São Paulo, 20 (AE) - Se o voyeurismo é intrínseco ao ato de ver cinema, "Zona de Conflito" (às 14h15 no Masp), o filme de estréia do ator Tim Roth na direção, coloca o espectador numa situação desconfortável, quase insuportável. É um filme sobre incesto. Um pai abusa da filha adolescente e o relato é visto pelo ângulo de outro filho, também adolescente. Outro cineasta talvez recuasse nas cenas de sexo, sugerindo, mais do que mostrando. Roth escancara a porta e mostra com rara crueza. Há momentos que produzem mal-estar em "Zona de Conflito". Não deixe de ver o filme por causa disso. Cinema também é para incomodar.
O inglês Roth está longe de ser um astro, mas é um ator certamente interessante. Criou tipos neuróticos e violentos em muitos filmes. É um dos atores preferidos de Quentin Tarantino ("Cães de Aluguel" e "Tempo de Violência"), já filmou com Tom Stoppard ("Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos"), Peter Greenaway ("O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante"), Robert Altman ("Vincent e Theo"). Um dos melhores papéis foi como o ex-detento por quem Drew Barrymore se apaixona em Todos Dizem Eu Te Amo, de Woody Allen.
Roth baseou-se num romance de Alexander Stewart, adaptado pelo escritor. Começa com a história de uma família que se muda para uma nova casa. Há problemas de adaptação ao novo ambiente, mas nada que levante suspeita. Os pais, Tilda Swinton, a musa de Derek Jarman, e Roy Winston, mais os dois filhos, parecem uma típica família americana. Se forem, a América está perdida. Logo revela-se uma trama digna de Nélson Rodrigues, com taras e abusos de toda ordem. O diretor não transforma o pai num vilão repulsivo. É o que deixa o filme mais perturbador. Numa cena há um acidente de carro com uma grávida. Dos escombros, ouve-se o choro de um recém-nascido. É forte.

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