Zhang Yimou de volta à beleza trágica em 'Flores do Oriente'
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quinta-feira, 19 de julho de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Correndo em meio à neblina e ao som de tiros, é sob a perspectiva dos olhos de duas garotas chinesas que um cenário horripilante é lentamente revelado ao espectador. A visão é de uma cidade destroçada, com milhares de corpos empilhados e crianças deformadas pelas explosões. O ano é 1937, e este é o ambiente apocalíptico deflagrado pela invasão japonesa à metrópole chinesa Nanjing, em um conflito que marcou uma das mais cruéis expedições militares do séc. XX, e que acabou sendo conhecido historicamente como ''O Estupro de Nanjing''. Estreando hoje na programação dos Cinemas Lumiére, a superprodução chinesa ''Flores do Oriente'' não economiza recursos para contar uma história de solidariedade, mergulhada no horror da guerra.
No meio do combate entre as tropas chinesas e japonesas, um golpe do destino faz os caminhos do coveiro americano John Miller (Christian Bale), se encontrarem com o da pequena Shu (Zhang Xinyi), escondida em um dos destroços. O americano não está interessado em nenhuma das partes dentro do conflito; agindo como um 'caçador de recompensas', está ali para chegar à Catedral de Winchester e enterrar o padre europeu que antes cuidava do local. Shu conhece o caminho, e serve como um guia para o estrangeiro.
Praticamente sem danos, a catedral é considerada um espaço neutro dentro do campo de guerra, e está (supostamente) livre da ação de qualquer um dos exércitos. Lá dentro, moram várias meninas do coral, e o único que fala inglês é o simpático coroinha George Chen (Huang Tianyuan). Logo John percebe a cilada em que entrou - nada restou do corpo do padre, que foi explodido por uma granada, e o coroinha não tem dinheiro. Inconformado, John resolve dormir uma noite ali, até achar alguma coisa de valor que possa levar para casa.
A dinâmica da catedral muda definitivamente com a chegada de outros refugiados: do 'Bairro Vermelho'', as garotas lideradas pela bela Mo Yu (Ni Ni) pulam os muros da igreja e, surgindo dos escombros de uma livraria vizinha, um soldado desesperado busca medicamentos para um jovem companheiro ferido. Reunindo um grupo peculiar, a crueldade da guerra tem o poder de aproximar garotas religiosas, prostitutas, um soldado doente e um bêbado aproveitador; no meio da luta pela sobrevivência, a compaixão começa, gradualmente, a guiar o caráter desses personagens.
Com uma habilidade invejável, o veterano cineasta chinês Zhang Yimou (mesmo dos filmes ''Herói'' e ''Clã das Adagas Voadoras) abusa da câmera na mão, com movimentos de travelling sufocantes e que exprimem o mesmo tipo de urgência que observamos em super produções americanas como ''O Resgate do Soldado Ryan'' e ''Falcão Negro em Perigo''. Tecnicamente, Zhang mostra que não deve nada a Spielberg ou Ridley Scott, arriscando ângulos e planos-sequência espetaculares.
Mesmo se utilizando de um 'arco' de redenção bastante previsível - onde o bêbado acaba se transformando em herói - e se prolongando um pouco além do tempo necessário (com quase 2 horas e meia de projeção), o longa ''Flores do Oriente'' compensa parte de sua ingenuidade narrativa com atuações fortes de seus protagonistas e uma produção impecável. O único problema é que, enquanto ficamos hipnotizados pelos seus ótimos efeitos visuais, o drama humano que a história real representa acaba sendo, inevitavelmente, subestimado.


