Zuenir e a aventura da vida
Zuenir Ventura finalmente vai tirar férias. Outubro irá encontrá-lo na Europa e antes de esquecer a conjugação do tenho que, participará da Feira do Livro de Barcelona, na Espanha. Acabando esse último compromisso, a ociosidade que o espere. Ele quer descansar. Estou cansado, mas estou feliz, disse em Curitiba, às vésperas de lançar Mal Secreto, livro que trata da inveja, um dos sete pecados capitais.
Leandro TaquesAo revalorizar a vida você passa a medir o tempo, cuja unidade é o imediato
Primeiro de uma série de sete, da Editora Objetiva, não teve lançamento no Rio. Caiu no gosto do leitor, a primeira edição de dez mil exemplares esgotaram-se rapidamente e foram rodados outros dez mil. Convites para lançamento chegaram de Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba. Ventura embarcou nesses compromissos com prazer, mas fica preocupado ao ver que seu livro está se esgotando. Ele argumenta que o comprador pode perder o interesse se não encontrá-lo já na primeira vez.
Mal Secreto é o livro em que o jornalista se expôs por completo, inclusive colocando em suas páginas o incômodo do câncer na bexiga. Descobriu-se a doença quando o projeto estava em andamento. Seus trabalhos anteriores passaram longe dessa exposição: 1968 - O Ano que Não Acabou e Cidade Partida. Ambos traziam distanciamento dos fatos. Neste entro de cabeça e me exponho como nunca me expus. Me deixou muito inseguro, disse.
Na entrevista realizada no Colégio Decisivo, Zuenir Ventura falou não só do livro, como da vida. Vencer um câncer - em novembro ele tem uma resposta definitiva do médico - é atravessar uma situação limite. A partir daí, o prazer de viver é outro, descerra na alma as cortinas que empanam a grandeza da existência.
Leandro TaquesTinha medo de morrer, mas o maior medo era o de sofrer, eram as sequelas
Folha - Você diz que a mulher coloca para fora, com mais facilidade, seu sentimento de inveja. Por que o homem esconde?
Zuenir Ventura - Porque somos mais hipócritas, mais fingidos.
Folha - A inveja tem muitas faces?
Zuenir - Tem. Diria até que ela tem muitos disfarces, porque, como tem dificuldade de se expressar, de se manifestar ela se apresenta, às vezes, até como boa. Invejo você, invejo em você essa capacidade de trabalho, invejo isto e aquilo, de certo modo é admiração. Não chega a ser inveja. É uma grande discussão, mas a maioria dos grandes autores acha que não existe inveja boa, só a ruim. Essa chamada de boa é a admiração. Por isso que é fascinante este jogo da inveja.
Folha - A ficção que tem no livro foi utilizada para costurar suas diversas situações?
Zuenir - Um amigo meu disse que o livro tem três planos: um é a história da inveja em si, outro é o meu câncer e outro a história da Kátia, que é a mais fascinante. Há ficção nesses três planos, embora muito menos no plano da pesquisa da inveja, das citações. Mas eu não revelo ao leitor, nem a ninguém a composição da Kátia. Quanto ela tem de ficção, quanto tem de não ficção? Isso não digo, e talvez seja a única coisa que não tenha dito nem para minha mulher. Isso resolvi guardar pra mim. Tem essa mistura toda, mas não confunde não. Minha teoria sobre escrita é a seguinte: quem tem que ter trabalho é o autor, não o leitor.
Folha - A inveja mata?
Zuenir - Pergunte a Caim. Bem, o exemplo fundador da inveja leva à morte, mas não quer dizer que toda inveja leva à morte. Até pelo contrário - há teorias que dizem que o invejoso quer muito mais o fracasso do outro que a morte.
Folha - Quando você soube que estava com câncer, passou-lhe algum pensamento de que a doença poderia ser fruto - ou foi acelerada - pelo motivo de estar mexendo com energias negativas?
Zuenir - Não consigo acreditar nisso. Daí que acho que pode até ser um bloqueio, uma defesa, esse meu ceticismo. Têm coincidências no livro muito impressionantes, mas nunca me senti vítima de inveja. Como não gosto de me sentir vítima de nada, a primeira reação nessa coisa do câncer foi que acabei lidando bem com isso, reagi de maneira boa. Não me deprimi, sobretudo não fiquei subjugado, derrotado. Acabei enfrentando isso com alegria, com bom humor, com tudo aquilo que tenho naturalmente. Resolvi botar o câncer dentro do livro, porque, se eu estava falando de tudo que estava acontecendo comigo, seria hipocrisia não falar dele.
Folha - A doença precipita a vida. Como foi trabalhar o livro sabendo que estava com câncer?
Zuenir - O sentimento é variado. Primeiro você é possuído de um sentido de urgência na vida. Você quer acabar tudo porque não sabe o que vai acontecer dali a pouco, no dia seguinte. A primeira reação é essa, do tempo. Depois você valoriza muito, você sai lucrando. Primeiro porque revaloriza uma porção de coisas. Revaloriza a vida, os acontecimentos. Sabe aquela sensação de quanto tempo a gente perde com bobagem? Ah, meu Deus estou mal humorado; tenho que fazer não sei o quê e estou atrasado. Aí você passa um dia meio deprimido, estressado, por bobagem. Absolutamente bobagem. Ao revalorizar a vida você passa a medir o tempo, cuja unidade é o imediato. É o Carpe Diem, o aqui e agora. Este nosso encontro é uma coisa que está me dando o maior prazer. Isso é fundamental. Se poderia ter sido melhor ou pior, não interessa. Interessa é que a gente está vivendo e a vida - você começa a descobrir - é feita disso, de cada momentinho. O que estou dizendo pode parecer óbvio, mas quero dizer que a gente descobre o óbvio depois de passar por uma situação limite dessas. Eu moro num lugar muito bonito, acordo e olho o mar. Sempre olhei, toda manhã. Mas achava que era obrigação da natureza para comigo me fornecer aquele espetáculo estético bonito, e agora vi que isso é uma dádiva, um presente que estou recebendo todo dia. Você passa a revalorizar muita coisa.
Folha - O exercício de esmiuçar a inveja, que é um sentimento negativo, e ainda com um câncer na bexiga, o período foi muito pesado para você. Parece-me que ao atravessar esses pesos, você partiu para a vida, como se ela adquirisse outra luminosidade. Seria isso?
Zuenir - É sim. Passei para a vida com essa sensação de reconquista. Foi uma vitória contra a morte, e, sobretudo, contra o sofrimento. Me perguntam se eu não tinha medo de morrer. Tinha, mas o maior medo era o de sofrer, eram as sequelas. Tive uma vida tão feliz, vivi tão bem... É um pouco você sair da festa antes de acabar. Eu prefiro ficar até o final, mas se tiver que sair antes não vou sofrer por isso. Então é a vitória da vida; a vida é que saiu ganhando.Leandro TaquesO jornalista e escritor Zuenir Ventura conta aqui como escreveu um livro de sucesso sobre a inveja enquanto lutava contra o câncer
Zeca Corrêa Leite





