Zhang Yimou resgata a essência do ser humano em seu novo filme
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2000
Por Rui Martins 
Berlim, 15 (AE) - Não é comum haver obras-primas em festivais de cinema. Mas já é quase uma rotina o cineasta chinês Zhang Yimou fazer obras-primas. Yimou, que em setembro ganhou o Leão de Ouro, em Veneza, mostrou hoje, em Berlim, seu último filme, "O Caminho de Casa", uma autêntica obra-prima. O filme é um forte concorrente ao Urso de Ouro.
"O Caminho de Casa" é uma história simples de amor de uma jovem de um pequeno povoado pelo seu professor primário. A garota faz de tudo para chamar a atenção de seu amado mas, quando consegue, o jovem professor é transferido por problemas políticos. Uma alusão, provavelmente, à juventude do próprio cineasta que por pouco não perdeu a chance de se inscrever na escola de cinema de Pequim. Zhang Yimou conta que quase deixou de fazer a escola de cinema por não ter se inscrito a tempo, dado o clima de agitação, em 1978, em consequência da Revolução Cultural.
Aliando uma fotografia e trilha sonora perfeitas com a leveza e beleza da atriz Zhang Zihi, o filme se transforma em uma poesia visual. A história de amor da mãe pelo pai - que originou o sólido casal- é contada pelo filho, vindo da cidade. Pergunta - Seu filme anterior também tratava de um professor primário. Esse tema lhe é próximo? Zhang Yimou - Meus dois filmes tratam de escola. Na verdade, eu queria utilizar só um dos dois roteiros, mas vi que poderia fazer dois filmes totalmente diferentes. Pergunta - Esse filme não seria exibido em Cannes? Zhang Yimou - Sim, mas houve diferença de apreciação quanto ao filme porque eu não tinha nenhuma intenção de fazer um filme político. Pergunta - Em uma cena do filme, os carregadores do caixão recusaram dinheiro, por quê? Zhang Yimou - Essa atitude é bem particular. Na China de hoje muita coisa mudou e, sem dinheiro, não se pode fazer nada. Quis mostrar como as pessoas eram simples e veneravam o professor e como seria a China que eu desejaria. Pergunta - Por que a separação do casal pela Revolução Cultural? Zhang Yimou - Poderia ser uma história de amor com um caminho diferente. Mas é evidente que o professor foi parar naquele lugar por problemas políticos. Esse conteúdo político não se encontra no centro do filme, mas faz parte da história e mostra que existe pessoas que lutam contra a situação, no caso, a personagem luta contra o destino imposto por circunstâncias externas. Eu nao queria mostrar como se desenvolvia a política nessa época, pois já existem muitos filmes a esse respeito. Eu queria apenas mostrar como esse dois seres estavam próximos um do outro, através da narração do filme. Pergunta - Qual o motivo da presença de um cartaz do "Titanic" em uma cena de seu filme? Zhang Yimou - Isso não foi programado. A realidade é que na China de hoje, mesmos nos lugarejos mais distantes, se vêem esses pôsteres; nos apartamentos ou nas casas dos camponeses. Ao lado das imagens tradicionais, existem as coisas modernas que chegam da cidade. "Titanic" foi muito falado na China, mesmo se as pessoas não sabem exatamente do que se trata. Alguma coisa super, nova, que vem da cidade. Pergunta - Fale sobre a indústria cinematográfica chinesa. Zhang Yimou - Os filmes americanos chegaram na China e são muito bem recebidos, criando dificuldades para os filmes chineses. Atualmente se discute como tornar os filmes nacionais atrativos para o público. Pergunta - Há uma perda dos valores na China moderna? Zhang Yimou - Há poucos filmes como esse, hoje, na China. Só se fazem filmes de divertimento, calcados em cima de Hollywood. No meu filme eu quis exprimir uma esperança minha de que na China nem tudo é comercial, nem tudo é mercadoria. É preciso se lutar contra isso e buscar de novo os verdadeiros valores. Pergunta - O que o levou a fezer este filme? Zhang Yimou - Meu pai tinha morrido em Florenca e eu não pude chegar a tempo. Só consegui ir após terminar meu trabalho e cheguei tarde demais. Quis também mostrar como duas pessoas podem estar próximas; a proximidade entre duas pessoas, num mundo cada vez mais tecnológico e baseado em computadores. Não consigo imaginar o que será daqui a 200 anos, talvez, só técnica e máquinas. Mas acho que o importante são os sentimentos, a consciência das pessoas, a essência do ser humano.


