Zizi Possi celebra a identidade
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quarta-feira, 08 de abril de 1998
Zeca Corrêa Leite 
ReproduçãoZizi Possi: novo disco é dedicado aos imigrantes de alma, gente que está sempre se jogando ao desconhecidoZizi Possi está feliz da vida. Gravou um disco pela PolyGram - Per Amore - que é uma viagem minha dentro da música, e montou um show onde é acompanhada por uma orquestra. O empreendimento é caríssimo e só terá continuidade se aparecer um patrocinador. Curitiba teve o privilégio de assistir ao espetáculo porque a cantora apostou na comunidade italiana. Mesmo assim tinha lá suas ressalvas, às vésperas da apresentação, ocorrida na quarta-feira, no Guairão. Se tiver 70% da casa cheia, ainda assim estarei perdendo dinheiro.
Para a cantora este trabalho tem como consequência primeira dar carona a uma porção de gente interessada em empreender um passeio com ela pelos sons italianos. Mais do que uma homenagem, esta é uma celebração de identidade e da verdade que está dentro de cada um. O disco não é direcionado apenas aos imigrantes da terra de seus antepassados, mas aos imigrantes de alma.
Ou seja, a todos aqueles que um dia se jogaram na tentativa de novos portos, em verdadeiras aventuras oceânicas dentro de seu íntimo. No fundo todos nós somos assim. A gente está sempre se jogando através do abismo, do desconhecido, indo para o outro lado do continente, cruzando mares de incertezas, deixando as histórias do passado para trás, porque elas não podem mais ser tocadas. Passado é memória, e acabou.
Per Amore reúne canções recentíssimas e as resgatadas de outras épocas. Essas foram resgatadas pelo irmão José Possi Neto. Zizi explica que a escolha teve uma coisa de memória, dos tempos em que os oito filhos do velho Luigi - avô da cantora - almoçavam com os pais nos domingos. Tiravam as travessas da mesa, e ali mesmo começavam as cantorias. Tudo isso ajudou a gerar o disco.
No cotidiano era assim: Luigi almoçava e antes da sesta pedia à Zizi que tocasse alguma canção napolitana ao piano. Ouvia, chorava, agradecia. Dizia que queria ver Nápoles para morrer. Ele sabia que não poderia realizar esse sonho. Era de uma tristeza..., relata a artista.
Talvez por isso seu disco tenha a saída e o retorno a Nápoles. Já que pude desenhar minha história, desenhei um final feliz. Um trecho da última faixa de Per Amore diz: Hoje estou chegando aqui, estou tão alegre, que quase, quase, comecei a chorar. É verdade ou não é verdade que estou de volta a Nápoles?
Zizi Possi afirma que seu último CD, assim como os anteriores, trazem a minha cara. Quem acompanha sua trajetória acredita que a mudança de rumo para um terreno de absoluta sofisticação aconteceu com a gravação de Sobre Todas as Coisas. Ela explica que a ocorrência se deu pouco antes, com Estrebucha Baby, de 1989, também da PolyGram.
Para gravá-lo foi um sufoco. Os executivos reclamavam que não ia tocar nas rádios, e para gravar Meu Erro, só com piano e voz, consumiram-se três dias. Enquanto a cantora ia por um caminho, a direção vinha por outro. Resultado: foram editados tão somente 20 mil discos, Zizi encerrou o contrato com a gravadora e a princípio ficou sem saber o que fazer.
Não tinha gravadora, não tinha nada. Não sabia o que ia acontecer da minha vida, se ia criar galinha ou continuar trabalhando com música, lembra. Foi quando chegou um convite de Curitiba para apresentar-se no Paiol. Bateu o desespero, até que ela começou a rir de si mesma. Sua bobinha, pára de ficar com medo. Agora que você não tem nada, tem a melhor coisa do mundo chamada liberdade.
Contatou um pianista e um percussionista, e partiu para o repertório do que seria o show Sobre Todas as Coisas. A primeira música escolhida foi Sentimental Demais, que tinha sido sucesso de Altemar Dutra. A receptividade curitibana foi tamanha que o show correu o Brasil, transformou-se em disco, em 1990, pelo selo Eldorado, os elogios vieram em enxurrada e mais tarde, dentro desse mesmo conceito, surgiu Valsa Brasileira. Desta vez pela Velas.
Esses lançamentos ficaram restritos a algumas regiões brasileiras, por problemas de distribuição. Aí as grandes gravadoras começaramm a disputar o passe de Zizi. Falei, bom se eu puder crescer mantendo dignidade, liberdade tanto de locomoção - digamos assim - como de tempo e de liberdade criativa, por que não crescer?
Ela queria ter sua música em Manaus, Rio Branco e isso só seria possível numa grande empresa. Por coisas do destino acabou voltando para a PolyGram, onde estivera durante 12 anos,os primeiros 12 anos da minha vida profissional, sublinha. Ela sabe que hoje pode dar as cartas, porém evita comentários afins. Diz apenas que a gravadora está com uma equipe graças a Deus bastante diferente daquela que a fez esperar três dias para cantar acompanhada por um piano acústico.


