São Paulo, 05 (AE) - A frase de Anthony Quinn em "Zorba" ainda ressoa forte como a figura rústica do grego trapalhão dizendo ao comportado professor no filme de Cacoyannis: "Vocês, intelectuais, são como comerciantes, pesam tudo". Ela também se aplica à literatura da escritora paulistana Zulmira Ribeiro Tavares, candidata ao prêmio Multicultural Estadão deste ano. Como o professor de "Zorba", Zulmira pesa cada palavra de seus premiados livros, alguns considerados marcos na literatura contemporânea brasileira, como "O Nome do Bispo". Mas, felizmente, conserva uma saudável dose de loucura nas entrelinhas.
Zulmira Ribeiro Tavares lançou, no fim do ano passado, seu mais recente livro, "Cortejo em Abril", que leva o nome do primeiro conto do volume, a trajetória de um faz-tudo que vê a história do Brasil desfilar à sua frente no dia do enterro de Tancredo Neves. É um livro que incomoda a consciência de quem se refugiou num mundinho cercado por cordões de isolamento contra a miséria. Só que Zulmira, ao contrário de outros escritores politizados, faz isso com sutileza, elegância e humor.
Ela reduz a farrapos o orgulho de hipócritas como o Heládio de "O Nome do Bispo", colocando o representante de uma categoria de predadores em situação constrangedora. Também faz uso da alegoria para castigar a alta burguesia e seu mundo. "Jóias de Família" é o exemplo máximo dessa fábula política sobre subproletários urbanos e patrões moralmente falidos.
Seus personagens circulam numa cidade à beira do colapso, destruída pela especulação imobiliária e pontuada pela desigualdade social. A distância entre o cortiço e os casarões do passado é eliminada pelo trânsito interclassista obrigatório. Os filhos de tradicionais famílias são intimados a engolir os miseráveis que tentaram manter isolados no inferno da urbe.
Num ensaio sobre a escritora, Berta Waldman, comparando Zulmira e Clarice Lispector, afirma que o narrador, nos livros da primeira, é sempre distante e objetivo, crítico e refinado. "O que em Clarice é orgia em technicolor, em Zulmira é perfeita dicção em preto-e-branco", escreveu Berta Waldman. "O lirismo de Zulmira escapa pelo ladrão", concluiu. Isso não significa que Zulmira faça uma literatura seca, mas simplesmente que a escritora toma certos cuidados para não abusar dos códigos literários, respeitando os limites de uma linguagem socialmente constituída. Abaixo, Zulmira Ribeiro Tavares, que começou sua carreira como poeta, fala um pouco de sua literatura à reportagem. Pergunta - A literatura brasileira, de modo geral, ousa pouco quando trata do corpo. A sua literatura, ao contrário, se recusa a suprimir o sexo, descrevendo em detalhes relações e órgãos sexuais dos parceiros, com frequência antípodas. Essa abordagem é uma provocação deliberada ao pudor excessivo de nossa tradição literária? Zulmira Ribeiro Tavares - Aquilo que conheço da literatura brasileira não me leva a concordar com a afirmação. Tampouco o conjunto do que escrevo denota uma escolha privilegiada do tema. Quando trato do assunto utilizando imagens menos ou mais precisas, vêm elas inseridas em uma rede de outras imagens, pois como você sabe a escrita literária não é musiquinha de uma nota só. Veja, por exemplo, a ficção O Doutor em Filosofia e a Manicura de Doutores. Se você a reler poderá descobrir nela uma trama de pequenos temas, na qual talvez pudesse ser destacado aqueles referentes a desencontros de vários tipos, entre os quais, quem sabe, manifesta-se algum desespero de fundo antes filosófico do que psicológico - isso, a meu ver, com certo acento grotesco e não naturalista. Muita pretensão de minha parte? Seja como for, a resposta deixa claro que não me ocorre qualquer provocação quando faço uso de tais imagens: "provocação" que, de resto, seria muito ingênua, não lhe parece? Pergunta - São Paulo é seu cenário e as velhas mansões aparecem como marcas de um passado a ser combatido no presente. Em "O Nome do Bispo", Heládio, de tradicional família paulistana, passa por uma intervenção cirúrgica porque tem fissura anal. Essa aparente "humilhação" é uma vingança contra a alta burguesia? Zulmira - São Paulo é frequentemente meu cenário, mas não sempre. E no que escrevo há também muitos "cenários" não determinados. Quanto aos velhos casarões, eles não são uma constante. Por exemplo, em "Jóias de Família" (o apartamento no Itaim-Bibi), em "O Japonês dos Olhos Redondos", em "Realidade, Realidade", em "O Guardador do Sol", em "Cai Fora", em "O Tapa-Olho do Olho Mágico", e por aí vai. Quanto à doença de Heládio: não, não é uma vingança, pois não me sinto uma vingadora como certos personagens das histórias em quadrinhos, das quais, aliás, gosto muito. Trata-se da forma que encontrei para introduzir um personagem deslocado de seu centro, "continuamente sendo roubado de si mesmo à vista do próprio nome!" (ver pág. 170 de O Nome do Bispo). Pergunta - O narrador, em "Cortejo de Abril", é extremamente crítico. Como autora, você parece não se envolver com seus personagens, sempre distantes como qualquer habitante de uma metrópole como São Paulo. Eles só se tornam próximos quando se identificam, de alguma forma, com a natureza, caso do par que transa entre os bambus do Parque Ibirapuera enquanto passa o cortejo de Tancredo Neves. Você pensa nesses personagens apenas como tipos? Zulmira - A afirmação que você faz entre proximidade do personagem e identificação com a natureza é curiosa, mas relendo o texto eu não a reconheci. Também não penso nos personagens como tipos, o que não quer dizer que neles pretendi algum aprofundamento, pois não se trata de uma ficção psicológica. Antes do que pretender um desenho aprofundado dos caracteres quis, isso sim, delinear o movimento geral daquele dia, com a sua variedade e oscilação. O título original chamou-se "A Forma Incerta de Abril". Pergunta - "Cortejo em Abril", assim como "O Mandril", são livros que resistem a classificações por gênero. Poderiam ser poemas em prosa e, igualmente, ensaios sociológicos sobre os habitantes de São Paulo. Por que não "alongar" esses ensaios e definir um gênero? Zulmira - Sinceramente não sei se os livros citados é que resistem à classificação por gênero, ou os gêneros que resistem à fluidez da escrita literária. Em "Cortejo em Abril" chamei os textos genericamente de "ficções" porque em muitos deles, nos menores, a "figuração" ou "historinha" praticamente inexiste. Não acredito que sejam poemas em prosa, e lembro que na orelha João Moura Jr. diz (em um pronunciamento feito originariamente para O Mandril) que os textos são menores do que muito poema em prosa, o que não quer dizer que os chama de poemas. Também faz um jogo entre o termo "ensaio" na sua acepção de "experimental" e os textos reunidos; só isso. Não há absolutamente nenhum ensaio no conjunto. Pergunta - "Cortejo em Abril" parece deliberadamente inconclusivo. Você disse, certa vez, que é impossível reunir todo o feixe de determinações que estão em volta de uma situação, mas, se você elege tal situação, em literatura, não é também senhor dela? Zulmira - O que eu disse na ocasião vinha a ser ligeiramente diferente. Falei na exigência por entendimento, tanto da parte do escritor, como de outra pessoa, mas eu me referia ao conjunto da existência como tal, e não a uma determinada situação. E exemplifiquei dizendo que, quando lia um belo livro, ainda que muito simples, de uma maneira ou de outra nele sempre aflorava a forma daquilo que resistia à própria forma. Mas, claro, a inconclusão também pode ser tratada como uma deficiência na obra. Já quanto a isso não me cabe opinar. Quanto ao conto "Cortejo em Abril", especificamente, julgo já ter dado a resposta ao mencionar o seu primeiro título. Pergunta - Em "Jóias de Família", novamente a burguesia paulistana ocupa as páginas com a história de uma viúva quatrocentona e suas jóias falsas, tanto como seu passado, uma fraude. Por outro lado, a empregada Maria Preta é descrita como uma verdadeira jóia. É impossível o diálogo interclassista? Zulmira - Não, não é impossível. O que não quer dizer que frequentemente não ocorra de forma truncada. Quanto ao fato de Maria Preta ser chamada de "uma jóia" por seus empregadores há naturalmente ironia pela forma como tal jóia vem a ser utilizada na família que a emprega. Contudo, a novela trata de muitas outras questões que escapam a um diálogo interclassista em sentido estrito. Pois talvez tenha o texto muito de uma pequena narrativa sobre os nexos complicadíssimos entre a hipocrisia e a construção da felicidade em determinado espaço social. No caso, espaço acanhado, e por isso, gritante a hipocrisia, daí o seu tom de fábula e quase de farsa. Pergunta - Seus primeiros escritos são poemas. Por que não publica mais poemas e quando pretende lançar seus ensaios sobre cinema? Zulmira - Não tenho escrito poemas para publicá-los. De resto, talvez lide mal com a definição de gêneros literários, pois quando apresentei à editora Brasiliense "O Nome do Bispo" havia escrito embaixo do título: "prosa de ficção", e não "romance". Quanto aos textos não-ficcionais penso eventualmente em publicar algum deles, mas não só sobre cinema. Quando? Não seria para logo, pois gostaria de escrever alguma coisa nova antes. Pergunta - Politicamente, você se define como socialista, defendendo, há três anos, o discurso de Fernando Henrique Cardoso como uma "fala nova, de educação democrática". Sua opinião sobre o presidente continua a mesma? Você ainda considera viável a construção de uma sociedade socialista no Brasil? Zulmira - Sim, a opinião continua a mesma. Tive ocasião a partir de então de acompanhar vários pronunciamentos seus, ler integralmente seus discursos e garimpar o todo de sua fala pública por meio das sucessivas edições que a imprensa, escrita e televisiva, usualmente faz com a informação. Quanto à minha definição de socialista, ela é mais matizada, pois o que disse na ocasião foi que se fosse para me definir diria ser socialista, mas o problema é que não conseguia pensar a exclusão do mercado, e tampouco como se efetuaria uma chegada ao socialismo mediada por amplo convencimento democrático. O que está valendo. Pergunta - A presença da história em sua ficção parece ter o papel de empurrar os personagens para a frente, desviando a atenção da realidade, insuportável também para o leitor, que é convidado a desviar os olhos do universal para os detalhes, ou seja, da poluição do córrego da Vila Uberabinha para o "consertador de tudo" em Cortejo em Abril. Que papel tem a história em sua literatura? Zulmira - Não sei se você se refere à história como enredo ficcional ou como história de uma cultura e de um povo. Seja como for, em ambos os casos teria o mesmo a dizer. Veja, considero a forma literária como uma particular configuração da realidade. Isso significa que ela não espelha nem reproduz em sentido estrito, mas estabelece determinado tipo de rede "compreensiva" que ao se manifestar permite uma nova aproximação, ainda que não exaustiva, da mesma realidade. Portanto, não enxergo Vila Uberabinha como um hábitat preferencial da realidade, ou do "universal", ainda que, se você tiver oportunidade de reler o conto, poderá verificar que o "consertador" a leva consigo em suas andanças. Pergunta - É possível reconhecer em seu livro personagens e histórias reais transformadas em ficção. Como seus amigos íntimos reagem quando são retratados em livros como Cortejo em Abril? Zulmira - Meus amigos, íntimos ou não, não reagem porque não foram retratados. Nem poderiam ser, pela maneira como entendo a ficção, explicada atrás. De resto, não julgo que em "Cortejo em Abril" tenha havido propriamente uma "produção" ficcional dos acontecimentos que culminaram em abril de 1985. Eles apenas me permitiram procurar o entendimento do que ocorreu naquele período, ao qual se agregaram - tanto como elementos de coesão para a narrativa como para seu aspecto necessariamente fragmentário - diferentes personagens e cenários, os quais frequentemente surgem mesclados e irradiando-se, assim julgo, para um tecido social mais amplo. É quando nasce a ficção. O mesmo teria a dizer sobre o romance "Café Pequeno" com o estouro de zebus e a repressão havida às comemorações da Revolução Francesa em função da Aliança Nacional Libertadora, em julho de 1935, e em 1938 com o jantar para Getúlio Vargas. Se em ambos os casos fui ou não bem sucedida, isso já é outra história.

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