Em menos de um ano, após a morte de seu marido, o escritor Jorge Amado, a escritora Zélia Gattai, 85, lançou dois livros. O primeiro, ‘‘Códigos de Família’’, chegou às livrarias no ano passado e o segundo, no último sábado, dia 27, na 17ª edição da Bienal do Livro de São Paulo. Ambos falam de sua vida ao lado de Amado, o que, segundo a escritora, é o mesmo que trazê-lo de volta à vida.
Memorialista e contadora de histórias por vocação, Zélia começou a escrever aos 63 anos e até hoje brinca com o fato de ser chamada de escritora, mesmo depois de ter sido eleita imortal da Academia Brasileira de Letras.
Foi assim em uma palestra realizada na sexta-feira passada na Bienal do Livro.
Ser eleita para a cadeira que pertencia a Jorge Amado na ABL não provocou mudanças na vida de Zélia Gattai, mas a perda do marido em agosto do ano passado, sim.
Mais uma vez escrevendo as memórias sobre sua vida com o escritor baiano conhecido internacionalmente, ela lança ‘‘Jorge Amado - Um Baiano Romântico e Sensual’’, pela editora Record.
O livro, escrito por Zélia e pelos filhos Paloma e João Jorge, é definido pela escritora como ‘‘um livro de amor e uma homenagem’’ a Jorge Amado. Leia a seguir trechos da entrevista com a escritora.
O que mudou na rotina da família com a morte de Jorge Amado?
Cada qual continua na sua casa e eu continuo na minha. Eu tenho dois cachorrinhos que são meus amiguinhos, meus companheiros. Eu estou aqui (Zélia está hospedada em um hotel de São Paulo para participar da Bienal do Livro) morrendo de saudade e de pena deles. Meus filhos vão em casa todos os dias e nos falamos muito por telefone.
Como foi o processo de criação do livro?
Cada um na sua casa...
Vocês só viram o que o outro escreveu depois de o livro ficar pronto?
Só depois de pronto. São três livros. Não tem nada uma coisa com outra. Cada qual escreveu sua parte e acabou-se.
Teve alguma coisa que a senhora só descobriu depois que leu o livro?
Um exemplo é contado pela Paloma quando ela era bem pequena ainda, devia ter uns seis anos. João não deixava ela brincar com o álbum de figurinhas dele. Paloma era desprezada, era considerada pirralha. Um dia Jorge a viu assim triste e perguntou o motivo. Aí ela explicou e ele disse para os dois fazerem um álbum. Todos os dias ele voltava para casa sempre com os bolsos cheios de figurinhas que os dois colavam e não deixavam ninguém chegar perto. A criança nunca esquece. Então ela disse: ‘‘Eu tinha um pai, um homem tão importante e, no entanto, ele era meu companheiro de figurinha’’.
O que mudou em sua vida depois da nomeação para ocupar uma cadeira na ABL (Academia Brasileira de Letras)?
Na minha vida particular não creio que tenha mudado nada. Em mim, dentro de mim, não mudou não. Agora... tive mais trabalho. Tive que escrever três discursos. Um discurso para a Academia deve ser uma coisa bem pensada e trabalhada. Eu também fui eleita para a Academia de Ilhéus, onde já tomei posse, e para a Academia de Letras da Bahia, que eu também já tomei posse. Agora vai ser a da Academia Brasileira de Letras, que vai ser no dia 21 de maio.
Como a senhora recebeu as críticas em função de sua candidatura para a ABL justamente na cadeira que era de Jorge Amado?
Eu sou uma pessoa muito vivida. Já tenho 85 anos, tenho uma experiência imensa de vida e conheço muito a raça humana, de maneira que isso para mim foi nada. Nem tomei conhecimento. Quem veio me dizer, eu disse: ‘‘deixa que falem’’. Eu sou pela democracia: cada qual diz o que pensa.

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