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Londrina

Folha Cidadania 5m de leitura Atualizado em 29/10/2021, 08:08

Deficit da Educação durante a pandemia precisa ser revertido

Com disparidades econômicas e de acesso à tecnologia, muitos alunos, sobretudo das escolas públicas, sofreram um retrocesso na aprendizagem durante a pandemia; secretário da Educação do Paraná fala sobre o assunto à Folha Cidadania

PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de outubro de 2021

Walkiria Vieira - Grupo Folha
AUTOR autor do artigo

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Desde a Educação Infantil, Ana é matriculada em uma escola particular que durante a pandemia desenvolveu uma plataforma específica para dar suporte aos seus alunos estudarem em casa com aulas ao vivo, com espaço para interação e gravações para rever as aulas e enviar as as tarefas. Ela está no 3º ano do Ensino Fundamental e em sua casa a internet é ilimitada, seus  pais possuem flexibilidade no trabalho para acompanhar os estudos da filha. Já Bruno vive na  área rural de um distrito, não tem conexão com a internet, seus pais trabalham o dia todo e uma vez por semana sua mãe faz a retirada do material impresso na escola e deixa as atividades. Ou a escola faz o leva-e-traz. Os nomes são fictícios, mas durante a pandemia, essas as diferenças eram reais e se acentuaram. 

Segundo os dados apresentados, nos últimos anos, o Brasil vinha avançando, lentamente, no acesso de crianças e adolescentes à escola. Com a pandemia da Covid-19, no entanto, o País corre o risco de regredir duas décadas
Segundo os dados apresentados, nos últimos anos, o Brasil vinha avançando, lentamente, no acesso de crianças e adolescentes à escola. Com a pandemia da Covid-19, no entanto, o País corre o risco de regredir duas décadas |  Foto: iStock
 

Os reflexos da pandemia na Educação são tema de estudo, pesquisa, planejamento e revisão sobre a forma de ensinar, sobretudo em relação aos conteúdos ofertados durante a pandemia em todas as faixas etárias. Os olhos se atentam mais para alunos em fase de alfabetização e aos menos favorecidos - seja pela tecnologia, pelas realidades regionais e as peculiaridades familiares. 

Mais do que obter boas notas, ser aprovado bimestre a bimestre ou passar de ano, da altura de sua missão, um educador sabe que o que mais importa é a formação plena, a transmissão do conhecimento e a compreensão por parte do aluno. Esse alinhamento é fundamental porque lá na frente, a conta chega, cada um sabe o quanto aprendeu e as diferenças econômicas e sociais gritam, fazendo eco nas classes menos favorecidas, cada vez mais diminuídas em suas oportunidades por razões tão óbvias como frequentemente ignoradas: a base educacional e as desigualdades mascaradas por políticas públicas que nem sempre são respeitadas e descontinuadas de uma gestão governamental para outra. 

BRASIL PODE REGREDIR DUAS DÉCADAS

De acordo o estudo “Cenário da Exclusão Escolar no Brasil – um alerta sobre os impactos da pandemia da Covid-19 na Educação”, publicado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) , em parceria com o Cenpec Educação -  crianças de 6 a 10 anos são as mais afetadas pela exclusão escolar na pandemia. O estudo traz um panorama da exclusão escolar antes e durante a pandemia, e mostra o acesso de meninas e meninos à educação.

Segundo os dados apresentados, nos últimos anos, o Brasil vinha avançando, lentamente, no acesso de crianças e adolescentes à escola. Com a pandemia da Covid-19, no entanto, o País corre o risco de regredir duas décadas. Em novembro de 2020, mais de 5 milhões de meninas e meninos não tiveram acesso à educação no Brasil – número semelhante ao que o País tinha no início dos anos 2000. Desses, mais de 40% eram crianças de 6 a 10 anos de idade, etapa em que a escolarização estava praticamente universalizada antes da Covid-19. É o que relevam as pesquisas.

Com escolas fechadas por causa da pandemia, em novembro de 2020, quase 1,5 milhão de crianças e adolescentes de 6 a 17 anos não frequentavam a escola (remota ou presencialmente). A eles, somam-se outros 3,7 milhões que estavam matriculados, mas não tiveram acesso a atividades escolares e não conseguiram se manter aprendendo em casa. No total, 5,1 milhões tiveram seu direito à educação negado em novembro de 2020.

As desigualdades, no entanto, permaneciam. Em 2019, havia quase 1,1 milhão de crianças e adolescentes em idade escolar obrigatória fora da escola no Brasil. A maioria deles, crianças de 4 e 5 anos (384 mil) e adolescentes de 15 a 17 anos (629 mil). Na faixa etária de 6 a 14 anos, eram 82 mil. A exclusão escolar afetava principalmente quem já vivia em situação mais vulnerável. Os maiores percentuais de exclusão de crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estavam nas regiões Norte (4,3%) e Centro-Oeste (3,5%), seguidas por Nordeste e Sul (2,7%) e Sudeste (2,1%). Os meninos eram maioria entre quem estava fora da escola nas faixas etárias mais novas. 

RECUPERAÇÃO É TAREFA ÁRDUA

Em reportagem publicada na Folha de Londrina em 11/10 pelo jornalista Lucas Catanho, especialistas em educação apontam que recuperar o deficit motivado pela pandemia será uma tarefa árdua, com projeção de que o trabalho possa durar pelo menos dois anos. O coordenador de políticas educacionais do Movimento Todos pela Educação, Ivan Gontijo, também calcula que os impactos na educação em decorrência da pandemia não devem ser resolvidos em um curto período de tempo. “Será um trabalho de 2, 3 anos”, projeta. 

 Relatório da OCDE (Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico) divulgado em setembro mostrou que foram 178 dias sem aulas presenciais na pré-escola e nos anos iniciais do ensino fundamental no ano passado, o triplo de tempo na comparação com a média dos países mais ricos. Gontijo acrescenta que a recuperação da aprendizagem pode ser eficaz por meio de várias ações adotadas. “Programas de reforço e recuperação, a permanência dos alunos por mais tempo na escola, a divisão dos estudantes em salas menores para que aprendam mais. Os professores, por sua vez, precisam de melhores condições de trabalho porque são eles que vão resolver o problema”, lista. 

Em entrevista à Folha de Londrina, o secretário de Educação do Estado, Renato Feder, expõe o resultado da Prova Paraná, que avalia os índices aproveitamento dos estudos, os reflexos da pandemia e os esforços para o futuro da Educação no Estado. 

Renato Feder, Secretário de Educação do Paraná: "Os gestores e professores podem identificar as dificuldades e os conhecimentos adquiridos por cada turma, sendo capazes de criar estratégias pedagógicas conforme as necessidades específicas de cada grupo de alunos"
Renato Feder, Secretário de Educação do Paraná: "Os gestores e professores podem identificar as dificuldades e os conhecimentos adquiridos por cada turma, sendo capazes de criar estratégias pedagógicas conforme as necessidades específicas de cada grupo de alunos" |  Foto: Anderson Pedroso/ Divulgação
 

Para que serve exatamente a Prova Paraná?

A Prova Paraná é um importante instrumento de avaliação que contribui para definição de ações para a melhoria da aprendizagem dos estudantes. Este ano, na prova recém aplicada, tivemos a participação de 775 mil estudantes. A prova permite que a rede, os gestores e os professores identifiquem as dificuldades que precisam ser superadas e se as expectativas de aprendizagem foram alcançadas. Dessa forma, gestores e professores podem planejar ações imediatas necessárias para alcançar os objetivos de aprendizagem previstos para cada etapa de ensino.

Em que medida o senhor estima que a pandemia afetou a absorção de conhecimento pelos alunos paranaenses?

Mesmo garantindo o acesso dos estudantes a diferentes formatos de ensino remoto (desde conteúdo online e impresso até aulas remotas ao vivo via Google Meet), acreditamos que o ensino presencial seja fundamental para assegurar o melhor desempenho e aprendizado dos estudantes. A Prova Paraná também é importante nesse sentido: colaborando para identificar os prejuízos pedagógicos ocasionados pela suspensão das aulas presenciais e auxiliando na definição de ações de melhoria no percurso formativo dos estudantes.

Pesquisas indicam que os que mais sofreram foram os alunos pobres e de escolas públicas. O que o estado pode fazer para minimizar este impacto?

Durante a pandemia, a Seed-PR assegurou que todos os estudantes tivessem acesso a no mínimo uma modalidade de ensino remoto: kit pedagógico impresso, Aula Paraná (conteúdos no YouTube, site, aplicativo e TV aberta) e/ou aulas remotas ao vivo via Google Meet. Agora, com o retorno presencial, a rede incentiva a formação contínua de professores (por meio de programas como o Formadores em Ação, por exemplo), para que possam aperfeiçoar seus métodos em sala de aula. A Seed-PR também oferta o programa Mais Aprendizagem, que funciona como um reforço para os estudantes, com foco nas áreas de leitura, interpretação de textos, escrita e resolução de problemas.

Qual é o projeto do Estado para reverter o deficit de aprendizagem se os resultados forem muito baixos?

As escolas têm acesso a dados relativos ao desempenho de seus próprios estudantes. Assim, os gestores e professores podem identificar as dificuldades e os conhecimentos adquiridos por cada turma, sendo capazes de criar estratégias pedagógicas conforme as necessidades específicas de cada grupo de alunos.

A tecnologia continuará presente nas salas de aulas para auxiliar no ensino-aprendizagem? Ela foi muito usada na pandemia e com muita dificuldade. Como fica este acesso agora?  

Toda a tecnologia implementada nas salas de aula em 2020 e 2021 permanecerá nas escolas, auxiliando professores e estudantes no processo de ensino-aprendizagem. Alguns dos programas lançados recentemente pela Seed-PR são o Redação Paraná (plataforma que usa inteligência artificial para corrigir textos), o EduTech (cursos de programação) e o Inglês Paraná (plataforma digital de ensino de inglês), que promovem o uso da tecnologia no meio educacional e que continuarão sendo ofertados. Além disso, o Aula Paraná (sistema de ensino remoto que abrange site, aplicativo e canal de YouTube) também permanece à disposição dos estudantes.

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