Lourenço Mutarelli é um caso único na literatura brasileira contemporânea. Reconhecido como um dos grandes criadores de histórias em quadrinhos brasileiros, Mutarelli trocou as artes gráficas pela literatura. Simplesmente abandonou os desenhos e se jogou de cabeça no universo das letras.
Lançou seu primeiro romance ''O Cheiro do Ralo'', em 2002. Depois vieram ''O Natimorto'' (2004) e ''Jesus Kid'' (2005) todos através de selos de pequenas editoras. Em 2008, com ''A Arte de Produzir Efeito sem Causa'', passou a integrar o time de autores da editora Companhia das Letras.
A editora começa agora a reeditar os livros esgotados de Mutarelli. ''O Natimorto'' chega às livrarias na próxima semana. O romance apresenta a história, pontuada pelo absurdo, do encontro entre um homem e uma mulher. Ele, um agente artístico que não age. Ela, uma cantora que não possui voz. Pode parecer estranho, mas é isso que banha a obra de criatividade.
Nomeado apenas como Agente, o homem possui uma peculiar prática cotidiana: ler tarô nas imagens de maços de cigarros. Através das indigestas fotografias veiculadas pelo Ministério da Saúde nos maços, ele prevê o futuro. Associando as possíveis semelhanças entre as imagens do Tarô de Marsela e as fotografias alertando sobre os malefícios do fumo, ele prevê os acontecimentos do dia ao comprar cigarros pela manhã.
Procurando agenciar a arte da cantora, nomeada apenas de Voz, o homem passa a viver no quarto de hotel onde a mulher está hospedada. Sua intenção é nunca sair do quarto, passar a vida toda sem contato com mundo externo, sem ter contato com o ser humano a não ser a Voz.
Isolado do mundo externo, passa o tempo contando histórias à Voz. Num primeiro momento, ''O Natimorto'' parece ser uma história de amor. Com o andamento da narrativa, o leitor se vê inserido numa história próxima do horror. Lourenço Mutarelli realiza essa transposição de maneira paulatina e tranquila, com uma discrição bem humorada como se zombasse do abismo.
A narrativa desenvolvida por Mutarelli possui uma característica diferenciada. Segue uma estrutura semelhante a dos balões de quadrinhos e, ao mesmo tempo a estrutura de um texto teatral. Constituída praticamente só de diálogos curtos e ágeis, as descrições são praticamente eliminadas conferindo destaque às ações verbais.
''O Natimorto'' foi recentemente adaptado para o cinema por Paulo Machline. Tendo o próprio escritor atuando como o Agente, o filme tem estréia prevista para o final do ano. O novo romance de Mutarelli, ''Miguel e os Demônios - ou nas Delícias da Desgraça'', deve chegar às livrarias em outubro carregado de humor negro.

Serviço
- O Natimorto
Autor - Lourenço Mutarelli
Editora - Companhia das Letras
Quanto - R$ 36 (140 pág.)


Fragmento
O Agente: Um dos meus tios, que por sinal era padeiro, para nos proteger e nos manter afastados do poço, tentava nos assustar, dizendo que ali dentro, ali no fundo, havia um monstro.
E nós, como éramos crianças, acreditávamos.
Um dia meu primo, que hoje é advogado, por descuido acabou caindo no fundo do poço.
A Voz: Meu Deus! E se machucou muito?
O Agente: Fisicamente, não.
O Agente: Mas como estava apavorado e levou algum tempo para que o resgatassem, ele ficou muito desesperado.
Por sorte e por azar, ainda havia um pouco de água no fundo do poço.
Por sorte, isso amorteceu sua queda.
Mas, ao mesmo tempo, com a luz que entrava no buraco e rebatia na água, ele acabou vendo o seu próprio reflexo.
Por fim, quando o içaram, eu corri e perguntei a ele:
''E então, como é o monstro?''
''Ele é como nós. Todos somos monstros.''

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