A gangorra dos ciclos musicais pendeu nesta temporada para o tom intimista. Mas o maranhense Zeca Baleiro já visitou o outro extremo, o da poliritmia dançante e eletrônica. É um artista em progressão que, após lançar três álbuns, finalmente se apresenta em Londrina. O show é hoje, a partir de 23 horas, no Canadá Country Club.
Baleiro sobe ao palco apenas com o violão, sem banda de apoio. O repertório vai reunir músicas de seus três discos e pelo menos uma inédita - ''Um Filho e um Cachorro''. ''O roteiro é livre. Talvez eu cante músicas de outros compositores'' - adiantou ele, em entrevista à Folha2 por telefone.
Quando despontou no mercado fonográfico em 1997, ele foi saudado como a ''revelação'' da temporada faturando o Prêmio Sharp de Música nesta categoria e nas de melhor música (''Bandeira'') e melhor disco (''Onde Andará Stephen Fry?''). O currículo, contudo, denunciava uma trajetória de mais uma década nas costas peregrinando pelos palcos alternativos de São Paulo ao lado do amigo e parceiro Chico César.
O trabalho de estréia abriu portas mesclando baladas inspiradas, regionalismo do Maranhão e influências de música caribenha. Pouco depois, a cantora Gal Costa o convidaria para fazer uma participação especial em seu álbum ''Acústico MTV'', o que ampliaria em pelo menos três vezes o público do compositor.
Em 1999, Baleiro lançou ''Vô Imbolá'' temperando um amálgama de ritmos com recursos eletrônicos. Não hesitou em inserir batidas techno no baião ''Pagode Russo'', de Luiz Gonzaga. A audácia foi bem recebida, a ponto da prestigiosa Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) atribuir-lhe o troféu de melhor cantor pop do ano.
O disco foi bem-sucedido também nas lojas atingindo a marca de 100 mil cópias vendidas. O sucesso, entretanto, não tornou o compositor refém de uma fórmula. No ano passado, ele mudou de rota orientando-se para uma estética despojada. O resultado foi o álbum ''Líricas'', repleto de canções ao violão com arranjos para cello, viola e violino. É a atmosfera desse disco que ele traz a Londrina. A seguir, a entrevista que o cantor e compositor concedeu.
Os seus discos variam do uso da eletrônica para o despojamento acústico. Qual vai ser o formato do show em Londrina?
Vai ser voz e violão. Tenho viajado pelo país com três formatos diferentes: o show ''Líricas'' com acompanhamento de três músicos; o show que chamo de 'power' com instrumental eletrificado; e um show mais intimista com voz e violão, que é como venho me apresentado no interior do Paraná. Em Londrina, vou fazer uma revisão da carreira cantando as músicas que não posso deixar de cantar e até arriscar um repertório inédito. O roteiro é livre. Talvez eu cante músicas de outros compositores e a inédita 'Um Filho e um Cachorro'', que vai entrar em meu próximo trabalho.
Na época do lançamento do ''Líricas'', no ano passado, você deu entrevistas declarando-se esgotado da sonoridade eletrônica presente no disco anterior ''Vô Imbolá''. Você continua pensando assim? Como será seu próximo trabalho?
Eu passei dois anos divulgando o ''Vô Imbolá'' num show que tinha momentos de refresco mas que usava muitos samples, loops, guitarra e percussão. Foi minha turnê mais 'rock'n'roll', mais catártica, mais explosiva. Daí deu um cansaço físico e mental e senti necessidade de uma atmosfera mais introspectiva. Notei que o pop, com o uso da tecnologia, ficou banalizado. Alguns artistas usam os recursos eletrônicos para dar um ar de modernidade a seus trabalhos disfarçando a pobreza das composições. Sempre procurei fugir disso. Vejo a tecnologia como um elemento adicional e não como meio para soterrar as canções. O 'Líricas', então, foi uma espécie de oásis. Passei a fazer shows intimistas tocando com apenas três músicos no palco, e todos de cordas. Nesse formato, o som sai límpido, cristalino. Mas agora, depois de um ano, sinto já um esgotamento da fórmula. Como já disse alguém, tudo o que é de mais é veneno. São ciclos. Para o próximo disco, pretendo combinar os dois extremos.
Percebe-se muitas referências literárias em seus discos. No ''Líricas'', por exemplo, você cita Ferreira Gullar, faz menção a Maiakóvski e ainda apresenta uma parceria com a poeta curitibana Alice Ruiz, além de musicar um trecho do poeta norte-americano e.e.cummings. Você é um leitor contumaz de poesia?
Já fui. Quando descobri a literatura, de todos os gêneros literários, a poesia era o que mais me fascinava. Li muito Rimbaud, Baudelaire, Pessoa e todos os grande grandes poetas brasileiros. Já para o trabalho de composição, alguns encontros acontecem casualmente. No caso do cummings - como conto no encarte do CD - tinha assistido ao filme 'Hannah e suas Irmãs', do Woody Allen, onde uma personagem lê um poema de amor do poeta. Fiquei com o poema na cabeça durante muitos anos, até que um dia um livro dele caiu em minhas mãos e acabei fazendo a música instantaneamente. Atualmente, tenho me dedicado a uma pesquisa informal sobre poesia erótica para um disco futuro de canções nessa linha.
Você fez um show em Portugal no mês passado e gravou com o cantor e compositor lusitano Sergio Godinho. Como foi a experiência?
Foi muito bom. O Sergio é um compositor popular respeitado por lá, equivalente ao Chico Buarque ou o Edu Lobo no Brasil. É um cara que atravessou a ditadura salazarista com um discurso de resistência. Nosso primeiro contato foi em Salvador (BA), onde fiz um show. Ele estava na platéia e depois veio falar comigo para compor alguma coisa em parceria. Numa primeira tentativa, fui para Portugal mas não conseguimos conciliar as agendas. No mês passado, ele me convidou para participar de um show que faria numa festa do Partido Comunista local e aproveitar para gravar a canção 'Coro das Velhas' de sua autoria e que estará em seu próximo disco. A viagem foi ótima. Os portugueses gostam muito da música brasileira. Meus discos são bem recebidos por lá.
Há três anos, você participou do projeto ''Cinco no Palco'' ao lado de Lenine, Chico Cesar, Paulinho Moska e Marcos Suzano. Vocês fizeram vários shows pelos teatros ligados ao Sesc. O que foi registrado daquela experiência? Ninguém propôs um disco?
Pode parecer pretensioso, mas aquele foi um encontro histórico. Eram cinco artistas da nova geração da música popular brasileira fazendo um show coletivo sem músicos de apoio. Era só a gente no palco cantando músicas uns dos outros. Houve quem comparasse com o 'Grande Encontro', que reuniu Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e Elba Ramalho. Mas foi diferente, porque o encontro deles aconteceu 20 anos depois do momento em que eles despontaram. Ao passo que o nosso registrou os artistas em pleno frescor de suas carreiras. O projeto resultou num especial na TV Cultura. Pensamos em fazer um disco, mas a gravadora do Lenine não permitiu a concretização do projeto. Agora ficou mais difícil, porque cada um tomou um rumo diferente.
Você tem atuado como produtor também. Fale sobre essa experiência.
É um prolongamento de meu trabalho de compositor. Mas só aceito atuar como produtor quando estou disponível e tenho afinidades e identificação com o artista. Já produzi discos das cantoras Rita Ribeiro, Ceumar, Patrícia Amaral e Vange Milliet (este em parceria com Paulo Lepetit). Agora estou finalizando um álbum ao vivo do Antônio Vieira, um sambista de 81 anos do Maranhão, e que será lançado dia 1º de dezembro.
No próximo sábado será realizado o festival ''MPB Londrina'' na cidade. Você participou de eventos do gênero no início da carreira. Como você analisa a sobrevivência desse tipo de vitrine musical?
Acho válido para quem está começando. Eu mesmo, no começo da carreira, participei de um festival tocando para uma platéia de cinco mil pessoas. Há dois domingos fiz um show no Festival de Ilha Solteira, que é o segundo do estado de São Paulo. O primeiro é o de Avaré, do qual participei logo cheguei a São Paulo em 1991. Eles cumprem uma função cultural em cidades do interior. Mas não vejo a mesma importância no plano nacional. Não acredito que volte a acontecer a mobilização como havia nos anos 60 e 70. A Globo tentou resgatar o formato, mas não deu certo. Não apareceu nada marcante. Muita gente até esqueceu o nome de quem foi o vencedor. Outro problema é que, em geral, os festivais privilegiam um tipo de música datada. São aquelas canções caudalosas, meio Vandré, com letras aparentemente engajadas.
• Show de Zeca Baleiro. Hoje a partir das 23 horas, no Canadá Country Club (Av. Juscelino Kubitscheck, 1854), em Londrina. Abertura com a banda Acústicos y Guerreros. Ingressos antecipados a R$ 12,00 e na hora a R$ 15,00. Postos de venda: Pátio San Miguel e Tribo dos Pés.

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