Mais do que ensinar um aluno a realizar operações matemáticas, ser hábil em concordância verbal ou ter notas altas, a escola reconhece que seu papel na formação vai além. Passam por seu Projeto Político-Pedagógico (PPP) conteúdos que abrangem a formação humana e de cidadania.

A vice-diretora da Escola Municipal Francisco Pereira de Almeida Júnior, Silvia Jorge, com Helena Soares Gubbo e Rosicler Mota junto com as netas Maria Clara e Heloísa: escola estimula a convivência das crianças com os avós em atividades conjuntas
A vice-diretora da Escola Municipal Francisco Pereira de Almeida Júnior, Silvia Jorge, com Helena Soares Gubbo e Rosicler Mota junto com as netas Maria Clara e Heloísa: escola estimula a convivência das crianças com os avós em atividades conjuntas | Foto: Saulo Ohara

Por meio de práticas diárias, a diretora da escola municipal Francisco Pereira de Almeida Júnior, Ivete Pimentel, explica que esse compromisso está presente em diferentes disciplinas e atividades. “A primeira sociedade com a qual a criança tem contato é a escola. É onde ela fica sozinha, forma um núcleo social e passa a se relacionar. Por isso, trabalhamos a relação do cidadão com o meio onde ele vive e estamos atentos ao que está acontecendo com esse aluno, no mundo e suas transformações. Assim, um fato no cotidiano que ganha repercussão é conversado e leva à reflexão”, explica.

Com 616 alunos matriculados do pré 4 ao 5º ano - o Chiquinho, como é carinhosamente chamado pela comunidade - é um local onde alunos e corpo docente têm bons exemplos de atuação na formação de cidadãos. A escola fica na região leste de Londrina e existe entre todos um sentimento de cuidado e pertencimento ao espaço. Em uma gincana com a participação dos avós dos alunos, por exemplo, o respeito ao idoso e o reconhecimento de suas limitações, bem como ao saber que acumulam, podem ser observados. “Eles trabalham em sala o passado, como era Londrina e, mais do que isso, o respeito à história dos mais velhos, como era o bairro, as brincadeiras e também reconhecem as dificuldades dos mais velhos, se colocam no lugar do outro, ao mesmo tempo em que os avós reforçam o sentimento de que os netos gostam do aconchego”, diz.

O calendário da unidade contempla ainda a Festa da Família, realizada em agosto. A presença das famílias e o prestígio de moradores do bairro fazem os alunos se sentirem contemplados naquele que é seu ambiente. “É uma tradição e a presença da família na escola é essencial”, reforça Pimentel. O uso compartilhado da quadra de esportes da escola é iniciativa que também merece destaque nesse espírito de boa convivência entre a vizinhança. “Os ex-alunos são bem-vindos, usam a quadra e para isso se organizaram, cuidam, sabem as regras, horários, e tivemos com isso, além de podermos oferecer um lugar seguro para a prática de esportes aos adolescentes, uma redução de 99% nos episódios de vandalismo”, relata a diretora.

Terceira geração de voluntários

Foi em um grupo de orações que a professora aposentada Dolores Maria Figueira Rossi soube que uma voluntária estava doente e o grupo por ela assistido ficaria sem a festa de Natal. Seu gesto de doação já dura 26 anos de dedicação ao Nuselon - Núcleo Social Evangélico de Londrina - e nesse período ela contagiou amigos e familiares, a ponto de seus filhos terem se tornado voluntários. Hoje, até os cinco netos, com idades de três a 10 anos, fazem parte das missões as quais ela se dedica. “O espírito de partilha herdei de meus pais e, naturalmente, os meus filhos participaram do que eu e meu marido abraçávamos”.

Com gestos simples, a aposentada sente que seus filhos, hoje com 43, 41 e 39 anos foram preparados para a vida, para aceitar o outro e a reconhecer o valor das pessoas. E para isso, Rossi soube dizer não. Não se desfazer do outro, não ter preconceito, não agir de modo desrespeitoso e fazer algo para ajudar as pessoas a viverem melhor foram exemplos que os Rossi deram aos seus descendentes.

Graças a ação de voluntários, abrigo com crianças e adolescentes tem opções de lazer que incluem brincadeiras e passeios
Graças a ação de voluntários, abrigo com crianças e adolescentes tem opções de lazer que incluem brincadeiras e passeios | Foto: Gina Mardones

Avessa à publicidade das boas ações, a matriarca se sente feliz pelo que faz e com todos que entram na corrente com ela. “Poder ajudar me dá um sentimento de gratidão a Deus. O que nós voluntários fazemos é muito pouco em relação aos educadores, assistentes sociais e profissionais comprometidos com crianças e adolescentes assistidos pelo Nuselon. No momento em que estamos trabalhando na organização há dificuldades, mas o brilho nos olhos da crianças me dá a sensação de dever cumprido. Parece até que vou levitar, é uma alegria muito grande.” Sua felicidade se multiplica também quando a voluntária sabe que, além de visitar a Exposição Agropecuária da cidade, as crianças do Nuselon comeram a pipoca que viram, utilizaram os brinquedos e se divertiram no parque como toda criança merece. Com a alegria do outro, ela se completa para que o mundo seja melhor.

Viagens: passaportes para a cidadania

Para a advogada Érika Fernanda Ramos Haussler, o respeito nasceu de outra experiência. Foi por meio de programas de intercâmbio com acampamentos em outros países que encontrou uma maneira de promover amadurecimento a seus filhos, atualmente com 19, 15 e 13 anos de idade.

Ao se identificar com o CISV - Children's International Summer Villages - organização internacional independente, voluntária, apartidária e não-religiosa que promove educação para a paz e amizade intercultural, Haussler permitiu que os filhos tivessem, além do contato com outras culturas, a ressignificação do respeito e tolerância às adversidades. “Você só desenvolve isso quando conhece, quando se aprofunda em uma cultura e as viagens não possuem cunho de turismo nem de consumo. Todas as atividades são desenvolvidas dentro do universo do outro – o que pensam, o que comem, de que brincam. Se os meninos de um país usam saia, é preciso entender que existe uma cultura para isso e não há motivo para tirar sarro”.

Haussler se sente gratificada. “Percebo que são crianças mais tolerantes, cidadãos mais solidários e em relação a isso não tenho dúvidas de como essa troca de experiências influenciou na formação deles, somando-se a tudo o que praticamos em nosso dia a dia. Como pessoas, amadureceram, criaram empatia, engajamento e não fazem pré-julgamentos”, acrescenta.

Desse modo, Haussler se sente em dia também com a sociedade. “Vejo como um investimento, uma forma de prepará-los para viver sem conflitos sociais, pois eu e meu marido nos preocupamos, é claro, com as viagens, mas é um preparo para que saibam enfrentar desafios e a se relacionar melhor com o mundo.”

mockup