser nova.

Cliente assídua do formato, a estudante Julia Belo, 19 anos, admite: "Devoro livros". O costume foi introduzido pelos pais da estudante por meio de gibis. Diante da diversidade de obras, mostra duas que sempre quis ter e o valor foi fundamental: "Alice no País das Maravilhas" e "Alice Através do Espelho", ambos de Lewis Carroll. "Eu queria ter o livro e saber a história pela visão do Lewis Carroll", argumenta.
Para quem ainda é tímido com a leitura ou não conhece a loja que tem livros a preços baixos, ele dá algumas dicas: "Há vários clássicos como 'O Cortiço', de Aluísio Azevedo e 'Dom Casmurro', de Machado de Assis, em HQ, por exemplo", destaca. "A versão em quadrinhos pode atrair quem tem dificuldade com livros extensos, os balõezinhos e o formato tornam a leitura mais leve, atrativa", sugere.
Julia comenta que ver o pai lendo jornal sempre foi um exemplo para ela. "Eu via e queria muito aprender a ler. Hoje, sei o quanto a leitura me ajudou na formação de repertório para diversos momentos do cotidiano". Sobre o valor das obras, a estudante de Design de Moda reconhece o incentivo: "Eu sei que custa muito mais caro que isso. Tem a arte da capa, impressão, a distribuição, então é importante observar tudo isso. "Livre" da repórter, Julia finaliza suas compras: "Confissões de Adolescente", de Maria Mariana; "A volta ao mundo em 80 dias", de Júlio Verne e "A Ilha do Tesour"o, de Robert Louis Stevenson , seguem com ela para casa.
A atendente Grayce Nayara, 23 anos, revela que muitas pessoas se surpreendem como o valor praticado pela unidade. "Muitas olham a placa, perguntam se são todos os livros são vendidos a R$10 e viram clientes. Um senhor dia desses levou a coleção toda do Monteiro Lobato. Muitos professores fazem compras de livros para completar suas bibliotecas e presentear seus alunos", conta.
Livros infantis, infanto-juvenis e para adultos são oferecidos. "Tem livro em formato de rolo para as crianças, com texturas, e a qualidade das impressões também chama a atenção do público", informa. Presente em vários estados, a loja comercializa livros das editoras Ciranda Cultural e Principis.
Autoatendimento e preço único conquistam
A servidora pública federal e escritora Sibelita Pinheiro, 53 anos, conta que não conhecia uma livraria no Brasil como a que teve a oportunidade de conhecer recentemente no Royal Plaza Shopping. Moradora de Maringá, gostou muito do formato. "Essa autonomia é também um voto de confiança para o consumidor", expõe Sibelita. A livraria de autoatendimento ensina: escolha seus livros; coloque o dinheiro no caixa ou pague na máquina de cartão; coloque seus livros na sacola; boa leitura. Com 25 anos de existência, a Top Livros Peg e Pag comercializa todos os títulos ao preço único de R$10. "Infelizmente brasileiro é apontado pela ideia de vantagem e aqui, além de um lugar bonito, mostra que a Literatura está ao alcance de todos. Espero que a ideia se espalhe - tanto prelo preço como a praticidade e confiança". As escolhas de Sibelita foram "O Discípulo da Madrugada", de padre Fábio de Melo e "História de ciúme patológico: identificação e tratamento", de Geraldo José Ballone. "Esse é para um grande amigo. Vou presenteá-lo." Filha de poeta, Sibelita, publicou seu primeiro livro em 2017. Chama-se "Sobre o Saber e Sede- Contos e Poesias", Ela assina Si Pinheiro e sobre o hábito de leitura, reflete: "As crianças imitam".



