Zero a zero
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Geraldo Bessa<br>TV Press 
Em tempos de Copa do Mundo, fica praticamente impossível fugir das incontáveis matérias de cunho esportivo que invadem a programação da tevê aberta. É até natural que toda a grade se "vista" de verde e amarelo e acompanhe os passos das seleções na busca por "furos" e curiosidades. No entanto, deixando-se levar mais pela emoção do que pela informação, matéria-prima de qualquer noticiário, o que se vê na tela de emissoras como Globo, Band, SBT e Record em programas esportivos ou não é a total falta de assunto. A situação pode ser pior: quando existe algum tema relevante, a abordagem soa totalmente rasa e artificial. Com jornalistas sem perguntas criativas e entrevistados sem muito o que dizer, quando a bola não está rolando, o telespectador tem de aguentar uma infinidade de "questionamentos" como "Qual a sensação de fazer o gol?" ou "No que você pensou antes de fazer tal jogada?". Como se, no calor do momento, os atletas tivessem tempo ou preocupação para tais reflexões.
Com direito de transmissão, Band e Globo até conseguem fazer um trabalho mais sério. Mas ainda caem em pautas desinteressantes, bem à altura das feitas por programas como "Esporte Fantástico" e "Domingo Espetacular", da Record, e "Arena SBT", que correm atrás de parentes, ex-namoradas, flertes e amigos de longa data dos principais jogadores da seleção brasileira. No "Esporte Espetacular", por exemplo, Glenda Kozlowski apela para o emocional ao tentar conversar de forma mais aprofundada com as mães dos jogadores no quadro "Palavra de Mãe". Saindo da área sentimental, ainda existe espaço para matérias de teor humorístico com sósias de atletas e técnicos, "especiais" só com animais "videntes" que "antecipam" o placar dos jogos da Copa e análises do grau de estrutura física e sensualidade dos destaques de cada seleção. Tudo repetido e reciclado sem qualquer critério pelos canais.
A falta de criatividade em se adequar à temática da Copa do Mundo só evidencia o que o telespectador já vive diariamente. Independentemente de eventos importantes, na cobertura jornalística das emissoras nacionais, sobram opiniões leigas e sentimentais, onde deveria haver explicações técnicas e depoimentos de quem realmente tem a ver com o ocorrido. Ironicamente, a teledramaturgia é quem passa a ser mais cobrada ao abordar assuntos do cotidiano, como doações de órgão e homofobia, enquanto os telejornais esvaziam suas reportagens. É nessa linha que programas como "Fantástico" deixam de ser referências de boas matérias e perdem audiência. E proliferam-se produções onde informações soam institucionais e o assunto nunca é repercutido de maneira clara e relevante, como o "Fala Brasil", da Record, e o "Notícias da Manhã", do SBT.


