A sala de aula é lugar de aprendizado. Sem aprendiz, o lugar é vazio - e também sem sentido. Com planejamento e otimização, a sala acolhe a diferentes pessoas.

Da Educação Infantil aos idosos, a educação é luz para todos e em Londrina há exemplos do papel transformador que a EJA (Educação para Jovens e Adultos) promove. A meta da Secretaria Municipal de Educação é diminuir o alto índice de analfabetismo em Londrina, oferecendo um ensino de qualidade, que propicie maiores condições de mudança da realidade social.

Antonio Fernando Ferreira, 58 anos, está na EJA  do jardim Mister Thomas desde 2004, para ele a escola também é um lugar afetivo
Antonio Fernando Ferreira, 58 anos, está na EJA do jardim Mister Thomas desde 2004, para ele a escola também é um lugar afetivo | Foto: Walkiria Vieira

Desde 1994, a Escola Municipal Pedro Vergara Correa, na zona leste da cidade, oferece a modalidade de ensino para quem precisa concluir os estudos ou não teve a chance de iniciar. De acordo com a diretora da unidade, Simonia Aparecida de Oliveira, o critério de admissão é simples: "Podem vir todos os que não estão alfabetizados e aqueles com 15 anos que precisam concluir".

A formação é dividia em duas etapas, sendo que na primeira, a dos anos iniciais contempla a 1ª, a 2ª e a 3ª série. "Aqui o público é de pessoas que não tiveram tantas oportunidades, na faixa dos 50 anos", explica. Eles chegam à escola por meio de indicação e especialmente por meio de chamamentos. A escola, ao lado da comunidade, fez um porta a porta em busca de um levantamento de quem não era alfabetizado. "Fomos acompanhados de uma aluna e ele era o nosso testemunho e percebemos que o número de não alfabetizados é grande.


Para a professora regente da turma, Luisa Myuki Yoshikawa, a EJA representa um resgate da cidadania. "Uma verdadeira valorização, pois muitos passaram uma vida inteira sem saber ler e escrever e quando aprendem, sentem que são capazes e independentes".

Além do número de não alfabetizados, o levantamento realizado no bairro trouxe à tona o fato de a mulher, por muito tempo, ser preterida na educação - pelo pai, pelo marido, pelos filhos. E aí entra também um importante papel social da escola de resgate. "É diferente de dar aula para criança - que não tem medo de errar. Já os adultos, que passaram a vida toda sem saber ler e escrever, ficam com autoestima diminuída e isso é bem visível na hora de tomar a leitura deles", diz Yoshikawa.

A professora Luisa Myuki Yoshikawa se dedica há quatro anos à educação de jovens e adultos: o jornal é uma de suas ferramentas em sala de aula
A professora Luisa Myuki Yoshikawa se dedica há quatro anos à educação de jovens e adultos: o jornal é uma de suas ferramentas em sala de aula | Foto: Walkiria Vieira

O jornal em sala de aula

Para contornar essa dificuldade, o planejamento é voltado para os adultos de forma diferenciada. Mestre em Metodologias para o ensino de linguagens e novas tecnologias, Yoshikawa defendeu a dissertação "Gêneros, letramento e cidadania: a produção de um jornal na Educação de Jovens e Adultos" e atua com a produção de jornal escolar desde 2009. No Ensino Médio, no Japão, ela trabalhou em uma escola brasileira para filhos de dekasseguis e em 2011 trabalhou no Ensino Médio, no Colégio Estadual José de Anchieta, em Londrina. "O ensino da Língua Portuguesa deve ser pautado nos diferentes gêneros textuais, orais e escritos. E o jornal oferece uma diversidade de gêneros como a notícia, entrevista, editorial, artigo, carta do leitor, reportagem, entre outros".

Assim, ao utilizar o jornal como ferramenta pedagógica, a professora leva o desenvolvimento da competência linguística por meio de um conjunto de atividades que propiciam a leitura, a produção de texto e a análise linguística. A capa do jornal, a foto, a legenda, o nome, o título, o subtítulo, quanto custa e valor diferenciado no fim de semana, tudo isso passa a ser observado pelos alunos.

Em dezembro, tem formatura

Para ingressar na EJA, os interessados devem se dirigir à escola municipal mais próxima e apresentar o RG e um comprovante de residência. Após a matrícula, é feita uma avaliação diagnóstica para que o aluno seja colocado na turma mais adequada a seu nível de conhecimento. As matrículas na Educação de Jovens e Adultos podem ser realizadas a qualquer momento nas Unidades Escolares.

De acordo com a secretaria, o município tem 36 unidades escolares que oferecem Educação de Jovens e Adultos com cerca de 65 profissionais atuando diretamente com a EJA. Em 2019, são aproximadamente 700 alunos, destes, 15% tem entre 15 a 29 anos de idade, 15% de 30 a 44 anos, 35% de 45 a 59 anos, 30% de 60 a 74 anos e 8% com 75 anos ou mais. Em dezembro, são aproximadamente 80 formandos que concluirão o Ensino Fundamental – Fase I. A cerimônia de formatura acontecerá no dia 11 de dezembro

Mais mulheres do que homens

A aposentada Odete Costa, 64 anos, é natural de Florestópolis. Ela foi a EJA em busca de independência. "Estava me sentindo mal porque queria preparar uma receita e não sabia ler. Queria usar o celular e não conseguia." Assim, em 2017, veio a iniciativa que mudou a vida da aposentada. "Agora já faço receitas e já sei mandar bom dia pra todo mundo no whatsApp". Afiada e letrada, a aluna recorda o dia em que fazia um trabalho em casa e se deu conta que estava lendo naturalmente. "Minha neta falou que eu estava lendo e me senti realizada. Agora sou outra". Para quem ainda tem dúvida se volta ou não para os bancos escolares, Odete convida: "Saber assinar o nome é uma coisa muito importante".

Mãe de quatro filhos, revela uma frustração: "Nunca pude ajudar meus filhos na tarefa de casa". A aposentada conta que até os 13 anos morou em uma fazenda em Salinas/MG. "Meu pai só colocou os filhos homens na escola. Eu casei com 16 anos e meu marido também não permitiu. Dizia que escola não era lugar de mulher casada. Eu via o caderno do meu irmão Alcídio e um dia tentei fazer a letra "o". Me pai viu, quis me bater e isso me bloqueou. Na primeira etapa da EJA, hoje Odete tem até seu cantinho para estudo em casa, fica perto da máquina de costura. "Gosto de estudar concentrada, até parece que não tem ninguém em casa, mas é porque estou estudando. Meu sonho agora aprender a ler a Bíblia".

Maria Aparecida Martins, 80 anos, é a aluna mais velha da sala, ela recebeu em casa um convite para estudar na EJA
Maria Aparecida Martins, 80 anos, é a aluna mais velha da sala, ela recebeu em casa um convite para estudar na EJA | Foto: Walkiria Vieira

Perto de completar 80 anos de idade, Maria Aparecida Martins é a mais velha da sala de aula. Quando chega na escola no jardim Mister Thomas é noite e ela já fez uma porção de tarefas em casa. Cuida da roupa, da louça, da comida e das plantinhas do jardim.

De suas rosas, admiradas por quem passa, fala com muito carinho. Foi por meio do chamamento público que se sentiu motivada a aprender a ler e escrever, ela foi convidada por professores e uma aluna da EJA em sua própria casa. "Vim no dia seguinte. Já sei o alfabeto, conheço as letras e agora só falta juntar". Sem luxos no passado, dona Aparecida conheceu o trabalho na roça muito menina e depois emendou como camareira na cidade. Hoje, o prazer da vida não está só nos filmes que gosta de ver na TV, a escola é lugar de convívio e aprendizado: "Aqui a hora passa rapidinho".

Trabalhador não teve acesso aos estudos

O padeiro aposentado Hélio Borges Batista, 68 anos, também integra a EJA e encara o letramento como um divisor de águas. Assíduo, já viajou até para o exterior e considera que suas perspectivas foram outras, após iniciar os estudos. "Eu não tive oportunidade mesmo. Nasci na Bahia e embora o pai matriculasse a gente na escola, a gente tinha que ir para a colheita. Ia dois meses e interrompia e não concluí nada".

A formação como padeiro foi totalmente prática, mas Batista chegou a perder oportunidades porque não sabia ler. "Eles me deram a vaga, mas eu não consegui continuar porque não era tudo que sabia de cabeça. Na hora que tinha que ler a receita, simplesmente não conseguia." Sem uma falta na caderneta da escola e empenhado, Batista conta que até os esquecimentos que antes o incomodavam, passaram. "É uma satisfação ir nos lugares, poder ler o cardápio, entender o que está escrito nos outdoors e reconhecer o nome das ruas".

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