Cozinha para aprender e gostar
CMEIs apostam em cozinhas experimentais como instrumentos de aprendizado global e incentivo à alimentação saudável
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de junho de 2019
CMEIs apostam em cozinhas experimentais como instrumentos de aprendizado global e incentivo à alimentação saudável
Micaela Orikasa Reportagem Local 

Eles estão descobrindo gostos, texturas, aromas e sabores. Enquanto algumas crianças são mais abertas a experimentar os alimentos, outras ainda fazem careta. A construção do paladar a partir dos seis meses de vida é um processo individual, que passa por diversas fases, mas que tem uma receita infalível: os acessos e exemplos dentro e fora de casa.
Os primeiros alimentos que a criança vai conhecendo na chamada introdução alimentar, são fundamentais na construção do paladar e também na memória alimentar. Dessa forma, algumas escolas estão apostando em projetos de cozinha experimental, como nos CMEIs (Centros Municipais de Educação Infantil) Malvina Poppi Pedrialli (zona leste) e Valéria Veronezzi (centro), em Londrina.
“Boa parte dos alunos ficam praticamente dez horas na escola e fazem as refeições aqui. A escola sempre está focada na alfabetização, mas temos que lembrar que o alfabetizar tem um sentido amplo, ou seja, envolve também o olhar, o paladar, o corpo todo”, comenta a professora Carolina Matos, do CMEI Valéria Veronezzi.
Ela trabalha junto com a professora Juliana Zeferino, em uma turma de 20 alunos, com idade entre três e quatro anos, e conta que a maior parte das crianças apresentavam muita dificuldade de alimentação. “Muitos deixavam o prato de comida (da merenda) praticamente inteiro e isso nos preocupava muito, justamente pelo tempo que passam na escola”, diz.
Para a professora, estava claro que era preciso levar os alunos a descobrirem o paladar e a maneira que ela encontrou para isso foi envolvê-los nas atividades culinárias, começando por uma receita que eles conhecem muito bem: o bolo de chocolate.
“Foi uma maneira de ganhar a atenção deles. A partir daí, a cozinha passou a ser um ambiente conhecido, com valorização afetiva e dessa forma, conseguimos desenvolver várias atividades como a vinda de uma nutricionista para falar sobre alimentação e até envolver mais os pais”, afirma.

Na visita da nutricionista, as crianças aprenderam a preparar o “macarrão dos heróis”. “É porque deixa a gente que nem o Hulk”, adiantou a pequena Luiza Rodrigues F. de Souza, de 4 anos, se referindo ao personagem musculoso de cor verde. “É colorido”, gritou Lucas Guilherme Fortunato, 4.
As cores do tal macarrão “dos heróis” é porque a abobrinha e a cenoura fazem o papel da massa, acompanhadas de molho de tomate. “Nosso combinado é que tem que sempre experimentar”, acrescenta Matos.
Thiago Emanuel L. Mendes, 4, comeu tudo, assim como o Lucas e por isso, a dupla foi escolhida para ajudar a professora na limpeza dos pratos. “Eles querem participar de tudo”, diz a professora.
A diretora Patrícia Molena ressalta que as atividades desenvolvidas no projeto também contribuem na aceitação da merenda em geral, porque a relação com a alimentação muda, “pois eles estão participando e entendendo os processos e veem os amiguinhos experimentando”.
A cozinha experimental do CMEI Valéria Veronezzi foi inaugurada em maio deste ano, com recursos do PDDE (Programa Dinheiro Direto na Escola), do governo federal, e contrapartida da APF (Associação de Pais e Funcionários) junto com o Conselho Escolar.
Para a compra dos ingredientes, os professores pedem uma contribuição dos pais e para a aquisição dos utensílios, foi feito um “chá de cozinha” com toda a comunidade escolar.
“A cozinha é um laboratório, onde é possível trabalhar tudo. Desde a questão social, como por exemplo, a fome, o desperdício dos alimentos, a interação da turma, até as medidas em matemática ou a história partindo de uma pesquisa sobre o macarrão. É um trabalho para além dos sabores. É a transformação da matéria. Um espaço de aprendizado real”, ressalta Matos.
Experiência culinária
Para o segundo semestre, o CMEI espera levar outros profissionais e familiares de alunos que possam agregar o projeto por meio de suas experiências culinárias.
Isabella de Souza Maia, que é mãe da aluna Ísis, de 4 anos, já deu sua 'contribuição'.
Ela levou todo seu conhecimento sobre a culinária paraense ao preparar um vatapá. Mãe e filha se mudaram para Londrina há nove meses. “No lugar do camarão, usamos o frango e para minha surpresa, todo mundo quis provar. Acho que eles gostaram de ter uma pessoa de fora conversando, cozinhando e brincando com eles”, diz.

No CMEI Malvina Poppi Pedrialli, o projeto Culinária também já contou com a participação de familiares de alunos. Um deles foi o avô da aluna Helena Almeida Szlachta, 3. Ele é apicultor e foi bater um papo com as crianças, no período em que aprendiam sobre a vida das abelhas. A turma acompanhou o preparo e degustou waffles com mel.
“A cada 15 dias temos uma prática culinária, partindo do tema que estamos estudando. Neste momento, falamos sobre as frutas. Os alunos nos ajudaram a cuidar das mudas de pitanga, amora e acerola, cultivadas na horta aqui da escola e também preparamos sucos”, comenta a professora Amanda de Fáveri Pitz.
Ela é responsável por 20 alunos, de três e quatro anos, ao lado da professora Elisângela Nani. Durante o preparo da bebida, as professoras estimulam os alunos a fazerem a contagem dos ingredientes, apresentam suas propriedades nutricionais e todos são convidados a participar e a provar.
Quando apresentam a acerola, o pequeno Gabriel Reis Belli Loureiro, 4, logo responde que a fruta é rica “em vitamina C”. E o que isso significa? “Evita gripe”, diz a pequena Luiza.
Segundo Pitz, o resultado dessas atividades é compartilhado pelos pais de alunos. “Eles nos contam que as crianças passaram a ter mais interesse em descobrir as frutas quando vão no mercado ou na feira, por exemplo”.
A diretora do CMEI, Celiana Pedroso, pontua que a alimentação (merenda escolar) é bem aceita na escola. “Muitos dos nossos alunos estão aqui desde o berçário e a escola teve um grande incentivo nisso. E tem a questão do coletivo também. Um pode até não gostar ou não querer provar, mas ao ver o amiguinho comendo acaba mudando de ideia”, ressalta.
A cozinha do projeto é móvel e os utensílios como forno, fogão, liquidificador, entre outros, foram adquiridos com recursos do PDDE. A compra dos ingredientes utilizados são feitas com ajuda a APF. As aulas de culinária foram integradas no projeto político pedagógico da creche desde o final de 2018.


