Zélia Duncan homenageia Itamar Assumpção
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domingo, 30 de dezembro de 2012
Marcos Roman<BR>Reportagem Local 
Um dos principais nomes da Vanguarda Paulistana (movimento artístico da década de 80), Itamar Assumpção acaba de ganhar um belíssimo tributo da cantora Zélia Duncan. A intérprete de timbre grave e sensual traz para o universo pop 13 canções do compositor rotulado como maldito pela ousadia de sua obra e indomada personalidade que nunca se deixou levar pelo sistema capitalista das gravadoras acostumadas a produzir hits efêmeros.
Admiradora de Itamar desde a adolescência, Zélia já havia gravado 11 músicas compostas por ele em seus discos de carreira. "Tudo Esclarecido", o novo álbum, produzido por Kassin e lançado pela gravadora Warner Music, comprova o clima atemporal das canções de Assumpção e de suas letras claras e diretas, muitas vezes irônicas e sempre provocativas.
O repertório do CD é composto de sete regravações, entre elas Mal Menor (1988), Noite Torta (1993) e Cabelo Duro (2004), e seis faixas inéditas (quatro delas compostas em parceira com a poeta paranaense Alice Ruiz). A sonoridade moderna e enxuta dos arranjos e o canto sem firulas de Zélia valorizam a força das palavras de Itamar. Com uma mistura de ritmos que passa por xote, samba, rock e funk, Zélia produziu um dos melhores álbuns do ano. No CD que já nasce clássico, a cantora divide os vocais com Ney Matogrosso na regravação de "Isso Não Vai Ficar Assim" (1986) e Martinho da Vila na inédita "É de Estarrecer".
Com trajetória coesa que prima pela qualidade das canções e pelo canto sem exageros - apesar da potência de sua voz -, Zélia tem se dedicado a jogar holofotes em compositores com pouca visibilidade. Atualmente a cantora se divide entre as apresentações do premiado espetáculo "Tô Tatiando", em que visita a obra do compositor Luiz Tatit misturando música e teatro, e os ensaios do show baseado no CD em homenagem a Itamar Assumpção. O novo espetáculo tem estreia agendada para o dia 3 de janeiro, no Sesc Pinheiros, em São Paulo, onde fica em cartaz por duas semanas antes de sair em turnê nacional.
Em entrevista à FOLHA por telefone, a cantora falou do novo trabalho e da relação dela com Assumpção, que nasceu em Tietê (interior de São Paulo) e passou parte da infância e a adolescência nas cidades de Arapongas e Londrina.
Como e quando você descobriu a obra do Itamar?
Foi meu irmão mais velho que me apresentou a Vanguarda Paulistana de Itamar e Arrigo (Barnabé), em 1981 ou 1982. Eu era adolescente e estava começando a cantar. Pra mim foi um choque. Ouvir Clara Crocodilo e Beleléu foi uma coisa que mudou minha vida e meu jeito de ouvir música. As músicas de Itamar vêm me acompanhando desde essa época.
O que te chama atenção na obra dele?
O poder que ele tem de usar palavras absurdamente comuns e corriqueiras. Sou uma caçadora de palavras e quando você ouve a música do Itamar se pergunta: por que não pensei nisso antes? É algo genial. Mesmo as coisas que parecem mais leves estão sempre dizendo algo muito profundo. Ele não consegue ser mais ou menos nem quando tenta ser menos "profundão". É muita consistência. É o que me faz pensar na vida, no que eu ouço. O nível de exigência que você tem que ter com você e com os outros também. Então você não engole qualquer coisa, não dá. A gente ficar perto dele é optar pela inteligência.
Essa admiração acabou influenciando sua obra de alguma forma?
Quero crer que sim. Vou adorar que um dia alguém me diga isso. Porque através das coisas dele estou dizendo coisas que quero dizer também.
Você conheceu o Itamar pessoalmente?
Graças a Deus! Ficamos amigos. Cantei em shows dele e ele nos meus. Fomos à casa um do outro diversas vezes. No Pretrobrás (disco gravado por Itamar em 1998) eu gravei "Dor Elegante" com ele. Tenho fotos com ele no estúdio. Tanto que ele fez uma música maluca pra mim no tempo que a gente era próximo (referindo-se à canção "Zélia Mãe Joana", gravada no novo disco).
Com a proximidade essa empatia aumentou?
Virou amor, uma relação super carinhosa. Ele sabia disso e eu também. Era legal. A gente era de universos muito diferentes, mas fomos descobrindo coisas em comum.
Como foi o processo de seleção de repertório?
Foi doloroso. Tive que abrir mão de um monte de músicas. Mas depois foi fazendo tanto sentido pra mim o que ficou, o que escolhi junto com o Kassin. Estou tão feliz com essas escolhas. O que eu mais adoro é sonoridade, poder gravar tudo junto com os músicos. Não são músicos repetidores, são criadores. É um aspecto muito interessante. Fico muito feliz com isso.
O disco vai ganhar os palcos?
No dia 3 de janeiro a gente estreia em São Paulo, no Sesc Pinheiros. Serão duas semanas em cartaz. O roteiro está pronto e o cenário vai ser lindo de morrer.
Pretende trazer o novo espetáculo pra Londrina?
Claro que pretendo. Só não vou quando não rola, mas nunca é por minha causa. Pode ter certeza disso.
Você já visitou a obra do Luiz Tatit e agora a do Itamar Assumpção. Tem planos de gravar outros songbooks?
Não. Com certeza, não. Fiz isso com as obras do Tatit e do Itamar porque acho que elas merecem visibilidade, mas não vejo razão para regravar um disco só com as músicas de um compositor como do Caetano Veloso, que eu adoro, pois ele já mantém sua obra up to date. Fazer um songbook só por falta de opção seria oportunismo.
Serviço:
"Zélia Duncan Canta Itamar Assumpção Tudo Esclarecido"
Gravadora Warner Music
Preço sugerido R$27,90, R$39,90 (digipack) e R$ 94,90 (embalagem deluxe com luva e encarte com 20 páginas)


