Para quem não está satisfeito com a massificação do pagode, do sertanejo e dos rebolados nacionais, o jornalista e humorista Ziraldo Alves Pinto tem uma solução. Este mês, ele está lançando a revista ‘‘Palavra’’, que pretende mostrar que a produção cultural do País vai muito além do que é mostrado atualmente pela mídia. Segundo Ziraldo, este será apenas o começo. Em junho, acontecerá o lançamento nacional da aguardada revista ‘‘Bundas’’, também idealizada por ele, e que será pura reflexão.
Ele explica que a diferença entre as duas publicações é que ‘‘Palavra’’ será um cult, com previsão de manter uma média de 20 mil leitores por edição mensal, enquanto a ‘‘Bundas’’, com humor bem mais apimentado, deverá ser um best seller, atingindo uma tiragem superior a 200 mil cópias. Ambas serão produzidas pela Editora da Palavra, de Belo Horizonte, e impressas em Curitiba, pela gráfica Posigraf.
‘‘As revistas deverão agradar a quem gosta de ler, a quem não quer comprar feito, a quem não gosta de Tchan e de pagode, a quem não sente prazer em ouvir Chitãozinho e Xororó e a quem ainda tem forças para remar contra a mar钒, explica.
ReproduçãoPáginas da revista ‘‘Palavra’’: publicação pretende mostrar que a produção cultural do País vai muito além do que é mostrado pela mídiaEle esclarece que a intenção não é elitizar, mas suprir uma carência enorme que se formou no País. ‘‘Recebo muitos e-mails de pessoas simples e que também não estão satisfeitas com a situação’’, conta ele. Segundo Ziraldo, o público que assina revistas estrangeiras ou que procura ‘‘desesperadamente’’ por algo com um bom conteúdo cultural através da Internet é a prova de que existe uma lacuna a ser preenchida.
A revista ‘‘Palavra’’ pretende fazer isto. Fora do eixo Rio/São Paulo, a publicação mineira será uma ‘‘aventura jornalística’’. Ziraldo explica que, por questões financeiras, a primeira edição (que já está nas bancas) ficou com a cara de Minas Gerais. ‘‘Mas a nossa idéia é abrir rapidamente a revista para todo o País, com a ajuda de correspondentes e colaboradores’’, explica.
Com espaço para resenhas e reflexões, a publicação terá ainda o mais completo roteiro cultural do Brasil, além de entrevistas, sessões de humor e ensaios fotográficos, sempre enfocando os temas arte e cultura. ‘‘Além disso, ‘Palavra’ será graficamente a revista mais bonita do Brasil.’’
Ziraldo explica que o mais importante é que a revista ‘‘não passe pelo filtro de São Paulo’’, como acontece com a maioria absoluta das publicações. ‘‘Exceto a imprensa diária, nenhuma mídia do País está fora de São Paulo’’, denuncia. ‘‘Toda a visão jornalística do Brasil vem de lá.’’
A proposta é que ‘‘Palavra’’ crie rapidamente uma rede de colaboradores que abranja todos os Estados, de acordo com o interesse demonstrado por cada cidade, partindo de Belo Horizonte. ‘‘A cidade é o coração do Brasil’’, enaltece Ziraldo.
Ele informa que há grande expectativa no crescimento da revista em Curitiba. ‘‘Acho que a cidade irá incorporar bem a ‘Palavra’, até mesmo porque ela é um pouco parecida com Belo Horizonte.’’ Ziraldo comenta que sempre sentiu uma ‘‘inveja boa’’ da capital paranaense.
Com formato tablóide e 148 páginas coloridas voltadas para a área de cultura, arte, comportamento e idéias, a revista ‘‘Palavra’’ lutará contra todas as imposições da mídia. ‘‘Não faremos pesquisa para saber o nosso retorno, trabalharemos apenas com feeling, exemplifica. ‘‘Sabemos que a revista será lida por quem gosta de boa conversa e por quem tem respeito pela palavra’’, diz Ziraldo.
Por falar em palavra, ele comenta que estranhou muito o fato de que ninguém tenha usado antes este nome para batizar uma revista e uma editora. ‘‘Quando fui registrá-lo, fiquei espantado que o nome mais óbvio para uma publicação estivesse lá, esperando por mim’’, diz. ‘‘Parece que aquela era a primeira editora do País.’’
Em sua primeira edição, a revista apresenta uma entrevista inédita, de 12 páginas, com o historiador Francisco Iglésias, feita poucas semanas antes de sua morte. Segundo o diretor de redação da revista, Tonico Mercador, a entrevista do professor se tornou um documento histórico.
As outras páginas revelam assuntos e agendas culturais de outros Estados. A matéria de capa mostra o espetáculo ‘‘O Visconde Partido ao Meio’’, de Ítalo Calvino, produzido pelo Grupo Galpão. Na sessão Perfil, a revista estréia com a entrevista da mecenas, colecionadora e empresária Angela Gutierrez.
No setor das artes plásticas, Antônio Poteiro revela um ensaio inédito sobre todos os caminhos da sua criação. Nas páginas direcionadas à música, o destaque é para o mais premiado compositor de trilhas sonoras do cinema brasileiro, Tavinho Moura.
A sessão Retratos, que mostra as diversas faces do talento brasileiro, será inaugurada por Paulinho Assunção, Sílvia Klein, Toninho Horta e Jorge dos Anjos.
Além dos assuntos culturais, ‘‘Palavra’’ trará sempre uma grande reportagem de viagem. Na primeira edição, a revista apresenta uma viagem de dez dias em busca dos vestígios da primeira estrada por onde escoou o ouro de Minas Gerais para Portugal, no início do século 18, a Parati-Diamantina.
A revista foi criada por um grupo liderado por Ziraldo e formado por Tonico Mercador, Nely Rosa, Zélio, Ziralzi, Bete Pimentel, Sylvio de Podestá, Ieda Ferreira, Mário Vale e José Eduardo Gonçalves. Entre os colaboradores da primeira edição estão Mauro Santayanna, Frei Beto, Cristóvam Buarque e Ronaldo Fraga.
Segundo Ziraldo, a publicação é uma soma das revistas ‘‘República’’ e ‘‘Bravo’’, readaptada aos tempos atuais. ‘‘Muita coisa mudou, mas a nossa indignação e o nosso talento continuam os mesmos’’, afirma.
A revista ‘‘Palavra’’, com 148 páginas, é uma publicação da Editora da Palavra e já está disponível nas bancas.Agência EstadoZiraldo: ‘‘Revistas deverão agradar a quem não quer comprar pronto e ainda tem forças para remar contra a mar钒Simone Mattos

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