Brinquedos que despertam a criatividade
Exposição “Brinquedos do Brasil: Invenções de Muitas Mãos”, no Sesc Londrina Centro, convida ao universo do brinquedo artesanal brasileiro
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de junho de 2019
Exposição “Brinquedos do Brasil: Invenções de Muitas Mãos”, no Sesc Londrina Centro, convida ao universo do brinquedo artesanal brasileiro
Marian Trigueiros - Grupo Folha 
Quando fala-se da importância do brincar no desenvolvimento cognitivo, intelectual e afetivo das crianças, ainda surgem muitas dúvidas, principalmente dos pais e educadores. Não é de hoje, portanto, que profissionais de diversas áreas têm se dedicado ao assunto com muitas pesquisas e experiências. E se a escola é lugar de aprofundamento do aprendizado e da cultura, um movimento que vem ganhando destaque é o de ampliar as oportunidades de brincar com brinquedos de todo país, levando em consideração a diversidade de materiais, texturas e cores. Neste sentido, o Sesc Londrina Centro faz um convite ao brincar, às memórias de infância e ao universo do brinquedo artesanal brasileiro com a exposição “Brinquedos do Brasil: Invenções de Muitas Mãos” que segue até o dia 6 de julho na sede da instituição.
Para o lançamento da exposição será realizada a palestra “Dar brinquedos às crianças ou incentivá-las a criá-los?”, nesta quarta-feira (5), das 8 às 12h, conduzida pela psicóloga e curadora da exposição Adriana Klisys. No encontro, serão propostas reflexões sobre os brinquedos artesanais e as ações criativas na infância e educação que vão ao encontro da exposição. Esta, idealizada como parte de um projeto educativo e cultural de divulgação e valorização do brinquedo artesanal para inspirar práticas criativas de construção de brinquedos pelos professores, pelas crianças e pela comunidade educativa, assim como incrementar o acervo lúdico das escolas com brinquedos que proporcionem experiências sensíveis, principalmente na educação infantil.

Adriana Klisys comenta que o país tem uma riqueza de brinquedos artesanais em cada região como mamulengos, brinquedos de miriti, brinquedos de lata, de folha de flandres, panelinhas de barro, bichinhos de balata, bonecas de pano, petecas de palha ou buriti e outros brinquedos instigantes à imaginação infantil. Contudo, dificilmente esse acervo lúdico chega às escolas, pois as instituições costumam optar por brinquedos industrializados e tecnológicos. “Foi pensando em como estimular as crianças a fazerem seus próprios brinquedos que o Serviço Social do Comércio (Sesc) Departamento Nacional teve a iniciativa de contribuir para que isso se torne realidade em nosso país tão rico em brinquedos artesanais, mas pouco difundidos”, adianta. Muitos exemplos podem ser vistos no livro “Brinquedos do Brasil: Invenções de muitas mãos” (que dá nome à exposição), disponível para baixar em PDF.
Neste trabalho conjunto, Klisys desenvolveu, então, uma ação formativa que visa incentivar que os educadores fomentem possibilidades lúdicas de criação de brinquedos pelas crianças. “Hoje, o Centro de Formação e Pesquisa em Lazer do Sesc é uma grande referência nacional, com inúmeras publicações e organização de importantes conferências, cursos e até mesmo Seminários Internacionais de lazer, inclusive com a publicação de livros nesta área do lazer. Há pontos de encontros fortes entre a área de Educação e Lazer. Ambos, neste momento, estão discutindo a questão da importância da experiência e o brincar perpassa toda experiência significativa e criativa”, declara a psicóloga, completando que, ter na escola brinquedos tradicionais do Brasil permite às crianças tanto o conhecimento da cultura lúdica do país - engenhosa em transformar a natureza - como favorece as brincadeiras de faz de conta.
Segundo ela, a diferença principal entre um brinquedo comprado e feito pela própria criança tem a ver com a autoria no processo de criação. “Enquanto no primeiro a autoria é de um adulto, no segundo é da criança. E é interessante que as crianças possam ter brinquedos comprados, muitos inclusive interessantíssimos, entretanto, nos dias atuais, parte da população (principalmente urbana) têm se afastado do saber ancestral de construção de seus próprios brinquedos. E o ato de construir é muito poderoso, porque convida a ação criativa inventiva da criança, traz habilidades, inclusive de confecção, que o brinquedo pronto não oferece. Além de brincar com o brinquedo, a criança pode criar o brinquedo, ganhando autonomia e independência para o seu próprio brincar. Brincar é, por definição, "estabelecer vínculos.”
E considerando o período atual em que as crianças já nascem no contexto digital, concorrer com o fascínio dos eletrônicos não é tarefa fácil, mas importante. “A tecnologia veio para ficar. Não imagino que tenha caminho de volta. Agora, o problema não é a tecnologia em si, aliás, muitas vezes a tecnologia é a solução. O problema é o uso que se faz dela. Ou, em alguns casos, o uso excessivo que se faz dela. Existem jogos eletrônicos que são ótimos e ensinam a montar espaços que exigem sofisticados conhecimentos arquitetônicos e mesmo de gestão de cidades.” E, para ela, o caminho não é culpar o videogame, mas extremamente desafiador propor algo no lugar da queixa que ocupa o lugar da resolução do problema. “Temos inúmeros caminhos para isso. Se tivéssemos um décimo dos investimentos dos videogames dedicado a planejar qualidade em brincar no país, a situação seria bem diversa do que se apresenta hoje.”

Diante disso, ela ressalta a a necessidade da formação dos educadores para se aprofundarem na cultura lúdica no Ensino Infantil e também, na cultura lúdica para o Ensino Fundamental e Médio. “Paramos na Educação Infantil, e mesmo assim, ainda há pouca contribuição de ordem da vida prática do brincar nas escolas. Em um mundo cada vez mais preocupado com produtividade, fica de lado tudo o que não é produção, com é o caso do brincar que diz respeito a processos. Que vínculos fortes estamos criando na educação para que as crianças brinquem com qualidade?”, diz, completando que o atual modelo do MEC (Ministério da Educação) ainda é muito tímido em matéria de proposição de outras realidades lúdicas, para além da realidade virtual. “Um dia teremos um “Ministério Lúdico” que vai revolucionar a qualidade de vida que o brincar proporciona não só às crianças”.
O argumento se faz ainda mais contundente quando a psicóloga diz que esta pode ser uma alternativa muito acessível economicamente, sobretudo porque grande parte das escolas públicas do país não possuem boa estrutura física adequada e, muito menos, recurso orçamentário. “É tão fácil mudar esta situação. É que brincar ainda não é prioridade nacional”, diz, apontando para sobras industriais, descartadas diariamente que poderiam ajudar a preservar a cultura dos brinquedos criados a partir destes materiais. “Só a indústria têxtil, para citar um exemplo, têm cones, carretéis, tubos, tubetes, fios de malha, retalhos de tecidos e tudo de uma beleza estética incrível. Diariamente, os supermercados e estabelecimentos comerciais descartam caixas de papelão que são matéria prima para construção de jogos e inúmeros brinquedos. Enfim é muito fácil ter qualidade de brinquedos sem custo, é muito farta a cultura lúdica de nosso país.”

SERVIÇO:
Palestra “Dar brinquedos às crianças ou incentivá-las a criá-los?”
Quando: Quarta-feira (5), das 8 às 12h
Onde: Sesc Londrina Centro (Rua Fernando de Noronha, 264)
Quanto: Gratuito (As vagas são limitadas e as inscrições devem ser feitas antecipadamente. Informações e inscrições pelo telefone 43 3305-7824)
Exposição “Brinquedos do Brasil: invenções de muitas mãos”
Quando: De 05/06 a 06/07 (segunda-feira a sexta-feira, das 8 às 22h / sábado das 9 às 18h)
Onde: Hall do Sesc Londrina Centro (Rua Fernando de Noronha, 264)
Quanto: Gratuito (Agendamento de escolas: 43 3305-7824 ou pelo e-mail: [email protected])


