A biblioteca, lugar onde se dispõe livros de modo organizado, não possui sentido se não contar com quem os manuseie, se aproprie do seu espaço e do conhecimento, fazendo das obras ali dispostas meios de informação. Ou seja, os leitores devem ser tratados como protagonistas e, tendo isso em vista, profissionais das áreas de Educação, Biblioteconomia e Arquitetura se uniram para tratar das bibliotecas públicas e de sua importância para a formação.

Publicada recententemente, a obra digital “Biblioteca Escolar e a Extensão Universitária”, organizada por Rovilson José da Silva, é dedicada aos professores, pedagogos e gestores do IEEL - Instituto de Educação Estadual de Londrina - pelo compromisso com a Educação.

A publicação é da ABECIN - Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação - entidade constituída com a finalidade de assegurar o debate sobre a formação de pessoas comprometidas com a manutenção e a ampliação de um corpo profissional atuante nos campos das práticas da Ciência da Informação.

Ao todo, formam sete anos de trabalho, iniciado em 2012, e o Projeto de Extensão da Universidade Estadual de Londrina (UEL), por meio de uma pesquisa preliminar, levantou aspectos da situação da Biblioteca Escolar do IEEL e suas implicações na vida das pessoas que convivem na instituição. “Verificou-se a necessidade de promover um trabalho de intervenção para contribuir na reconceitualização da biblioteca”, explica Silva.

Todo o trabalho de análise, reconhecimento e projeto de readequação foi feito em equipe que contou com Ana Carolina Saraiva Zamatara, Giovana Luppi Pezarini Ribeiro, graduandas em Arquitetura na época, Rovilson José da Silva, pós-doutor em Ciência da Informação, e Teba Silva Yllana, Doutora pela FAU/UFRJ, arquiteta e, entre outras coisas, colaboradora do projeto de extensão “Formação do Mediador de Leitura” da rede pública de educação, entre outras pessoas.

A realização de um projeto de readequação para a biblioteca exigiu conhecimento específico para atingir o melhor resultado possível. Por exemplo, quando se aborda a estrutura física da biblioteca, o documento elaborado pelo Grupo de Estudos em Biblioteca Escolar (GEBE), destaca que o planejamento do espaço da biblioteca deve ser feito em função do acervo e do uso que se pretende fazer dele. De acordo com a pesquisa, a biblioteca do IEEL, que atende uma faixa etária muito variada, merece, além do local de acomodação do acervo e o balção de atendimento, disponibilizar baias para estudo individual, mas também salas para estudo em grupo. “Ela foi sempre precária e as reclamações citavam até goteiras e vazamentos no teto”, conforme uma das citações.

Os pesquisadores descobriram, ao ouvir os anseios e sugestões de melhorias, que a biblioteca ainda não ocupou seu verdadeiro espaço de rede nas relações. “É possível perceber que muito além das rachaduras na estrutura física (nas paredes), há rachaduras pedagógicas, latentes no espaço da biblioteca”, destaca Silva, reconhecido também pelo prêmio Viva Leitura 2008, do Ministério da Educação, entre 2 mil inscritos.

Para que a biblioteca exista, como espaço de mediações num processo de rede de relações, é preciso que toda a comunidade escolar se una na busca de um objetivo comum, de transformar a biblioteca num espaço eficiente de diálogo entre materiais de leitura e leitor, sempre mediado por um bibliotecário ou atendente de biblioteca mediador de leitura. “É preciso dialogar com a comunidade escolar e envolvê-la na luta por uma efetiva mudança na biblioteca. A leitura amplia horizontes”, defende.

Rede

A proposição de uma ação conjunta com pais/ responsáveis, profissionais da educação, equipe de gestão, equipe pedagógica, professores, bibliotecários e alunos é essencial para que todos possam se construir como membros de uma rede de relações e terem a sensação de pertencimento nesse processo. A proposta vai além da mudança na estrutura física. Há um aspecto mais profundo, vinculado à influência que a estrutura escolar possui na vida do estudante.

Acreditar no potencial dos alunos e incentivá-los a serem indivíduos capacitados intelectualmente é um dos papéis fundamentais exercidos pelos educadores, segundo a pesquisa. “Nesse contexto, a leitura é indispensável para formação de ideias e opiniões, pois torna os alunos mais críticos e proporciona-lhes um olhar mais amplo em relação ao mundo. As metodologias de ensino utilizadas na biblioteca escolar refletem a maneira como a leitura é ensinada para os alunos. Seja no Brasil ou na França, a biblioteca está atrelada ao papel de formação do cidadão”, reflete Silva. As políticas públicas se transformaram basicamente em distribuir livros, mas a Lei nº 12.244/2010, vai além”.

A Lei da Universalização das Bibliotecas Escolares, determina que todas as instituições de ensino do País, públicas e privadas, deverão desenvolver esforços progressivos para constituírem bibliotecas com acervo mínimo de um título para cada aluno matriculado - ampliando este acervo conforme sua realidade, bem como divulgar orientações de guarda, preservação, organização e funcionamento das bibliotecas escolares. A efetivação das bibliotecas deverá ocorrer no prazo máximo de dez anos, ou seja, até 25 de maio de 2020. “Vence no ano que vem, mas não vemos um trabalho em prol disso”, lamenta Silva.

Ao todo, 16 autores assinam a obra, entre arquitetos, educadores e bibliotecários. Conheça todo o conteúdo do ebook “Biblioteca Escolar e a Extensão Universitária” pelo link: http://www.abecin.org.br/e-books/

Rovilson José da Silva no IEEL: “É preciso dialogar com a comunidade escolar e envolvê-la na luta por uma efetiva mudança na biblioteca”
Rovilson José da Silva no IEEL: “É preciso dialogar com a comunidade escolar e envolvê-la na luta por uma efetiva mudança na biblioteca” | Foto: Marcos Zanutto

Biblioteca: espaço de reflexão e formação

A Bibliotecária e Diretora do Sistema de Bibliotecas da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), Leda Maria Araújo, considera que a valorização das bibliotecas tem impacto fundamental para a sociedade. “A biblioteca pública que é valorizada pelos respectivos secretários de cultura e gestores, recebem investimento em sua estrutura, funcionamento e serviços. Desta forma é possível estruturar programas e projetos de extensão cultural e literária, e de informação utilitária ao público. Dentre as diversas funções de uma biblioteca pública está a informacional, educacional, cultural e social. O Manifesto da UNESCO é claro quando afirma que 'A biblioteca pública é o centro local de informação, de interação, de debates, de manifestações culturais e artísticas”.

De acordo com Araújo, uma biblioteca valorizada, é aquela que forma e transforma o cidadão e a sociedade, é aquela que atua como veículo para o exercício pleno da cidadania, é aquela que possui um acervo amplo, diversificado e atualizado, que disponibiliza informações utilitárias, técnicas, cientificas e aquelas que são socialmente procuradas.

A diretora reconhece ainda o quanto uma biblioteca pode influenciar na formação de uma criança e adolescente. “Oferecendo livros diversificados e de qualidade, realizando programas, projetos e ações culturais e literárias, que propiciem o acesso a informação, ao conhecimento e aos bens culturais. Pode ser uma contação de histórias, um debate sobre um tema atual, a realização de uma exposição fotográfica a respeito da história de Londrina, ou uma exposição de pintura sobre a imigração japonesa ou italiana, entre outras” - dá exemplos.

Doutoranda em Ciência da Informação pela Unesp, a diretora conclui que estudos como o do projeto da UEL tem papel fundamental na Educação. “É um trabalho fantástico e tem papel fundamental para a Educação, para a Cultura e para o desenvolvimento de uma sociedade. Pesquisadores como Rovilson Silva acreditam na importância das bibliotecas para construção da cidadania. Toda sua trajetória profissional e acadêmica foi embasada nas bibliotecas, nos livros, da leitura e da literatura. A contemporaneidade necessita de mais Rovilsons por aí, meu respeito e admiração por este amigo das bibliotecas”, conclui.

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