Zeca Corrêa Leite
O produtor musical Zuza Homem de Melo, 65 anos, viveu de perto os brilhantes tempos dos festivais de música popular brasileira. Ele trabalhava na TV Record, responsável por esse capítulo da história, e muito daquilo que rolou nos bastidores, foi testemunha ocular ou próximo disso. Esse passado, de certo modo recente - pouco mais de 30 anos -, estará num livro que começou a escrever para lançar em 2001.
Ao mesmo tempo em que cuida disso, Zuza divide-se também na produção do CD dos Canarinhos de Petrópolis - projeto do Colégio Bom Jesus, de Curitiba - e noutro, ‘‘Trovadores Urbanos’’, de compositores paulistas. Além disso está cuidando da reedição de um livro publicado em 1975 sobre a bossa-nova, com depoimentos de compositores, intérpretes e outras pessoas envolvidas no movimento.
A obra virá com novo título - que ele ainda não pode anunciar -, substituindo o original que é ‘‘pavoroso, mal bolado por mim mesmo’’. Esgotado há anos, chamava-se ‘‘Música Popular Brasileira Cantada e Contada Por...’’ e vinham os depoentes. A editora será a mesma: Siciliano. Dependendo de últimos acertos, pode chegar às prateleiras das livrarias ainda neste ano.
Não termina aí. O produtor comemora o sucesso de vendas do segundo volume de ‘‘Canção no Tempo’’, escrito a quatro mãos com Jairo Severiano, que reúne lançamentos musicais de 1958 a 1985. Lançado há seis meses, está na terceira edição. O primeiro volume, que abrange o período de 1901 a 1957, levou o dobro do tempo para alcançar a mesma tiragem.
Zuza Homem de Melo conversou sobre esses assuntos com a Folha Dois, durante uma passagem por Curitiba. Acompanhe a entrevista.


Folha Dois - ‘‘Canção no Tempo’’ é, indiscutivelmente, um livro festejado. Você mantém o trabalho de divulgação como há seis meses?
Zuza Homem de Melo - Sim, continuo dando entrevistas, fazendo lançamentos e, inclusive, quero ver se agendo uma sessão aqui em Curitiba. Esse é o tipo do livro que não é momentâneo, de decolar e depois parar. Ele tem uma demanda constante pelo próprio conteúdo. Como são canções do século 20 até 1985, sempre haverá quem vai precisar dele, consultá-lo. Inclusive, há possibilidades de lançá-lo em Portugal, no segundo semestre, porque lá existe uma grande solicitação da nossa música.
Folha Dois - Como se explica esse sucesso: seria pela curiosidade do público, ou pela valorização sobre a nossa música?
Zuza Homem de Melo - Isso mostra o interesse das pessoas. Aliás, há um fato interessante - aquelas que compram o volume dois, acabam comprando também o primeiro, com músicas de uma época que elas não conheciam. O livro tem servido para artistas e produtores. Por exemplo: Jair Rodrigues vai gravar um disco ao vivo, com sucessos do século 20. É evidente que a pesquisa foi feita no nosso livro, do Jairo e meu. Claro! ‘‘Canção no Tempo’’ ficou como referência. A seção de músicas estrangeiras que fizeram sucesso no Brasil também é bastante consultada.
Folha Dois - Bem, esse trabalho já está na estrada. O que virá pela frente?
Zuza Homem de Melo - Estou escrevendo um livro que vai contar a história dos festivais de música popular brasileira, que praticamente detonaram toda a geração dos grandes compositores do momento. E quando falo ‘‘do momento’’, estou me referindo aos últimos 30 anos. Desde 1965 que esses compositores mantém-se como os grandes ídolos, como os grandes produtores do que há de melhor que se faz na música popular brasileira. Eles foram revelados pelos festivais.
Folha Dois - Em suas páginas você mostrará o cenário além das cortinas?
Zuza Homem de Melo - É, todos os bastidores, tudo que aconteceu. Como eu trabalhava na TV Record, sabia de muita coisa. Acompanhei bem os festivais e tenho condições de poder contar uma porção de histórias, e evidentemente trazer outras que vou cavocar, desencavar a partir do contato com as pessoas envolvidas.
Folha Dois - Esse momento que durou poucos anos mas que entrou para a história, inseriu-se num movimento mais amplo de qualidade e criatividade musical. Você faz um recorte dos festivais ou coloca-os nesse contexto?
Zuza Homem de Melo - De uma certa forma o livro dos festivais vai refletir as memórias desse tempo. Elas vão acabar, inevitavelmente, sendo incluídas, como as coisas da TV Record, de outros programas musicais que acabam sendo inseridos an passant. Entre eles terá algumas coisas do ‘‘Fino da Bossa’’.
Folha Dois - A Editora 34 apostou no filão musical, com o mapeamento musical que você e Jairo Severiano fizeram. Podem surgir outras obras do gênero?
Zuza Homem de Melo - Esse projeto faz parte de uma coleção da editora, que se compõe de mais 12 livros. Serão publicados trabalhos sobre Jackson do Pandeiro, Dolores Duran, Jovem Guarda, jazz dos anos 90... O primeiro será sobre Baden Powell. Os autores foram selecionados pelo Tárik de Souza. Então o que se deduz é que essa área que até bem pouco tempo era desprezada pelas editoras, quando foi colocada nos eixos pela 34, teve um resultado excelente que veio a galope. Isso mostra que o mercado da música popular brasileira existe e é muito maior do que se esperava, mesmo fora da área de shows, de discos e etc. Enquanto de forma revoltante as rádios e as emissoras de televisão se negam a expor o produto brasileiro em seus canais, a demanda do público é assustadora.
Folha Dois - O livro é um reflexo dessa demanda?
Zuza Homem de Melo - É uma das formas, porque existe demanda para discos, para programas de rádio de mpb. Num final de semana teve show de Tom Zé, no Teatro Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Três noites abarrotado. Agora, toca Tom Zé no rádio? Em São Paulo não tem a menor chance. Então, esse contraste mostra que há uma falta de capacidade, de percepção das pessoas que dirigem as emissoras de rádio, que controlam os programas de televisão. É uma capacidade de falta de percepção. Em bom português é isso. Falta ouvido.
Folha Dois - Não é só a tirania das gravadoras?
Zuza Homem de Melo - A tirania das gravadoras está claro que faz parte desse jogo, mas quem são as pessoas que dirigem as gravadoras? São pessoas capacitadas para a música ou não? Aparentemente, não. Você pode tirar essa conclusão - senão uma Tiazinha não ia gravar um disco. A Tiazinha tem carreira de cantora para poder gravar um disco? Ou a Selma Baptista, aqui de Curitiba, é quem merece gravar um disco? Qual das duas é cantora? E qual das duas tem o disco? Então, o disco passa a ser encarado como um produto de mercado; como a calcinha dela, que é vendida com a sua assinatura. Disco não é isso, mas passa a ser encarado como coisa descartável. É um processo de autodestruição cada vez mais rápido.
Folha Dois - É daí que persiste a música do passado, quando não havia computadores nos estúdios para inventar cantores?
Zuza Homem de Melo - Lógico. Porque a música não pode ser confundida com um produto desses. Música não é produto, ela é arte.
Folha Dois - Digamos que daqui a 20, 30 anos você escrevesse um livro sobre a nossa música, este nosso tempo seria nebuloso?
Zuza Homem de Melo - Não há dúvida. Mas isto vai passar, é cíclico. Esse tempo vai ser encarado como uma espécie de Idade Média da música popular.
Folha Dois - Em 1994 você tirou de seus guardados as gravações do programa ‘‘Fino da Bossa’’, que resultou em três CDs, ‘‘Elis Regina no Fino da Bossa’’, lançados pela gravadora Velas. Há possibilidades de um relançamento?
Zuza Homem de Melo - Aquela caixa foi o primeiro trabalho feito no Brasil de CDs agrupados. Por incrível que pareça a Velas foi a pioneira nisso. As demais lançadas pelas grandes gravadoras, vieram depois. Naquela época, que não é tão distante assim - o CD é que é muito recente -, não se tinha uma concepção de caixa de CD. Aquela ficou um tanto quanto obsoleta. Então conversei com o Vitor Martins e vamos refazê-la. Ao se refazer a caixa, a idéia é dar também um novo visual, e com isso um reimpulso a esses discos, num momento em que existe a vontade de conhecer essas coisas, como se vê por tudo isso que a gente está falando.
Folha Dois - Vocês pretendem acrescentar novas faixas nos discos?
Zuza Homem de Melo - Não. Serão mantidos os três discos tal e qual, e estudar a possibilidade de fazer um outro, em separado, talvez de outro assunto. Tenho muito material para ser utilizado, desse período em que eu trabalhava na TV Record.
Folha Dois - Como foi o retorno de vendas das caixas?
Zuza Homem de Melo - Um grande sucesso. Na época foi o trabalho que mais deu resultado dentro da gravadora, até aquele período. Nunca nenhum disco da Velas tinha vendido tão bem. E quando veio o show ‘‘Elis ao Vivo’’ (gravado no Anhembi, em 1977, lançado quase 20 anos depois) repetiu-se a coisa. O recorde foi novamente quebrado. Alcançou os 100 mil discos rapidamente. Já o ‘‘Fino’’ deve ter vendido umas 30 mil caixas, perfazendo cerca de 100 mil discos. E continua vendendo.A história dos festivais de música, que revelaram grandes artistas brasileiros, vai ser contada em livro por Zuza Homem de Melo
Mauro FrassonO produtor e pesquisador Zuza Homem de Melo vai publicar um livro com a história dos velhos festivais de música

mockup