ZIMBO TRIO COMEMORA ANIVERSÁRIO
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Após 35 anos de carreira, o conjunto Zimbo Trio reuniu num mesmo CD músicas de Vinícius de Moraes, João Bosco, Tom Jobim, Ary Barroso e outros compositores
Letras douradas e brancas sobre fundo azul: Zimbo Trio 35 anos ao vivo. A capa do CD em fase de lançamento pela Movieplay retrata o conjunto naquilo que se refere à elegância, bom gosto, enfim, uma coisa clean. As gravações ao vivo, extraídas de show realizados entre 1996 e 1998, celebram entre sons e aplausos o aniversário do trio.
O Zimbo é o conjunto instrumental mais antigo da música brasileira, que nunca deixou de tocar, nem teve substituído nenhum de seus integrantes. Hei, Guinness Book of Records, o que você está fazendo que ainda não registrou essa façanha do Zimbo Trio?, cutuca Ruy Castro, autor de Chega de Saudade, no encarte do disco.
Como se fosse um único espetáculo, o CD traz dez faixas, com músicas de João Bosco/Aldir Blanc, Tom Jobim/Vinícius de Moraes, Ari Barroso, Edu Lobo/Chico Buarque e uma composição de Luiz Chaves, Choro para Contrabaixo. Milton Nascimento ganhou um tributo, onde são apresentadas sete parcerias suas.
Garota de Ipanema, que está na quarta faixa, continua sendo tocada de acordo com o primeiro arranjo pelos três. Ninguém briga com ela porque ela é dos três, explica o baterista Rubinho (Rubens Barsotti).
Na passagem destes 35 anos muitos foram os grupos que nasceram e morreram, deixando para a posteridade, em sua maioria, os velhos LPs. O Zimbo continua na ativa, como uma espécie de história viva destas três décadas e meia musicais. No momento mais fascinante da televisão brasileira, lá estava ele ocupando o palco do Teatro Record, nas sessões do Fino da Bossa, apresentado por Elis e Jair Rodrigues.
Das temporadas com Eliseth Cardoso ficaram os registros de É de Manhã e Zimbo e Eliseth Balançam na Sucata. No histórico show do Teatro João Caetano, com Elizeth, Jacob do Bandolim e o regional Época de Ouro tem CD do espetáculo no Japão , também estava o Zimbo. Os grandes nomes uniram-se ao trio e uma das imagens mais marcantes da euforia musical dos anos 60 de um lado a Jovem Guarda, de outra a MPB eram as presenças Rubens Barsotti, o Rubinho, na bateria; Luiz Chaves, no contrabaixo e Amilton Godoy, no piano, tocando no ambicionado palco da TV Record. Pintado de branco o piano era como uma marca da emissora que sediava os grandes musicais. A origem de sua cor remontava ao ano de 1959, quando Nat King Cole veio ao Brasil e exigiu um piano branco para tocar. Ficou como um dos instrumentos do teatro, porque no estúdio havia um tradicional Steinway, lembra Rubinho.
Aliás, foi ele que sugeriu a criação do Zimbo Trio. No dia 7 de setembro de 1963 o baterista estava voltando ao Brasil, vindo do Chile, e comentou com Luiz Chaves sua vontade de criar um grupo digno, senão deixaria a música. Mais tarde encontraram Amilton na Baiúca, em São Paulo, que aceitou de imediato o convite para integrar o trio.
Queria uma formação que acima de tudo tivesse dignidade, conta. Afinal os três estavam apostando todas as fichas no novo grupo, deixando para trás o trabalho que realizavam de acompanhar artistas importantes. A filosofia era uma só e continua até hoje: Somos veículos da música, nunca quisemos estar acima dela, porque nós vamos e ela fica.
Foi no dia 17 de março de 1964 que a platéia viu e ouviu pela primeira vez o Zimbo Trio, acompanhando Norma Bengell. Estava lançada a sorte, com um nome incomum para os brasileiros. Rubinho, em entrevista exclusiva à Folha Dois, contou como chegou a ele:
Queria colocar um nome impessoal para o conjunto. Zimbo era uma palavra africana que designava uma concha; séculos atrás, no Congo, serviu como moeda, e depois passou a simbolizar sucesso, felicidade.
Com esses augúrios batizou o trio que se transformou em sinônimo de qualidade. Resistindo como pode às ondas da moda, o conjunto mantém-se na sua proposta inicial. Estamos fazendo a nossa verdade, afirma o baterista. Para ele a falta de espaço nos meios de divulgação não incomoda, mas ressente-se de que no Brasil a música tenha sempre uma única feição. Aqui a onda do momento exclui os demais gêneros musicais.
Muita gente desapareceu por causa do modismo e isso me entristece. Todo país tem vários caminhos culturais ao mesmo tempo; nos Estados Unidos você ouve nas rádios do bep-bop às músicas de vanguarda. Tudo é noticiado, divulgado. Lá, as pessoas não são escondidas, esquecidas como aqui. Parece que ainda hoje somos influenciados pela monocultura do café. Por que devemos ter sempre apenas um bom? Por que não dois?
Rubinho comenta que infelizmente o Zimbo Trio apresenta-se mais no exterior que no Brasil. São célebres suas turnês pelo Japão, e entre junho e julho deste ano estiveram em Portugal e Itália. Na Itália apresentaram-se durante cinco dias numa fortaleza, ao ar livre, para cerca de 1.500 pessoas. A média foi de cinco bis a cada espetáculo, e devido ao sucesso os brasileiros já acertaram a volta para o início do próximo ano.
A situação econômica do País inviabilizou algumas excursões do grupo. Entre agosto e outubro, houve seis cancelamentos, segundo Rubinho. Ano passado foram 15. Quando isso não acontece, o retorno é gratificante. No começo deste ano quase 2 mil pessoas lotaram o Sesc de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, para ouvir o Zimbo num show que homenageou Elis Regina. Pois é, tem muita gente querendo vivenciar a história sonora de Amilton Godoy, Luiz Chaves e Rubens Barsotti.
Zimbo Trio 35 anos ao vivo. CD da Movieplay do Brasil, traz uma seleção ao vivo com músicas de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Milton Nascimento, Chico Buarque e outros. Contato para shows: 11-542-4966, com Ricardo.





